Junho em Lisboa não tem só os Santos Populares: este é também o mês em que o Parque Eduardo VII se transforma na maior livraria do país. 96 anos após a primeira edição, em 1930, a Feira do Livro continua a atrair multidões. Fomos perceber porquê.
Os lisboetas conhecem bem o ritual: desde o fim de maio até meados do mês de junho, o Parque Eduardo VII transforma-se na maior livraria do país: um paraíso para qualquer amante de livros, com dezenas de milhares de títulos à escolha. Este ano, a Feira do Livro tem 350 pavilhões de 128 participantes, que representam, ao todo, cerca de 900 marcas editoriais.
Segundo a organização, as últimas cinco edições tiveram, em média, 850 mil visitantes. Dias como o feriado de 4 de junho, em que a folga a meio da semana se conjugou com o bom tempo, ajudaram certamente a que a média seja novamente atingida, ou mesmo ultrapassada, este ano.
Enquanto uma longa fila de jovens aguardava pacientemente por um autógrafo e dois dedos de conversa com a autora germano-americana S.T. Ashman, outros deambulavam pela Praça Leya, onde se misturavam várias gerações e estilos muito diversos de escritores, de Hugo Van Der Ding e Rodrigo Guedes de Carvalho a Daniel Sampaio, Cristina Norton, Fernando Pinto Amaral, Nuno Rogeiro ou o consagrado autor angolano Pepetela, galardoado com o Prémio Camões em 1997.
"De ano para ano, há mais pessoas, mais gente, e isso é bom. É muito bom porque dizem que as pessoas já não leem e que há cada vez menos leitores. Em parte é verdade, mas, por outro lado, há movimentos de resistência, digamos assim, e este é um exemplo. É uma festa, exatamente como nós gostamos que seja. O livro é uma festa", diz Pepetela à Euronews.
Para Carla Pais, escritora portuguesa a residir em França, a viagem a Portugal para participar na Feira do Livro e outros eventos coincide com o lançamento do mais recente romance, A Sombra das Árvores no Inverno, galardoado na edição do ano passado do Prémio Leya (o maior em Portugal para livros inéditos), e acontece pouco depois de ter publicado também um livro de poesia, A Brutalidade do Movimento Conjugado.
"Estou muito surpreendida, pela positiva, por ver tantas pessoas de tantas gerações diferentes, com crianças, pessoas mais velhas, pais, avós e filhos", diz Carla Pais à Euronews. "Várias gerações que se confrontam e que partilham o mesmo espaço, que é esta paixão pelos livros e pela literatura".
O ponto alto do dia foi, sem dúvida, a presença da autora norte-americana Siri Hustvedt para apresentar a edição portuguesa de Fantasmas, o livro de memórias em que recorda os mais de 40 anos de vida em comum com um dos mais importantes escritores das últimas décadas, Paul Auster, falecido em 2024. A apresentação, a cargo da própria autora e da sua tradutora Tânia Ganho (igualmente escritora), atraiu uma das maiores enchentes desta feira, em que muitos se viram obrigados a ficar de pé ou sentados no chão, porque os lugares eram poucos.
Paulo Santos, 54 anos, quadro da Administração Pública, é um leitor ávido de Auster e Hustvedt e não quis perder a ocasião de trocar algumas palavras, ainda que breves, com a escritora: "Siri é um dos elos que mantém Auster presente, para além da sua extensa obra", diz à Euronews. "Depois do desaparecimento de Auster, senti necessidade de explorar a obra da Siri, ainda que seja um processo muito embrionário, pois ainda li apenas um livro dela, Elegia para um Americano. Auster é um autor que me acompanha há muitos anos e cuja atmosfera literária me seduz, tendo lido e relido quase toda a sua obra. Siri tem alguns pontos de contacto numa escrita que mistura memória, identidade e reflexão", acrescenta.
Já na edição número 96, a Feira do Livro de Lisboa é organizada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), presidida por Miguel Pauseiro: "Haverá sempre alguém que diz que está a vender menos do que no ano passado e outros que dizem que estão a vender mais. Mas o importante para nós é que isto seja um momento de festa, de celebração do livro, para que o livro passe a ser central na nossa vida", diz Pauseiro à Euronews.
A gestão feita pela APEL não passa sem algumas críticas, após a petição lançada pela DNL Convergência, um pequeno grupo editorial que, além de ter as suas próprias chancelas, assegura também a distribuição dos livros de várias outras editoras independentes de pequena dimensão, contra a exclusão anunciada da edição deste ano.
O espaço ocupado por um conjunto de quatro grandes grupos editoriais - Leya, Porto Editora, Penguin e Presença - não passa despercebido a quem visita a feira. Pauseiro rebate as críticas, lembrando que alguns desses grupos representam cerca de 15 chancelas: "Garanto que os grandes grupos, tal como são chamados, têm uma representação na Feira do Livro de Lisboa abaixo daquilo que é a sua representatividade no mercado, quer do ponto de vista de vendas, quer de um ponto de vista de títulos publicados", diz.
"Nós queremos mais. Isso eu posso assegurar. Queremos mais presença de editores na feira, queremos mais presença de autores, queremos mais títulos. Mas temos de reunir condições. A Feira do Livro está a chegar a um ponto máximo de estrutura, no que toca à ocupação do Parque Eduardo VII, e isso vai obrigar a APEL a fazer opções, mas também a que os próprios editores façam opções", acrescenta. "Neste momento, nós temos aqui eventos que representam mais de 1100 autores; portanto, não há falta de diversidade."
Este ano, há cinco novos participantes na Feira do Livro.
Relativamente aos inscritos na edição de 2025, quatro não renovaram a inscrição e seis viram o pedido de pavilhão rejeitado — três por comercializarem, sobretudo, jogos e outros produtos que não são propriamente livros, e outros três por razões que o presidente da APEL não quis desenvolver. Quanto a esses casos, que incluem o da DNL Convergência, Pauseiro garante não haver ressentimentos: "Não há nenhuma acrimónia, não há nenhuma animosidade, não há nenhuma mágoa. No futuro, logo veremos como trazer a bordo novamente estes participantes, cumprindo com os critérios e com as regras da Feira do Livro de Lisboa", garante.
A Feira do Livro de Lisboa dura até domingo, dia 14 de junho.