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Aquecimento global de origem humana torna 12 vezes mais prováveis inundações costeiras raras

ARQUIVO - Ondas quebram na praia onde permanecem os restos da casa de família de Afeli Bernice Adzo, destruída pela erosão costeira em Avegadzi, Gana, 5 de março de 2025
ARQUIVO - Ondas atingem a praia onde ainda restam ruínas da casa de família de Afeli Bernice Adzo, destruída pela erosão costeira em Avegadzi, Gana, em 5 de março de 2025 Direitos de autor  AP Photo/Misper Apawu, File
Direitos de autor AP Photo/Misper Apawu, File
De Angela Symons com AP
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Desde a década de 1960, o aquecimento provocado pelo ser humano tem sido a principal causa da subida do nível do mar, revelam novas investigações.

Cheias extremas, antes raras nas comunidades costeiras, estão a tornar-se muito mais frequentes à medida que as alterações climáticas provocadas pela ação humana fazem subir o nível do mar, indica uma nova investigação publicada em 10 de junho.

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Especialistas dizem que as conclusões são cruciais para planear a proteção contra cheias e das infraestruturas costeiras, à medida que o planeta aquece.

Estas grandes inundações costeiras ocorrem quando marés muito altas e marés de tempestade se combinam com um oceano que já está a subir. Tudo isto soma-se aos padrões naturais do clima e a outros impactos da atividade humana.

Segundo os cientistas, as alterações climáticas tornaram mais intensas tempestades como o furacão Ian, que provocou inundações significativas em 2022. As cheias ameaçam todos os anos centenas de milhões de pessoas em zonas costeiras de baixa altitude em todo o mundo. Provocam também prejuízos de milhares de milhões de euros e podem ser mortais.

Cheias que historicamente tinham uma probabilidade de 1 por cento de atingir uma linha costeira num determinado ano são agora, em média, cerca de 12 vezes mais prováveis, indica um novo estudo publicado na quarta-feira na revista Nature Climate Change. Esses eventos tornaram-se cerca de quatro vezes mais prováveis devido às alterações climáticas provocadas pelo ser humano, mostra a investigação.

ARQUIVO - Pessoas avançam dentro de água num parque de autocaravanas inundado por uma maré de sizígia em 3 de janeiro de 2026, perto de Corte Madera, no condado de Marin, Califórnia
ARQUIVO - Pessoas avançam dentro de água num parque de autocaravanas inundado por uma maré de sizígia em 3 de janeiro de 2026, perto de Corte Madera, no condado de Marin, Califórnia AP Photo/Ethan Swope, File

"Cada cheia costeira hoje em dia traz a marca humana"

Os investigadores analisaram a frequência com que ocorrem episódios extremos de nível do mar – que provocam inundações costeiras – recorrendo a registos de longo prazo de marégrafos em mais de 100 locais, bem como a modelação climática.

O estudo avaliou a evolução entre 1900 e 2005. Ficou limitado até 2005 porque, a partir daí, já não existiam modelos suficientes capazes de identificar a contribuição das alterações climáticas de origem humana. Os autores admitem que os resultados provavelmente subestimam o risco atual, uma vez que, desde então, a influência humana nos extremos costeiros só tem aumentado.

Os investigadores distinguiram quais as alterações causadas pela atividade humana, por forças naturais ou por mudanças na própria paisagem. Embora as variações do nível do mar no início do século XX se devessem sobretudo a fatores naturais, os cientistas concluíram que, desde a década de 1960, o aquecimento provocado pelo ser humano passou a ser a principal razão para a subida do nível do mar.

Um estudo distinto, publicado na quarta-feira na revista Science Advances, reforça também a ideia de que as alturas extremas do oceano resultam das alterações climáticas, em particular em cerca de 58 por cento dos dias com grandes cheias entre 2000 e 2018. Segundo esse trabalho, as alterações climáticas quase triplicaram, em média, desde a década de 1970 o número de dias em que o mar ultrapassa níveis de cheia extrema.

“Praticamente todas as cheias costeiras atuais têm a marca humana, através das alterações climáticas”, afirma Ben Strauss, cientista-chefe da Climate Central e coautor do estudo na Science Advances. “Sem aquele acréscimo do nível do mar causado pelo aquecimento global, a maioria destes episódios não teria chegado a provocar cheias.”

ARQUIVO - Carros e destroços de casas arrastadas pelas águas acumulam-se ao longo de um canal em Fort Myers Beach, Florida, em 5 de outubro de 2022, uma semana depois da passagem do furacão Ian
ARQUIVO - Carros e destroços de casas arrastadas pelas águas acumulam-se ao longo de um canal em Fort Myers Beach, Florida, em 5 de outubro de 2022, uma semana depois da passagem do furacão Ian AP Photo

Queima de combustíveis fósseis é "fator dominante" na subida do nível do mar

O trabalho publicado na Nature Climate Change não analisou em detalhe cada fator humano, explica Sönke Dangendorf, autor principal, mas sublinha que os gases com efeito de estufa – resultantes da queima de combustíveis fósseis como petróleo, gás e carvão – são os mais determinantes.

“Desde a década de 1970 é, de longe, o fator dominante, e isso, naturalmente, não são boas notícias”, afirma Dangendorf, também professor associado na Universidade de Tulane. O investigador alerta que a ameaça está a crescer e que as comunidades têm de fazer mais para estar preparadas.

Jeff Williams, oceanógrafo reformado do Serviço Geológico dos Estados Unidos que não participou em nenhum dos estudos, considera que estes trabalhos mostram que os responsáveis pelo ordenamento têm de ter em conta ameaças crescentes. Devem também ponderar quanto dinheiro será necessário para reforçar a proteção costeira, acrescenta, e decidir quem o vai pagar.

As atuais defesas de Nova Orleães, nos Estados Unidos, “provavelmente deixarão de ser adequadas daqui a algumas décadas”, alerta Williams.

Em todo o mundo, os países recorrem cada vez mais a energias renováveis como a solar e a eólica. No ano passado, a produção de eletricidade limpa cresceu mais do que a procura global de energia elétrica e, pela primeira vez, a quota das renováveis ultrapassou um terço do mix elétrico mundial.

Mesmo nos Estados Unidos, onde a administração Trump promoveu os combustíveis fósseis, a energia solar continua a crescer à medida que a produção a carvão recua. Por isso, cientistas disseram recentemente que o mundo já não segue o cenário de aquecimento mais extremo – mas também ainda não está alinhado com o cenário mais otimista.

“Os impactos, mesmo de uma subida relativamente pequena do nível do mar, podem ser muito significativos nas nossas costas”, afirma Dangendorf, o autor da Tulane.

“Há um lado positivo, porque temos alguma capacidade de controlar quanto emitimos, certo?”, acrescenta. “Podemos travar essa evolução, pelo menos em parte.”

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