Após meses de adiamentos, Teerão organiza um funeral de seis dias em várias cidades para o falecido aiatola Ali Khamenei, sob forte segurança e negociações frágeis EUA-Irão sobre Hormuz, nuclear e sanções.
O Irão prepara-se para realizar o maior funeral de Estado da história da República Islâmica, com cerimónias em cinco cidades no Irão e no Iraque ao longo de seis dias a partir de sábado, enquanto o país sepulta o falecido aiatola Ali Khamenei quase quatro meses após a sua morte nos ataques iniciais dos Estados Unidos e de Israel, a 28 de fevereiro, no início da guerra.
Khamenei foi líder supremo da República Islâmica durante 37 anos, o segundo mandato mais longo desde a fundação do regime na sequência da revolução de 1979.
Nascido em 1939 em Mashhad, foi presidente do Irão entre 1981 e 1989 antes de ser escolhido como aiatola pela Assembleia de Peritos, o órgão eleito de estudiosos islâmicos responsável por nomear o líder supremo, após a morte do aiatola Ruhollah Khomeini.
O corpo está em câmara ardente desde o início da guerra. O atraso de quatro meses resultou diretamente do conflito, do cessar-fogo e do subsequente processo de negociação.
As autoridades afirmam que o calendário foi agora fixado para uma fase de relativa desescalada, com o Irão e os Estados Unidos a suspenderem as trocas de fogo enquanto prosseguem as negociações sobre o memorando de entendimento.
Teerão quer garantir que a cerimónia decorre sem perturbações, perante uma audiência internacional.
Calendário e dimensão
As cerimónias começam em Teerão no sábado e domingo, no complexo de oração Mosalla, o principal espaço da cidade para grandes reuniões religiosas de Estado.
O Mosalla, cujo nome significa "local de oração", tem acolhido funerais de altas figuras da República Islâmica e funciona como centro simbólico das cerimónias oficiais de luto.
A principal procissão fúnebre realiza-se na segunda-feira ao longo de um percurso de 10 quilómetros, da Praça Imam Hossein até à Praça Azadi, ou "Liberdade", o vasto espaço público que tem sido palco de algumas das maiores concentrações da história iraniana, desde a revolução de 1979 até aos maiores protestos no país.
O presidente da câmara de Teerão afirmou que são esperadas cerca de 20 milhões de pessoas, descrevendo o evento como «a maior concentração na história da cidade».
A procissão segue depois para Qom, em 7 de julho, num trajeto entre o santuário de Fátima Masoumeh e a mesquita Jamkaran.
Qom é o centro do ensino islâmico xiita no Irão e a mais importante cidade de seminários do mundo para o xiismo dos Doze Imames.
A mesquita Jamkaran, nos arredores da cidade, está associada ao Imam Oculto, o Mahdi, e é um dos mais significativos locais de peregrinação do Islão xiita.
Prevê-se que as temperaturas atinjam cerca de 45 graus Celsius.
O corpo será depois transferido para o Iraque, onde estão previstas cerimónias em Najaf e Karbala, as duas cidades mais sagradas do Islão xiita, que acolhem os santuários do Primeiro Imam, Ali, e do Terceiro Imam, Hussein.
O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, visitou ambas as cidades numa deslocação ao Iraque e reuniu-se com os respetivos governadores para acelerar os preparativos.
O enterro final terá lugar em Mashhad em 9 de julho.
Mashhad, cidade natal de Khamenei, é a mais sagrada do Irão. Abriga o santuário do Imam Reza, oitavo imam do Islão xiita, e a mais rica fundação religiosa do país, a Astan Quds Razavi, um vasto império económico cujos laços financeiros se estendem por instituições estatais, incluindo os IRGC.
As autoridades calculam que entre oito e dez milhões de pessoas irão assistir ao enterro.
Segurança, logística e ausência de Mojtaba Khamenei
A organização paramilitar Basij está a coordenar a logística. As autoestradas de Teerão serão transformadas em parques de estacionamento temporários e mesquitas, escolas, pavilhões desportivos e universidades serão adaptados para alojamento.
Cada um dos 22 distritos de Teerão irá receber participantes de uma das 31 províncias iranianas. Prevê-se o cancelamento de voos e uma forte restrição à entrada nas principais cidades.
A Guarda Revolucionária foi encarregada da segurança e do controlo de multidões nas principais cidades. Um comité presidido pelo primeiro vice-presidente, Mohammad Reza Aref, supervisiona os preparativos há semanas.
Continua a não ser claro se Mojtaba Khamenei, o novo aiatola do Irão, que não surgiu em público desde a sua nomeação após a morte do pai, irá participar nas cerimónias.
Meios de comunicação norte-americanos noticiaram, citando responsáveis iranianos, que Mojtaba Khamenei sofreu ferimentos graves nos ataques que mataram o pai e foi submetido a várias cirurgias. O Irão não confirmou essas informações.
O presidente paquistanês, Asif Ali Zardari, e o primeiro-ministro, Shehbaz Sharif, confirmaram o envio de uma delegação oficial.
Mantém-se a incerteza sobre que dirigentes dos Estados árabes do Golfo, vários dos quais foram alvo de mísseis e drones iranianos durante a guerra, ou da Rússia e da China irão participar e em que nível.
Três funerais criam precedentes
A escala do que está a ser preparado convida à comparação com três anteriores momentos de grande luto oficial.
O funeral de 1989 do aiatola Khomeini, o fundador da República Islâmica, acabou em caos quando a procissão foi esmagada pela multidão, o corpo quase se perdeu, partes do sudário foram rasgadas e foi necessário recorrer a um helicóptero para concluir o transporte.
Daquele cenário de desorganização acabou por sair a escolha de Ali Khamenei como sucessor, pela Assembleia de Peritos, numa decisão amplamente vista como inesperada, inclusive para o próprio Khamenei. Ao longo das décadas, consolidou um poder quase absoluto, afastando rivais em todo o espectro político.
O funeral em 2020 de Qassem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária do Irão decorreu com participação massiva em oito cidades do Irão e do Iraque.
Soleimani foi morto num ataque de drone norte-americano no Aeroporto Internacional de Bagdade em 3 de janeiro de 2020, ordenado por Trump durante o primeiro mandato, o primeiro ataque direto dos Estados Unidos que matou um alto responsável militar iraniano.
A procissão fúnebre na sua cidade natal, Kerman, terminou numa vaga de esmagamento da multidão que causou a morte a dezenas de pessoas. Khamenei chorou em público durante a cerimónia.
O funeral em 2024 do presidente Ebrahim Raisi, que morreu na queda de um helicóptero no noroeste do Irão em maio desse ano, atraiu grandes multidões em várias cidades.
O acidente, em terreno montanhoso com nevoeiro perto da fronteira com o Azerbaijão, matou Raisi, o ministro dos Negócios Estrangeiros Hossein Amir-Abdollahian e mais seis pessoas.
O corpo foi posteriormente transferido para Mashhad, cidade de grande peso religioso e político, conhecida pela ligação à fundação Astan Quds Razavi e à Guarda Revolucionária.
Negociações travam em pontos-chave
O funeral decorre num contexto de frágil memorando de entendimento entre o Irão e os Estados Unidos, assinado em 17 de junho, que abriu uma janela de 60 dias para negociações finais.
Mas os desacordos de fundo permanecem significativos.
O programa nuclear iraniano é um dos pontos centrais. O JCPOA, o acordo nuclear de 2015 ao abrigo do qual o Irão aceitou limitar o enriquecimento em troca de levantamento de sanções, foi abandonado por Trump em maio de 2018, no primeiro mandato, desencadeando um recuo progressivo de Teerão nos compromissos assumidos.
Desde então, a reserva de urânio enriquecido do Irão terá aumentado para cerca de 440 quilogramas com enriquecimento a 60%, abaixo do limiar de 90% para material de qualidade militar, mas suficiente, se for processado posteriormente, para produzir várias ogivas nucleares.
Enquanto Washington exige limites ao enriquecimento e a remoção das reservas, Teerão insiste que os seus direitos nucleares não são negociáveis e que quaisquer concessões dependem primeiro de um alívio concreto das sanções.
O Irão procura igualmente a libertação de milhares de milhões de dólares em ativos congelados no estrangeiro, mas divergências com Washington sobre a forma como esses fundos podem ser utilizados têm criado fricções adicionais.
Novas rondas de conversações, com mediação conjunta do Paquistão e do Qatar, são esperadas em Doha na terça-feira.