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Famílias de desaparecidos do México fazem do Mundial um apelo de socorro

Ativistas e familiares de mais de 134 000 desaparecidos no país afixam cartazes de pessoas desaparecidas na Cidade do México, sábado, 30 de maio de 2026
Ativistas e familiares das mais de 134 mil pessoas desaparecidas no país colocam cartazes de desaparecidos na Cidade do México, sábado, 30 de maio de 2026 Direitos de autor  AP Photo
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De Christina Thykjaer
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As famílias das mais de 133 mil pessoas desaparecidas no México transformaram o Mundial de futebol num megafone internacional para denunciar uma crise que consideram ignorada.

Enquanto milhões de pessoas acompanham os jogos do Mundial de 2026, no México há quem tenha decidido aproveitar o maior palco desportivo do planeta para lembrar uma realidade muito menos visível: a das mais de 133 mil pessoas desaparecidas no país.

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Longe dos estádios, dos holofotes e das campanhas promocionais, grupos de familiares lançaram uma iniciativa batizada de "Mundial pelos Desaparecidos", um conjunto de ações que procura levar a sua exigência de verdade e justiça a uma audiência global.

Entre esses grupos está "Fuerzas Unidas por Nuestros Desaparecidos y Desaparecidas en Nuevo León" (FUNDENL), organização formada por familiares que procuram os seus entes queridos há mais de uma década.

"Temos mais de 15 anos nesta luta", explica à Euronews Angélica Orozco, membro e porta-voz do coletivo.

"O Mundial pelos Desaparecidos é um conjunto de ações que vimos a realizar desde 10 de maio, quando lançámos uma campanha em 11 idiomas com a pergunta que nos fazemos sempre: 'Onde estão?'".

A escolha do momento não é casual. O México está a coorganizar o Mundial com os Estados Unidos e o Canadá, e cidades como Monterrey, Guadalajara e Cidade do México recebem nestes dias muita atenção internacional.

Para as famílias, trata-se de uma oportunidade única para dar visibilidade a uma crise que consideram ignorada dentro e fora do país.

O Estádio de Monterrey encher-se-ia mais de duas vezes com todas as pessoas desaparecidas que há no México
Angélica Orozco
Fuerzas Unidas por Nuestros Desaparecidos y Desaparecidas en Nuevo León
Ativistas e familiares das mais de 134 000 pessoas desaparecidas no país colocam cartazes de pessoas desaparecidas na Cidade do México, no sábado, 30 de maio de 2026
Ativistas e familiares das mais de 134 000 pessoas desaparecidas no país colocam cartazes de pessoas desaparecidas na Cidade do México, no sábado, 30 de maio de 2026 AP Photo

Do futebol de rua à denúncia internacional

A campanha adotou símbolos futebolísticos para passar a sua mensagem. Uma das iniciativas mais visíveis são as chamadas "cascaritas por las y los desaparecidos" (jogos de bola em homenagem aos desaparecidos) , pequenos jogos informais de bairro organizados pelos próprios coletivos.

"Nós nunca vamos poder ir a um destes jogos do Mundial, pelos custos e pelo que isso significa", afirma Orozco. "Em vez disso, vamos organizar jogos na rua, com as pessoas, com o bairro".

Durante estes encontros, os participantes jogam com camisolas intervencionadas com palavras de ordem como"gritemos pelos desaparecidos como gritamos por um golo" ou "mais de 133 mil desaparecidos".

Criaram também uma "seleção mexicana" muito particular com recurso à inteligência artificial: uma equipa composta por 21 pessoas desaparecidas cujos rostos surgem vestidos com a camisola nacional.

"É uma representação das mais de 133 mil pessoas desaparecidas que há no México", explica. "A cada uma atribuímos como número o último dia em que foi vista pela família".

Queremos que o Estado olhe para as pessoas desaparecidas com a mesma atenção que está a dedicar a este evento mundial
Angélica Orozco
Fuerzas Unidas por Nuestros Desaparecidos y Desaparecidas en Nuevo León

A campanha chegou também aos arredores do Estádio Monterrey, um dos palcos do Mundial, onde ativistas colocaram mais de 150 fichas com fotografias de desaparecidos. A mensagem procura estabelecer um contraste entre a dimensão do evento desportivo e a escala da crise.

"O Estádio de Monterrey encher-se-ia mais de duas vezes com todas as pessoas desaparecidas que há no México", afirma Orozco. "Para lá do número, são pessoas que têm um nome, uma família e há quem continue à sua procura".

Uma crise que não abranda

México vive há anos uma das maiores crises de desaparecimentos do mundo. Segundo dados oficiais, o país ultrapassa as 133 mil pessoas desaparecidas e não localizadas. Para os coletivos, a persistência do problema tem uma explicação clara: a impunidade.

"Mantêm-se as mesmas condições para que qualquer pessoa possa ser vítima de desaparecimento forçado", sustenta Orozco. "Os mesmos funcionários que, na altura, não fizeram o seu trabalho continuam em postos-chave de busca, investigação e segurança. Apenas mudam de cadeira".

A ativista denuncia ainda que muitos responsáveis nunca foram julgados ou continuam a atuar. "Temos verificado que muitos dos criminosos continuam em liberdade e voltaram a cometer os mesmos delitos que praticaram em 2010 e 2011", assegura.

A consequência, afirma, é que ninguém está completamente a salvo. "Pode desaparecer qualquer pessoa. Vimos casos de alguém que vai à loja comprar um refrigerante e desaparece; jovens que saem para uma festa e já não regressam; pessoas arrancadas das próprias casas. São atividades quotidianas que qualquer pessoa realiza".

A gravidade da situação foi assinalada recentemente por organismos internacionais. O Comité das Nações Unidas contra o Desaparecimento Forçado decidiu elevar o caso mexicano perante a Assembleia Geral da ONU após concluir que existem "indícios fundados" de desaparecimentos forçados que podem equivaler a crimes contra a humanidade. O organismo também alertou para a existência de milhares de fossas clandestinas e dezenas de milhares de restos humanos por identificar.

Mundial como caixa de ressonância

Nas últimas semanas, vários movimentos sociais mexicanos aproveitaram a atenção gerada pelo Mundial para aumentar a pressão sobre as autoridades. Sindicatos de professores, organizações de bairro e coletivos de familiares de desaparecidos protagonizaram protestos e ações públicas coincidindo com a chegada de visitantes internacionais.

Para Orozco, o objetivo não é ensombrar a competição, mas recordar uma realidade que continua a afetar milhares de famílias. "Queremos que o Estado olhe para as pessoas desaparecidas com a mesma atenção que está a dedicar a este evento mundial", afirma. "O Mundial é importante, mas mais importantes deveriam ser os seus cidadãos e cidadãs".

A ativista denuncia que, enquanto as autoridades investem recursos para projetar uma imagem positiva do país, as famílias continuam a enfrentar deficiências estruturais na busca dos seus entes queridos.

"No México já existem leis e um quadro jurídico que alcançámos após anos de luta. No entanto, não há planos de busca nem planos de investigação. O Registo Nacional de Pessoas Desaparecidas é um desastre", lamenta.

Apelo ao mundo

Para lá da denúncia política, a campanha persegue um objetivo simples: que o mundo conheça os rostos por detrás das estatísticas.

As famílias levaram mesmo esses nomes para lá das fronteiras terrestres. Orozco recorda que participaram recentemente numa iniciativa ligada à missão espacial Artemis para enviar os nomes de pessoas desaparecidas para o espaço.

"Já os levámos até às estrelas. Já os levámos até à Lua. Agora queremos que sejam conhecidos em todo o mundo", explica.

A sua mensagem final transcende a conjuntura desportiva e apela diretamente à comunidade internacional.

"Estamos a lançar um apelo à humanidade para que olhe para o que está a acontecer no México", conclui.

"Ninguém deveria poder ser vítima de desaparecimento. Os desaparecimentos forçados são crimes contra a humanidade e afetam toda a humanidade no seu conjunto".

Enquanto a bola continua a rolar nos estádios do Mundial, as famílias mexicanas continuam a disputar outro jogo muito mais longo e doloroso: o da procura de quem ainda não voltou a casa.

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