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Calor recorde revela marcas das alterações climáticas: o que espera a Europa neste verão

Pessoas fazem fila para entrar no Palácio Real num dia de verão quente e soalheiro em Madrid, Espanha, quarta-feira, 19 de julho de 2023
Pessoas formam fila para entrar no Palácio Real num dia de verão quente e soalheiro, em Madrid, Espanha, quarta-feira, 19 de julho de 2023. Direitos de autor  Copyright 2023 The Associated Press. All rights reserved.
Direitos de autor Copyright 2023 The Associated Press. All rights reserved.
De Liam Gilliver
Publicado a Últimas notícias
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"O clima em que vivemos hoje já não é aquele em que crescemos, e os nossos edifícios e infraestruturas estão totalmente despreparados para o que vem aí".

As temperaturas recorde em maio deixaram grande parte da Europa a sufocar, com vários países presos sob uma “poderosa” cúpula de calor, mas os especialistas avisam que o pior ainda está para vir.

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A agência meteorológica francesa Météo France anunciou na segunda-feira, 25 de maio, novos máximos mensais em mais de 350 estações meteorológicas, com a temperatura mais elevada, de 37,1 ºC, registada perto de Hossegor, junto a Biarritz. O calor intenso foi associado a várias mortes e não dá sinais de abrandar.

No Reino Unido, o recorde do dia mais quente de maio foi também batido pelo segundo dia consecutivo, com temperaturas em partes de Londres a ultrapassarem os abrasadores 35 ºC.

Segundo o serviço de previsão meteorológica WFY24, dezenas de capitais europeias registaram temperaturas muito acima do valor máximo climatológico normal para esta altura do ano.

Londres apresentou a maior anomalia, com valores mais de 16 ºC acima da média de maio, enquanto Paris (+14 ºC), Berlim (+11 ºC), Lisboa (+10 ºC) e Madrid (+10 ºC) enfrentaram igualmente temperaturas excecionalmente elevadas. Mesmo regiões mais frescas, como Oslo, registaram temperaturas amenas de 18 ºC, cerca de 3 ºC acima da média para o fim de maio.

Estarão as alterações climáticas por detrás das temperaturas sufocantes de maio na Europa?

Embora os meteorologistas atribuam a persistência do calor intenso a uma cúpula de calor, que aprisiona o ar quente, o próprio fenómeno está a tornar-se mais frequente devido ao aquecimento global provocado pelo ser humano.

“Este calor recorde tem a marca das alterações climáticas por todo o lado”, afirma Friederike Otto, professora de Ciências do Clima no Imperial College London.

“Temperaturas desta ordem eram, antes, excecionais mesmo no pico do verão. Ver 35 ºC no Reino Unido durante a primavera é absolutamente surpreendente, mas a ciência é muito clara: as alterações climáticas tornam estas ondas de calor mais intensas, mais longas e muito mais frequentes.”

Otto avisa que os recordes de temperatura vão continuar enquanto não houver cortes significativos nas emissões globais e os países não alcançarem a neutralidade carbónica.

“O clima em que vivemos hoje já não é aquele em que crescemos e os nossos edifícios e infraestruturas estão dramaticamente despreparados para o que aí vem”, acrescenta. “Apesar de algum progresso na redução das emissões, não está a acontecer com a rapidez necessária.”

Que países serão mais afetados pela subida das temperaturas em 2026?

O Serviço de Alterações Climáticas Copernicus (C3S) da UE e o Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo (ECMWF) preveem que o verão de 2026 será provavelmente influenciado por um “padrão de pressão atmosférica relativamente fraco”.

Isto pode influenciar fortemente as temperaturas, ao limitar os ventos, o que muitas vezes leva a dias parados e muito quentes.

Este verão, as temperaturas sazonais deverão ficar acima da média em todas as regiões, com o sinal mais robusto no sudeste do continente, enquanto o C3S aponta também para precipitação abaixo do normal no leste da Europa.

Ioanna Vergini, fundadora do serviço mundial de previsão do tempo WFY24, afirma ao Euronews Earth que a Europa deve preparar-se para “episódios combinados de calor e seca no sul, um arco de incêndios florestais de Portugal à Grécia, seguidos de cheias repentinas no outono”.

Por cada aumento de 1 ºC na temperatura do ar, a atmosfera consegue reter cerca de 7 por cento mais humidade, o que pode originar episódios de precipitação mais intensa e concentrada.

“O sul da Europa continua a ser o ponto crítico mais vulnerável, mas a Europa central e oriental é a que está a aquecer mais depressa e é a menos adaptada aos dias acima dos 35 ºC, que agora se tornaram rotina”, diz Vergini. “É nas cidades que as pessoas morrem.”

Infraestruturas como o betão e o asfalto absorvem calor, mantendo as temperaturas exteriores elevadas, sobretudo nos centros urbanos. Este fenómeno é conhecido como efeito de ilha de calor urbana.

Como podem os europeus lidar com o calor extremo neste verão?

As cidades europeias estão a agir rapidamente para proteger os cidadãos do stress térmico. Espanha, por exemplo, conta com a rede de abrigos climáticos mais extensa do mundo, que dá acesso a edifícios públicos com lugares para se sentar, água e ar condicionado.

Só em Barcelona existem já 400 abrigos climáticos em edifícios públicos, como bibliotecas, museus, pavilhões desportivos e centros comerciais. Outras cidades estão a seguir o exemplo, com o Conselho Geral de Bucareste a aprovar a criação de abrigos climáticos no início deste mês.

Cidades como Paris também se preparam há décadas para a subida das temperaturas, procurando transformar ruas que retêm calor num “oásis verde”. Desde 2020, mais de 6 000 lugares de estacionamento e 1,3 hectares de asfalto foram removidos para permitir tornar as ruas mais verdes.

Em 2024, existiam quase 100 ruas parisienses com floreiras, permitindo que a natureza se desenvolva lado a lado com a vida urbana. Árvores e plantas melhoram a qualidade do ar, um benefício adicional para cidades poluídas.

Mais de 100.000 árvores foram plantadas em Paris desde 2020, para criar mais sombra para os residentes e aumentar a absorção de gases que retêm o calor.

“Informe-se sobre os avisos de calor do seu país, verifique se os vizinhos idosos estão bem e não confie na noite para arrefecer”, acrescenta Vergini.

“As noites tropicais (quando a temperatura nunca desce abaixo dos 25 ºC) tornaram-se rotina no sul da Europa e agravam o stress diurno no organismo.”

A especialista insta as autoridades a deixarem de encarar o planeamento face ao calor como algo “reativo” e a garantirem que as medidas são programadas com antecedência. “As previsões sazonais oferecem uma margem de vários meses; o que falta é serem usadas de forma operacional”, sublinha.

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