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Cruzado marco decisivo: renováveis já cobrem procura global e energia fóssil recua

ARQUIVO - Trabalhadores verificam a qualidade de um painel solar na linha de produção de uma fábrica da ReNew nos arredores de Jaipur, Índia, em 21 de agosto de 2025
ARQUIVO - Trabalhadores verificam a qualidade de um painel solar na linha de produção de uma fábrica da ReNew nos arredores de Jaipur, Índia, 21 ago. 2025 Direitos de autor  AP Photo/Manish Swarup, File
Direitos de autor AP Photo/Manish Swarup, File
De Angela Symons com AP
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Países mantêm aposta nas renováveis para reforçar a segurança nacional apesar dos ataques de Trump à energia eólica e solar

Produção de energia limpa superou o aumento global da procura de eletricidade em 2025, fazendo recuar pela primeira vez a produção a partir de combustíveis fósseis, revela um novo relatório.

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O crescimento recorde da energia solar, sobretudo na China e na Índia, foi um dos principais motores desta evolução.

A produção de eletricidade limpa aumentou 887 terawatts-hora no ano passado, ultrapassando o crescimento da procura mundial de eletricidade, de 849 terawatts-hora, segundo um relatório do think tank energético Ember, divulgado hoje (terça‑feira, 21 de abril).

A Ember analisa dados elétricos de 215 países e estudou números de 2025 para 91 países, que a organização diz representar 93 % da procura global.

No total, a quota das energias renováveis – incluindo solar, eólica, hídrica e outras fontes limpas – ultrapassou pela primeira vez, no ano passado, um terço do mix elétrico mundial, aumentando 33,8 % para 10 730 terawatts-hora.

São sinais encorajadores para um mundo fustigado pelas alterações climáticas, alimentadas pela queima de combustíveis fósseis como o carvão, o petróleo e o gás para responder ao aumento da procura gerado pelo crescimento económico, pelo aumento da população e pela eletrificação. A análise surge também numa altura particularmente sensível, em plena crise energética global, agravada pela guerra dos Estados Unidos no Irão.

Num outro marco histórico, a produção a carvão desceu pela primeira vez para menos de um terço da geração mundial, caindo 0,6 % para 63 terawatts-hora.

“Vimos, nas últimas décadas, que cada novo aumento da procura de eletricidade se traduzia em mais produção a partir de combustíveis fósseis”, explica Nicolas Fulghum, analista de dados sénior da Ember e principal autor do relatório. “Estamos agora a entrar num mundo em que isso deixa de ser verdade.”

“Marcos como as renováveis ultrapassarem o carvão assinalam um momento importante, mas não contam toda a história do setor elétrico”, acrescenta Fulghum. “A grande diferença em relação a há 10, 15 anos, quando os governos prometiam expandir as renováveis, é que agora essas promessas são muito mais credíveis.”

Solar e eólica ganham terreno à nuclear e travam combustíveis fósseis

A energia solar, que cresceu 30 % em 2025, respondeu sozinha por três quartos do aumento líquido da procura de eletricidade do ano passado e, em conjunto com a produção eólica, cobriu 99 % desse acréscimo.

Embora, pela primeira vez, a solar tenha ultrapassado a eólica à escala global no ano passado e ambas se tenham aproximado da energia nuclear, a Ember espera que as duas fontes ultrapassem a nuclear já este ano.

Entretanto, a produção a partir de combustíveis fósseis praticamente estagnou e recuou cerca de 0,2 % em 2025, o equivalente a 38 terawatts-hora, o que faz do ano passado um dos poucos deste século em que não houve aumento.

O crescimento do armazenamento em baterias acompanhou a aceleração da solar em todo o mundo; com a queda de 45 % nos custos das baterias no ano passado, a capacidade de armazenamento aumentou 46 % em 2025. A Ember calcula que foi instalada capacidade suficiente para deslocar 14 % da produção solar adicional do meio‑dia para outras horas do dia.

Trata‑se de um passo essencial para utilizar a energia solar para além das horas de maior insolação, quando é produzida.

“Apesar do crescimento acelerado da procura de eletricidade associado à expansão dos veículos elétricos, das bombas de calor e da eletrificação da indústria, a energia limpa conseguirá responder estruturalmente a esse aumento nos próximos anos e, depois, inverter a curva, reduzindo a quantidade de produção fóssil que utilizamos”, afirma Fulghum. “E isso representa uma rutura clara com o que aconteceu nas últimas décadas.”

Parque solar em funcionamento com turbinas eólicas ao fundo em Datong, China, sexta‑feira, 13 de março de 2026
Parque solar em funcionamento com turbinas eólicas ao fundo em Datong, China, sexta‑feira, 13 de março de 2026 AP Photo/Ng Han Guan

China e Índia aceleram diversificação energética

O último ano marcou também a primeira vez neste século em que tanto a China como a Índia, historicamente grandes utilizadores de energia fóssil, registaram quedas na produção a partir de combustíveis fósseis. Na China, a descida foi de 0,9 %, ou 56 terawatts-hora, e na Índia, de 3,3 %, igualmente 56 terawatts-hora.

Em vez disso, “estão agora a seguir de forma muito agressiva uma estratégia de diversificação, integrando renováveis no sistema. E são essas fontes que hoje impulsionam mais mudanças nos respetivos sistemas elétricos”, afirma Fulghum.

A China liderou o mundo na energia solar e foi responsável por mais de metade do aumento mundial tanto de capacidade instalada como de produção solar no ano passado. A China respondeu também pela maior parte do crescimento da energia eólica, com mais 138 terawatts-hora.

A Índia, por seu lado, registou aumentos recorde tanto na produção solar como na eólica, além de um forte desempenho da hidroeletricidade. Contrariando o padrão de anos anteriores, em que o aumento da produção fóssil era impulsionado pela retoma económica pós‑pandemia, a Índia registou também um crescimento da procura abaixo da média.

Os Estados Unidos e a Europa acrescentaram, respetivamente, 85 e 60 terawatts-hora de energia solar no ano passado, enquanto o recurso a combustíveis fósseis subiu ligeiramente.

ARQUIVO - Turbina eólica em funcionamento junto ao rio Sakonnet, perto de Portsmouth, Rhode Island, 19 de julho de 2025
ARQUIVO - Turbina eólica em funcionamento junto ao rio Sakonnet, perto de Portsmouth, Rhode Island, 19 de julho de 2025 AP Photo/Carolyn Kaster, File

Estados Unidos: ataques de Trump à energia limpa têm pouco efeito

A administração do presidente Donald Trump tem pressionado os líderes da indústria para aumentarem a produção de carvão, petróleo e gás e reduziu o apoio às renováveis; na Europa, porém, a produção a partir de fósseis mantém, em geral, uma trajetória descendente. A análise indica que, apesar das tentativas de travar a energia limpa nos Estados Unidos e dos desafios ligados à guerra, a transição continua a avançar em todo o mundo.

“Com os preços do petróleo extremamente voláteis neste momento por causa da guerra, creio que cada vez mais pessoas olham para o argumento da segurança nacional como razão para pensar em como eletrificar mais setores e aproveitar melhor a energia solar e eólica adicionais, que não dependem de outros países”, afirma Alexis Abramson, diretora da Climate School da Universidade de Columbia, que não participou no estudo.

“Ultrapassámos mesmo um limiar importante: a energia limpa consegue hoje responder de forma competitiva ao aumento da procura e, ao mesmo tempo, ajudar a responder às preocupações de segurança nacional”, acrescenta. “O desafio seguinte é transformar isso também numa redução contínua do uso de combustíveis fósseis. É, por isso, um passo muito positivo na direção certa.”

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