Países mantêm aposta nas renováveis para reforçar a segurança nacional apesar dos ataques de Trump à energia eólica e solar
Produção de energia limpa superou o aumento global da procura de eletricidade em 2025, fazendo recuar pela primeira vez a produção a partir de combustíveis fósseis, revela um novo relatório.
O crescimento recorde da energia solar, sobretudo na China e na Índia, foi um dos principais motores desta evolução.
A produção de eletricidade limpa aumentou 887 terawatts-hora no ano passado, ultrapassando o crescimento da procura mundial de eletricidade, de 849 terawatts-hora, segundo um relatório do think tank energético Ember, divulgado hoje (terça‑feira, 21 de abril).
A Ember analisa dados elétricos de 215 países e estudou números de 2025 para 91 países, que a organização diz representar 93 % da procura global.
No total, a quota das energias renováveis – incluindo solar, eólica, hídrica e outras fontes limpas – ultrapassou pela primeira vez, no ano passado, um terço do mix elétrico mundial, aumentando 33,8 % para 10 730 terawatts-hora.
São sinais encorajadores para um mundo fustigado pelas alterações climáticas, alimentadas pela queima de combustíveis fósseis como o carvão, o petróleo e o gás para responder ao aumento da procura gerado pelo crescimento económico, pelo aumento da população e pela eletrificação. A análise surge também numa altura particularmente sensível, em plena crise energética global, agravada pela guerra dos Estados Unidos no Irão.
Num outro marco histórico, a produção a carvão desceu pela primeira vez para menos de um terço da geração mundial, caindo 0,6 % para 63 terawatts-hora.
“Vimos, nas últimas décadas, que cada novo aumento da procura de eletricidade se traduzia em mais produção a partir de combustíveis fósseis”, explica Nicolas Fulghum, analista de dados sénior da Ember e principal autor do relatório. “Estamos agora a entrar num mundo em que isso deixa de ser verdade.”
“Marcos como as renováveis ultrapassarem o carvão assinalam um momento importante, mas não contam toda a história do setor elétrico”, acrescenta Fulghum. “A grande diferença em relação a há 10, 15 anos, quando os governos prometiam expandir as renováveis, é que agora essas promessas são muito mais credíveis.”
Solar e eólica ganham terreno à nuclear e travam combustíveis fósseis
A energia solar, que cresceu 30 % em 2025, respondeu sozinha por três quartos do aumento líquido da procura de eletricidade do ano passado e, em conjunto com a produção eólica, cobriu 99 % desse acréscimo.
Embora, pela primeira vez, a solar tenha ultrapassado a eólica à escala global no ano passado e ambas se tenham aproximado da energia nuclear, a Ember espera que as duas fontes ultrapassem a nuclear já este ano.
Entretanto, a produção a partir de combustíveis fósseis praticamente estagnou e recuou cerca de 0,2 % em 2025, o equivalente a 38 terawatts-hora, o que faz do ano passado um dos poucos deste século em que não houve aumento.
O crescimento do armazenamento em baterias acompanhou a aceleração da solar em todo o mundo; com a queda de 45 % nos custos das baterias no ano passado, a capacidade de armazenamento aumentou 46 % em 2025. A Ember calcula que foi instalada capacidade suficiente para deslocar 14 % da produção solar adicional do meio‑dia para outras horas do dia.
Trata‑se de um passo essencial para utilizar a energia solar para além das horas de maior insolação, quando é produzida.
“Apesar do crescimento acelerado da procura de eletricidade associado à expansão dos veículos elétricos, das bombas de calor e da eletrificação da indústria, a energia limpa conseguirá responder estruturalmente a esse aumento nos próximos anos e, depois, inverter a curva, reduzindo a quantidade de produção fóssil que utilizamos”, afirma Fulghum. “E isso representa uma rutura clara com o que aconteceu nas últimas décadas.”
China e Índia aceleram diversificação energética
O último ano marcou também a primeira vez neste século em que tanto a China como a Índia, historicamente grandes utilizadores de energia fóssil, registaram quedas na produção a partir de combustíveis fósseis. Na China, a descida foi de 0,9 %, ou 56 terawatts-hora, e na Índia, de 3,3 %, igualmente 56 terawatts-hora.
Em vez disso, “estão agora a seguir de forma muito agressiva uma estratégia de diversificação, integrando renováveis no sistema. E são essas fontes que hoje impulsionam mais mudanças nos respetivos sistemas elétricos”, afirma Fulghum.
A China liderou o mundo na energia solar e foi responsável por mais de metade do aumento mundial tanto de capacidade instalada como de produção solar no ano passado. A China respondeu também pela maior parte do crescimento da energia eólica, com mais 138 terawatts-hora.
A Índia, por seu lado, registou aumentos recorde tanto na produção solar como na eólica, além de um forte desempenho da hidroeletricidade. Contrariando o padrão de anos anteriores, em que o aumento da produção fóssil era impulsionado pela retoma económica pós‑pandemia, a Índia registou também um crescimento da procura abaixo da média.
Os Estados Unidos e a Europa acrescentaram, respetivamente, 85 e 60 terawatts-hora de energia solar no ano passado, enquanto o recurso a combustíveis fósseis subiu ligeiramente.
Estados Unidos: ataques de Trump à energia limpa têm pouco efeito
A administração do presidente Donald Trump tem pressionado os líderes da indústria para aumentarem a produção de carvão, petróleo e gás e reduziu o apoio às renováveis; na Europa, porém, a produção a partir de fósseis mantém, em geral, uma trajetória descendente. A análise indica que, apesar das tentativas de travar a energia limpa nos Estados Unidos e dos desafios ligados à guerra, a transição continua a avançar em todo o mundo.
“Com os preços do petróleo extremamente voláteis neste momento por causa da guerra, creio que cada vez mais pessoas olham para o argumento da segurança nacional como razão para pensar em como eletrificar mais setores e aproveitar melhor a energia solar e eólica adicionais, que não dependem de outros países”, afirma Alexis Abramson, diretora da Climate School da Universidade de Columbia, que não participou no estudo.
“Ultrapassámos mesmo um limiar importante: a energia limpa consegue hoje responder de forma competitiva ao aumento da procura e, ao mesmo tempo, ajudar a responder às preocupações de segurança nacional”, acrescenta. “O desafio seguinte é transformar isso também numa redução contínua do uso de combustíveis fósseis. É, por isso, um passo muito positivo na direção certa.”