A procura pelos cromos do Mundial de Futebol levou à rutura de stocks em diferentes retalhistas sem capacidade de resposta por parte dos fornecedores. Eventos de troca são cada vez mais comuns e reúnem centenas de pessoas que procuram terminar a coleção, uma das maiores e mais caras de sempre.
Cromos em longas filas em cima das mesas começam a ser alinhavados. A acompanhar estão folhas de papel soltas que indicam os números em falta. São os últimos detalhes para mais uma tarde de troca de cromos organizada pela Colecionar, loja de colecionáveis e outros artigos, localizada na Amadora, num evento que procura fomentar o espírito de entreajuda inerente ao colecionismo.
"Isto acaba por ser também pelo espírito de convívio e entreajuda, que é isso que nós queremos que o evento seja. Não seja pela parte comercial. Isto trata-se de trocar cromos, completar a coleção, não só para o Mundial, mas também para outras coleções", explica Vítor Rodrigues, organizador do evento. Especialista em cibersegurança, Vítor já havia lançado, em 2010, uma plataforma para troca de cromos online. Agora a experiência é ao vivo e a cores.
Os últimos eventos de troca ganharam dimensões quase épicas, com a afluência de centenas de pessoas com um único objetivo: terminar a caderneta oficial do próximo Mundial de Clubes.
"O mundial é o mundial. Eu digo que o fenómeno acaba por rapidamente exponenciar, porque aquilo que se vê este ano é completamente maluco. Não tem nada a ver com anos anteriores", explica à Euronews.
O evento tem hora marcada para as 14h00, mas há quem se antecipe para as chamadas "trocas espontâneas".
Entre os mais madrugadores está o senhor Videira, que traz consigo uma caixa com centenas de cromos repetidos. Hoje procura por algumas coisas específicas, até porque não falta assim tanto para completar a coleção: a sexta que faz desta caderneta. "Tenho assim já uma lista de faltas reduzida para acabar já uma coleção. Não é a primeira, nem segunda, nem a terceira. Pronto, não interessa por aí fora... portanto, é uma questão de sorte aparecer alguém", explica.
Professor de profissão, é colecionador há mais de 60 anos. Começou aos seis e manteve este passatempo que leva bem a sério. Com tantos anos de experiência garante: esta é uma coleção extensa, difícil e cara.
Ao todo, a caderneta é composta por 980 cromos que podem ser adquiridos de diferentes formas. Uma das mais conhecidas são as chamadas saquetas com sete cromos cada, que custam 1,50 euros. Num cenário ideal, sem cromos repetidos, a coleção pode custar no mínimo 210 euros. Mas este é um cenário irrealista.
"É assim, para quem pensa que vai fazê-la com 200 euros, desengane-se. Não faz! Vai ser mesmo, é preciso mesmo muitas trocas", explica o colecionador.
Na mesa à frente está Susana. Veio da zona de Sesimbra, na margem sul do rio Tejo, para participar neste evento de trocas. Hoje procura terminar a coleção do sobrinho porque a sua, essa já está completa. Ao contrário do senhor Videira, esta colecionadora limita-se aos cromos dos Europeus e Mundiais. "Não quer dizer que o meu sobrinho, se quiser um campeonato... Mas obviamente que é a tia que vai fazer", diz à Euronews. "Isto é um gosto que já vem há muitos anos mesmo".
O fenómeno é transversal e acompanha miúdos e graúdos. Entre dezenas de pessoas é possível ver avós, pais, filhos e amigos.
Ainda não tinha passado uma hora desde o início oficial da troca e a primeira pessoa já tinha terminado a sua coleção. Cátia começou há cerca de um mês, tendo as trocas online e estes eventos como os maiores aliados. "A minha filha gosta de fazer e eu também. Esta emoção da troca de cromos é um espetáculo", explica.
"Nunca vi em Portugal um boom tão grande"
A "febre" provocada pela procura de cromos não é medida apenas pela afluência a estes eventos. É que trocar pode ser mesmo a única alternativa para completar a caderneta, uma vez que tem sido difícil encontrar cromos para venda nos últimos dias. Sandra Rodrigues, proprietária da loja Colecionar, explica que os fornecedores não estão a ser capazes de acompanhar o volume de vendas e encomendas.
"Há muita procura e oferta diminuta", explica à Euronews. "Logo, gera este boom caótico. E eu nunca vi em Portugal um boom tão grande pelos cromos. Em todo o lado".
"Eu nunca pensei que isto fosse chegar a este ponto. Nós, em 15 dias, vendemos cerca de 75 mil saquetas, é muito", explica Sandra. "Ontem recebi as mini-tins, que são latinhas que têm oito saquetas lá dentro. Publiquei no TikTok e passado 20 minutos não tinha nenhuma. Tinha recebido para aí umas 100", indica.
"Este Mundial está inexplicável. Eu já vivenciei imensos, estou há 10 anos nisto e nunca tinha passado por nada assim. Nunca!".
Em Portugal, a escassez nas lojas abriu porta a esquemas fraudulentos, com o Portal da Queixa a emitir um aviso público após registar mais de 60 reclamações de consumidores lesados ao tentar comprar coleções e cromos através de plataformas fraudulentas.
A Panini, icónica marca responsável pela produção dos cromos e cadernetas, reconhece o sucesso desta edição, garantindo que a empresa está a trabalhar em permanência para repor os stocks do produto.
"Esta edição do Mundial está completamente esgotada em muitos países como em Espanha e na Alemanha. Mas estamos a trabalhar sete dias por semana, 24 horas por dia, com três turnos de produção, para resolver esse problema", explicou, Lluís Torrent, diretor da Panini em Espanha e Portugal ao Jornal de Notícias.
A caderneta deste ano é a maior de sempre da Panini, com 980 cromos, resultantes do alargamento do torneio de 32 para 48 seleções. A contribuir para o sucesso desta edição está também o facto de se tratar, muito provavelmente, da última participação de estrelas como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.
Os preços também geraram alguma discórdia. 210 euros é o valor mínimo para conseguir completar a coleção, através da compra de saquetas, num cenário ideal, sem a presença de cromos repetidos, o que é praticamente impossível.
Paul Harper, professor de Matemática da Universidade de Cardiff, desenvolveu um cálculo matemático que estima que seriam necessários mais de sete mil cromos para completar a coleção sem trocas. Traduzido em saquetas, isso representaria cerca de 1.574 euros.
Fenómeno não é exclusivo de Portugal
O sucesso da caderneta é um fenómeno verdadeiramente global, principalmente em países com forte tradição futebolística.
O lançamento da caderneta desencadeou uma verdadeira loucura na Argentina, com longas filas e uma procura que rapidamente superou a oferta. No Brasil, as autoridades fizeram mesmo uma apreensão de 200.000 cromos falsificados, no Rio de Janeiro. O Brasil é também uma das seleções mais polémicas uma vez que a Panini teve de anunciar o lançamento de uma atualização que irá incluir um cromo do Neymar, depois das críticas sobre a ausência do craque brasileiro da primeira versão da caderneta - o jogador brasileiro foi um dos convocados mas estava fora das previsões da marca.
Na Europa, em Espanha, também foram reportadas várias ruturas de stock e dificuldades para encontrar cromos e cadernetas, esgotados em papelarias e quiosques.