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Há uma nova espécie de aranha venenosa em Portugal

Aranha-reclusa-chilena descoberta no Porto
Aranha-reclusa-chilena descoberta no Porto Direitos de autor  Francisco Gil / MHNC-U.Porto
Direitos de autor Francisco Gil / MHNC-U.Porto
De Ana Filipa Palma
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A descoberta da aranha-reclusa-chilena (Loxosceles laeta) no Porto marca o primeiro registo desta espécie venenosa na Península Ibérica. Apesar da sua mordida poder provocar lesões graves na pele, os investigadores garantem que o risco para a população é reduzido devido ao comportamento discreto.

Uma nova espécie de aranha venenosa, a aranha-reclusa-chilena, cientificamente conhecida como Loxosceles laeta, foi descoberta na cidade do Porto, no norte de Portugal.

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Em entrevista à Euronews, um dos investigadores responsáveis pela descoberta, José Manuel Grosso-Silva, entomólogo do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, garantiu que, devido ao comportamento tímido e aos hábitos desta espécie, não há motivos para alarme. "A probabilidade de as pessoas se cruzarem com esta espécie ou serem mordidas por ela é reduzida", afirma.

"Trata-se de uma espécie tímida e pouco propensa a morder, mas a sua mordida pode causar danos consideráveis na pele, resultando frequentemente em lesões cutâneas necróticas", descreve o estudo realizado pelos biólogos Francisco Gil e José Manuel Grosso-Silva sobre a descoberta da primeira ocorrência desta espécie na Península Ibérica.

A aranha-reclusa-chilena, laeta, é nativa da região ocidental da América do Sul, sendo habitualmente encontrada em países como o Brasil e a Argentina. Contudo, tem conseguido expandir-se para regiões distantes do seu habitat de origem, impulsionada pelas trocas comerciais internacionais.

Aranha-reclusa-chilena observada pelos investigadores no Porto
Aranha-reclusa-chilena observada pelos investigadores no Porto Francisco Gil / MHNC-U.Porto

A primeira descoberta foi casual, conta o biólogo, e ocorreu a 10 de setembro de 2025, quando um macho foi encontrado numa parede no Campo dos Mártires da Pátria, no Porto. A segunda, também de um macho, ocorreu a 10 de janeiro de 2026, tendo o exemplar sido recolhido já morto numa armadilha adesiva que não lhe era destinada.

Apesar da descoberta desta nova espécie, outra aranha venenosa da mesma família habita Portugal há várias décadas e apresenta uma distribuição alargada. Trata-se da Loxosceles rufescens, ou aranha-reclusa-do-mediterrâneo, originária da América do Norte e presente na Europa há mais de 200 anos.

"Não sabemos se esta nova espécie existe apenas aqui no Porto ou se já está mais dispersa. Como a aranha-reclusa-chilena se pode confundir facilmente com a aranha-reclusa-do-mediterrâneo, é possível que existam registos fotográficos identificados como sendo desta última que, na realidade, correspondam à nova espécie", esclarece o biólogo.

A principal diferença entre as duas espécies encontra-se nos pedipalpos dos machos, apêndices articulados localizados na parte frontal do corpo das aranhas machos, que desempenham funções sensoriais e reprodutivas, servindo para transferir o esperma para a fêmea durante o acasalamento.

Pedipalpo de um macho Loxosceles laeta, cuja anatomia permite a identificação segura da espécie
Pedipalpo de um macho Loxosceles laeta, cuja anatomia permite a identificação segura da espécie Francisco Gil / MHNC-U.Porto

Ao nível da morfologia e do comportamento, são muito semelhantes. "São castanhas uniformes, não têm aquelas cores que lhes permitem camuflar-se na vegetação e não fazem as teias que normalmente vemos nas plantas para apanhar insetos. Constroem teias em paredes, cantos e locais mais escondidos e sombrios, sendo mais ativas durante a noite", explica José Manuel Grosso-Silva.

Existem diferentes níveis de gravidade, desde casos ligeiros até casos graves, incluindo alguns fatais, na sequência da mordida deste tipo de aranhas. O risco existe, mas parece-me reduzido, pelo que tento não contribuir para o pânico ou alarme excessivo", reforça o biólogo.

Mordida causa necrose

Em 2023, Portugal registou um caso de loxoscelismo, síndrome causada pelo veneno da aranha, provocado pela mordida da Loxosceles rufescens, ou aranha-reclusa-do-mediterrâneo.

A revista SPMI Case Reports, publicação científica digital da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, divulgou o caso de uma mulher de 48 anos que foi mordida por esta espécie enquanto se encontrava num parque urbano.

Após a mordida na nuca, a mulher apresentou um inchaço sem dor imediata. No entanto, nas 24 horas seguintes, os sintomas agravaram-se, com aumento das dores de cabeça, mal-estar, sensação febril, cansaço e o aparecimento de necrose com eritema na zona da lesão. Posteriormente, verificou-se descamação da pele noutras zonas do corpo, nomeadamente em redor dos olhos, na região dos glúteos, coxas, lábios e mucosa oral.

A paciente teve alta hospitalar 16 dias depois, sem apresentar qualquer sintoma.

Novas espécies são cada vez mais comuns

Em Portugal, estão estabelecidas mais de 300 espécies de insetos oriundas de várias regiões do mundo, muitas delas introduzidas pelo ser humano devido ao aumento do transporte de mercadorias.

"Estamos cada vez mais a alterar o ambiente que nos rodeia. Introduzimos propositadamente muitas plantas que, muitas vezes, trazem consigo insetos que não pretendíamos", explica.

O biólogo recorda o caso da vespa asiática, introduzida na Europa através de França num transporte de bonsais chineses.

Também "através do urbanismo e das monoculturas, como os eucaliptos que ocupam áreas enormes, mas também de culturas extensivas, como o milho, têm-se reduzido os habitats naturais", o que contribui para a alteração dos ecossistemas e favorece o aparecimento de novas espécies.

O aumento das temperaturas à escala global, com a Europa a aquecer a um ritmo acelerado, pode favorecer a reprodução e a expansão destas espécies exóticas.

"Não sabemos como evoluirá cá na Península Ibérica, isso é uma situação para acompanhar nos próximos anos", garante José Manuel Grosso-Silva.

Presença da aranha-reclusa-chilena na Europa

O primeiro registo europeu desta espécie data de 1972, num edifício dos Departamentos de Zoologia e Genética da Universidade de Helsínquia, na Finlândia.

Acredita-se que a espécie tenha sido transportada pelo ser humano e se tenha instalado no interior do edifício para beneficiar das temperaturas mais elevadas, uma vez que dificilmente sobreviveria ao clima exterior da Finlândia.

Em 2025, a Universidade Eberhard Karl de Tübingen, na Alemanha, também identificou um exemplar desta espécie na cave da instituição.

Há ainda referências à sua possível presença em Itália. Contudo, o sítio onde essa informação foi originalmente publicada já não se encontra disponível e, por isso, esse registo permanece por confirmar.

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