A situação grave resulta de secas prolongadas, ausência de precipitação e décadas de má gestão dos recursos hídricos.
No lago Velence, cerca de 40 quilómetros a oeste de Budapeste, os degraus metálicos que antes desciam até à margem agora acabam na areia. A linha de água recuou vários metros.
Segundo Pál Árpád Eötvös, presidente da câmara de Gárdony, localidade ribeirinha do lago, o nível da água estava, no final de maio, apenas 10 centímetros acima do valor mais baixo alguma vez registado.
Especialistas admitem que este limite possa ser atingido já em meados de junho, escreve o site noticioso local Daily News Hungary.
A situação resulta de secas prolongadas, falta de precipitação e décadas de má gestão da água e está a pôr em risco o ecossistema da região e a atividade turística.
Hungria: terceiro maior lago está a desaparecer
Todos os verões o lago Velence recebe muitos turistas que ali vão velejar e nadar.
Mas em 9 de junho, o nível da água media 56 cm junto à localidade de Agárd, segundo dados da Direção-Geral Nacional de Gestão da Água.
O valor fica apenas 3 cm acima do mínimo histórico de 53 cm, registado em 2022, quando a Hungria foi atingida por uma seca extrema.
Os meses mais quentes ainda estão por chegar e, nesse período, o nível da água pode descer entre 20 e 25 cm num só mês, avança o Daily News Hungary.
Sem chuva significativa, o nível pode baixar meio centímetro por dia e descer até aos 30 cm no fim do verão, disseram especialistas à Reuters.
Segundo Tibor Horanyi, da Associação dos Grandes Lagos, as alterações climáticas estão a acelerar o desaparecimento do lago, mas décadas de má gestão hídrica, como a drenagem de zonas húmidas para uso agrícola, também têm responsabilidade.
Embora os registos históricos indiquem que o lago Velence já secou por completo no passado, o que preocupa agora é a frequência das situações de falta de água.
Atualmente, a perda anual de água do lago – sobretudo por evaporação – é superior à água que entra através da precipitação.
Turismo e vida selvagem em risco
Empresas turísticas que oferecem passeios de barco de recreio ou excursões de vela já sentem o impacto. Segundo o Daily News Hungary, muitas nem sequer abriram esta época e alguns proprietários de embarcações mudaram-se entretanto para o vizinho lago Balaton.
A fauna do lago também está a sofrer, explicou Tóth Sándor, engenheiro civil e presidente da Ordem dos Engenheiros do condado de Fejér, num artigo publicado na secção G7 do site noticioso Telex.
A prolongada escassez de água está a degradar os canaviais, enquanto aves aquáticas e peixes veem o seu habitat encolher.
As aves nidificantes e as crias também correm riscos, já que antigas ilhas de reprodução estão a transformar-se em terreno seco.
A pouca profundidade faz ainda com que a água aqueça mais depressa, acelerando a proliferação de algas e degradando a qualidade da água.
Pode a água do lago ser reposta?
Em anteriores episódios extremos de escassez de água, o lago Velence foi alimentado a partir de outras fontes. No início da década de 1990, por exemplo, canalizou-se água do aquífero cársico de Rákhegy para o reencher.
Mas esta solução deixou de ser viável, devido ao aumento das necessidades de abastecimento público e à redução das reservas.
Os especialistas defendem antes a reabilitação das albufeiras vizinhas de Zámolyi e Pátkai, para aumentar o volume de água acumulada em períodos de chuva que pode ser encaminhada para o lago Velence.
Os trabalhos passam por remover sedimentos e limitar atividades como a pesca, que prejudicam a qualidade da água.
Outra proposta, segundo Sándor, é começar a reutilizar a água tratada nas estações de tratamento de águas residuais da região.
As instalações de Agárd e Csákvár produzem, respetivamente, 4,3 milhões e 0,3 milhões de metros cúbicos de água tratada por ano, que atualmente sai da bacia hidrográfica.
Outra sugestão, mais ambiciosa, passa por transferir água do Danúbio, através de captações em poços ribeirinhos ou por extração direta à superfície. Mas em ambos os casos seria necessário construir infraestruturas significativas, como estações de bombagem e dezenas de quilómetros de condutas.
No caso de captação de água bruta, seria ainda preciso fazer um pré-tratamento para impedir que substâncias perigosas ou organismos como algas e espécies invasoras sejam transportados para o lago Velence.
«Só a reposição de água pode oferecer uma solução para melhorar o estado atual do lago», escreve Sándor, mas «a concretização das soluções finais exige muita prudência».
Segundo a Reuters, o ministro do Ambiente, Laszlo Gajdos, reuniu-se na semana passada com ONG locais, autarcas e especialistas em gestão da água para discutir o futuro do lago.