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Bombas e munições por todo o lado: vestígios da guerra estão a tornar-se um problema na Alemanha

Oranienburg é considerada a cidade alemã mais afetada por munições da Segunda Guerra Mundial.
Oranienburg é considerada a cidade da Alemanha mais contaminada por munições da Segunda Guerra Mundial. Direitos de autor  Foto: Kerstin Klaus / Stadt Oranienburg / Amt für Brandschutz
Direitos de autor Foto: Kerstin Klaus / Stadt Oranienburg / Amt für Brandschutz
De Maja Kunert
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Mais de 80 anos após o fim da guerra, continuam enterradas na Alemanha enormes quantidades de munições da Segunda Guerra, como em Oranienburg, em Brandemburgo, onde 270 bombas aguardam remoção; calor, seca e fogos florestais aumentam o perigo.

Só na semana passada, o baixo nível do Reno em Colónia-Deutz deixou a descoberto uma bomba americana de 250 quilos da Segunda Guerra Mundial. Foi criado um perímetro de segurança de 400 metros, cerca de 360 moradores tiveram de abandonar as suas casas e o teleférico de Colónia suspendeu o serviço. Até o canal privado RTL teve de evacuar o seu centro de emissão e transmitir temporariamente a partir de Berlim. Só ao final da noite a bomba foi desativada.

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Descobertas deste tipo não são exceção na Alemanha, são o dia a dia. São vestígios de uma guerra de bombas que terminou há mais de 80 anos, mas continua a deixar marcas no subsolo. Segundo um levantamento do Bundestag, publicado no verão de 2022, permaneciam enterradas em todo o país entre 100 000 e 300 000 toneladas de antigas munições; todos os anos são removidas cerca de 5 000 bombas não detonadas. Dados mais recentes indicam que pouco mudou. A maior concentração regista-se precisamente numa pequena cidade a norte de Berlim: Oranienburg.

O nível do Reno desceu para um mínimo histórico durante uma onda de calor e devido a uma seca prolongada.
O nível do Reno desceu para um mínimo histórico durante uma onda de calor e devido a uma seca prolongada. Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved.

Desativar bombas não detonadas é rotina na Alemanha

A 2 de setembro poderá haver ali uma operação para a qual até 4 700 pessoas terão de deixar as suas casas a partir das 8 horas da manhã. Motivo: uma operação de desativação de bomba planeada ao detalhe. Já no dia anterior, durante a escavação, será verificado se se trata, como supõem os especialistas, de facto de uma bomba não detonada com espoleta ainda funcional. O círculo de segurança previsto tem um raio de mil metros, o nível freático no local da descoberta tem de ser baixado antecipadamente e, desde já, 28 contentores marítimos, transformados numa barreira de proteção contra estilhaços, protegem as habitações vizinhas.

“Todas as medidas preparatórias articulam-se entre si. Cada uma delas é necessária para podermos expor a bomba não detonada em condições de segurança e para o serviço de desativação de munições proceder à neutralização”, explica Jan Fielitz, chefe do serviço de proteção contra incêndios, num comunicado da câmara municipal de Oranienburg. A bomba encontra-se a seis metros e meio de profundidade. As operações desta dimensão são competência do Serviço de Desativação de Munições do Land Brandemburgo, o Kampfmittelbeseitigungsdienst (KMBD).

Zona de limpeza de munições “Bachstelzenwiese”, no bairro de Lehnitz, em Oranienburg.
Zona de limpeza de munições “Bachstelzenwiese”, no bairro de Lehnitz, em Oranienburg. Foto: Kerstin Klaus / Stadt Oranienburg / Amt für Brandschutz

Contexto histórico: no início de 1942, a direção militar britânica decidiu bombardear cidades alemãs. O modelo para os bombardeamentos em área foram os devastadores ataques aéreos alemães anteriores sobre Londres e Coventry ou Varsóvia. Até 1945, os Aliados lançaram ataques aéreos contra cerca de 150 cidades alemãs, causando mais de meio milhão de mortos.

Em 13 e 14 de fevereiro de 1945, três ondas de bombardeiros americanos e britânicos destruíram Dresden e mataram até 25 000 pessoas.
Em 13 e 14 de fevereiro de 1945, três ondas de bombardeiros americanos e britânicos destruíram Dresden e mataram até 25 000 pessoas. AP/AP1997

Oranienburg é hoje considerada o município alemão mais contaminado por bombas da Segunda Guerra Mundial. Especialistas estimam que ainda subsistam no subsolo entre 200 e 270 grandes bombas não detonadas. A explicação está na história da cidade: Oranienburg acolhia as Auer-Werke, onde os Aliados supunham existir uma unidade de processamento de urânio, as fábricas de aviões Heinkel e uma estação ferroviária de importância estratégica. Por isso, a 15 de março de 1945, a 8.ª Força Aérea dos Estados Unidos lançou sobre a cidade o mais pesado ataque aéreo, largando milhares de bombas, uma parte significativa delas equipada com espoletas químicas de retardamento.

Essas espoletas foram concebidas para provocar a explosão deliberadamente apenas 12 a 48 horas após o impacto, com o objetivo de atingir equipas de salvamento e limpeza e de desmoralizar a população. Contudo, devido à particular composição do solo em Oranienburg, muitas bombas rodaram ao entrar na terra, o que impediu o mecanismo de disparo de funcionar como previsto: as bombas permaneceram armadas, mas não explodiram.

Uma bomba da Segunda Guerra Mundial é transportada numa viatura após ser desativada (imagem de arquivo).
Uma bomba da Segunda Guerra Mundial é transportada numa viatura após ser desativada (imagem de arquivo). Copyright 2013 AP. All rights reserved.

É precisamente isso que torna a situação tão delicada até hoje. O deputado estadual social-democrata Björn Lüttmann explica, em declarações à Euronews: “Já ocorreram algumas explosões espontâneas na área urbana, felizmente sem vítimas. O facto de bombas não detonadas poderem explodir não é, portanto, um perigo abstrato, mas uma realidade que afeta a vida local.” Os especialistas em munições são unânimes: “Se as bombas não detonadas não forem encontradas, mais cedo ou mais tarde ocorrerão explosões espontâneas”.

Como se encontra e desativa uma bomba

A procura de bombas não detonadas começa muito antes de se pegar numa pá. A base são fotografias aéreas históricas tiradas por aviões de reconhecimento aliados durante e após os ataques, para documentar a precisão dos seus próprios bombardeamentos. Brandemburgo adquiriu essas imagens assim que ficaram disponíveis e fez delas a base de uma busca sistemática de munições, financiada pelo Land. Em Oranienburg, um parecer da Universidade Técnica de Brandemburgo em Cottbus, o chamado relatório Spyra, serve desde 2008 como fundamento técnico adicional: divide o território municipal em diferentes classes de risco e define onde é necessário procurar com especial intensidade.

No terreno, recorrem-se depois a vários métodos: a sondagem por furos mede alterações no campo magnético terrestre, o radar de furo torna visíveis objetos refletores no subsolo e o mais moderno método Ultra-TEM permite identificar até a forma de um objeto metálico sem necessidade de escavação.

Se a suspeita se confirmar, o município isola primeiro uma vasta área em redor antes de começar a verdadeira escavação. A fase mais crítica vem depois: identificar e retirar a espoleta, diretamente no local da descoberta.

Calor, seca e um perigo adicional

As alterações climáticas agravam ainda mais o problema. Em florestas contaminadas por munições, como a Gohrischheide, entre a Saxónia e Brandemburgo, ou no Harz, os períodos de seca provocam regularmente incêndios florestais em que os bombeiros, devido ao perigo das munições, têm de manter distância e só podem atuar com aviões ou robots de combate a incêndios. Com cerca de 12 por cento do seu território suspeito de conter munições, Brandemburgo é, de longe, o Land alemão mais afetado. Já em 2019, o então ministro do Interior, Michael Stübgen, alertou que os incêndios florestais levaram o KMBD “até ao limite da sua capacidade”.

Bombeiros em Brandemburgo combatem em 2022 um grande incêndio florestal no distrito de Elbe-Elster.
Bombeiros em Brandemburgo combatem em 2022 um grande incêndio florestal no distrito de Elbe-Elster. (c) Copyright 2022, dpa (www.dpa.de). Alle Rechte vorbehalten

Também o deputado federal democrata-cristão Uwe Feiler sublinha, em entrevista à Euronews, que a seca estival agrava ainda mais a situação. Os novos fundos federais não devem ser vistos apenas como uma ajuda para Oranienburg. Como Brandemburgo possui vastas áreas florestais, algumas delas contaminadas por munições, e é repetidamente atingido por incêndios, os resíduos de munições no subsolo representam um perigo adicional e crescente. Esta combinação de resíduos de munições e risco de incêndio florestal será, segundo afirma, um dos temas centrais do próximo orçamento federal.

Brandemburgo: desde 1991 mais de 300 milhões de euros para limpar munições

Desde 1991, o Land Brandemburgo gastou mais de 303 milhões de euros na remoção de munições, cerca de um terço dos quais financiados pela Federação. Só para Oranienburg, foram canalizados desde 1996 mais de 107 milhões de euros. Em 2021, a desativação de munições em Oranienburg implicou despesas de cerca de 4,3 milhões de euros.

Para o ano de 2025, o KMBD comunicou, até ao final de novembro, cerca de 360 toneladas de munições encontradas em Brandemburgo e despesas de 11,9 milhões de euros, com cerca de 580 000 hectares do território do Land ainda sob suspeita de conter munições.

O Serviço de Desativação de Munições (KMRD) desativou com sucesso, a 8 de abril, em Koblenz, uma bomba de 500 quilos da Segunda Guerra Mundial.
O Serviço de Desativação de Munições (KMRD) desativou com sucesso, a 8 de abril, em Koblenz, uma bomba de 500 quilos da Segunda Guerra Mundial. (c) Copyright 2026, dpa (www.dpa.de). Alle Rechte vorbehalten

O líder da bancada social-democrata no parlamento de Brandemburgo, Björn Lüttmann, resume o desequilíbrio: “Não se pode falar de uma repartição justa dos custos. O Land e a cidade suportam a maior parte do encargo, o que significa vários milhões de euros por ano para a remoção de munições. Cerca de metade do orçamento do Land para a desativação de munições vai só para Oranienburg.”

Mais apoio da Federação?

O impulso mais recente veio, de facto, de Berlim: em novembro de 2025, a comissão de Orçamento do Bundestag criou pela primeira vez uma rubrica própria, denominada “Proteção nacional do solo”, com 7 milhões de euros anuais para eliminar munições aliadas antigas.

Uwe Feiler, relator para a rubrica correspondente, falou de um “marco em termos de segurança e política ambiental”.

Ainda assim, a deputada estadual democrata-cristã Nicole Walter-Mundt relativiza as expectativas em torno da nova verba: “Os sete milhões de euros são, antes de mais, uma dotação orçamental nacional e não uma quantia reservada em exclusivo para Oranienburg”, explicou à Euronews.

O próprio Feiler confirma que o tratamento preferencial de determinados municípios nem sequer é juridicamente possível: “Temos naturalmente de olhar para todo o território federal. E, se Oranienburg beneficiar disso, tanto melhor.”

Em 2019, uma bomba americana de 250 quilos da Segunda Guerra Mundial é detonada no rio Main, em Frankfurt am Main.
Em 2019, uma bomba americana de 250 quilos da Segunda Guerra Mundial é detonada no rio Main, em Frankfurt am Main. AP

Uma tarefa para gerações

O Serviço de Desativação de Munições (KMBD) do Land Brandemburgo evita fazer previsões. Questionado sobre quando Oranienburg poderá ser considerada amplamente livre de munições, o serviço respondeu por escrito que não é possível fazer uma estimativa. Alguns especialistas consideram que ainda se encontrarão bombas não detonadas na Alemanha daqui a mais de 100 anos. Sobre a evolução futura dos custos, o KMBD escreve: “Em linha com a subida geral dos preços, é de esperar também um aumento contínuo dos custos da remoção de munições.”

Pelo menos o político democrata-cristão de Brandemburgo Uwe Feiler mostra-se convencido de que a experiência acumulada pela Alemanha, ao longo de décadas, no tratamento de resíduos de munições poderá servir de exemplo a outros países confrontados com desafios semelhantes.

Até lá, a Alemanha tem, porém, trabalho de sobra com as quase diárias desativações de bombas não detonadas. E a urgência tenderá mais a aumentar do que a diminuir: além dos efeitos climáticos, é sobretudo o próprio passar do tempo que torna estas bombas cada vez mais imprevisíveis.

Porque as bombas não detonadas se tornam mais perigosas com o tempo

O guia “Guide to the Ageing of Explosive Ordnance”, do Centro de Genebra para a Desminagem Humanitária (GICHD), explica o mecanismo: o envelhecimento conduz normalmente à corrosão e a outros efeitos que aumentam o atrito nos mecanismos de disparo, dificultando o movimento das peças móveis em munições antigas.

O efeito varia consoante o tipo de espoleta e as condições envolventes. Enquanto algumas se tornam inoperacionais, outras podem ficar mais instáveis e sensíveis a impactos devido à fadiga dos materiais, à formação de fissuras ou à exposição das cargas explosivas. O ponto decisivo é que o explosivo em si não perde o seu poder destrutivo, como mostram estudos sobre a estabilidade química do TNT de guerra. O verdadeiro perigo reside, portanto, no mecanismo de disparo envelhecido, e não numa suposta perda de força explosiva.

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