Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
Publicidade

"Lisboa não é uma sauna": associações ambientais pedem medidas para cidades adaptadas ao calor

"Lisboa não é uma sauna": associações ambientais pedem medidas para cidades adaptadas ao calor
"Lisboa não é uma sauna": associações ambientais pedem medidas para cidades adaptadas ao calor Direitos de autor  AP Photo/Armando França
Direitos de autor AP Photo/Armando França
De Diana Rosa Rodrigues
Publicado a
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google
Partilhar Close Button

No Dia Europeu das Vítimas da Crise Climática Mundial, várias associações assinaram uma carta aberta endereçada ao governo e municípios, exigindo medidas urgentes de adaptação das cidades às ondas de calor. Zero fala em situação "urgente" e "inevitável".

Ondas de calor mais frequentes, mais extremas e mais mortais. É este o cenário de uma Europa assolada pelas altas temperaturas, que, durante o mês de junho, registou recordes atrás de recordes nos termómetros.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

"Nós já tivemos seis ondas de calor, o equivalente ao total do ano passado. E ainda só estamos em julho. Além disso, verifica-se que a intensidade, ou seja, a diferença de temperaturas em relação ao normal, é maior", explica à Euronews Francisco Ferreira, presidente da associação ambiental Zero.

Perante um problema que os especialistas atribuem à emissão de gases com efeito de estufa e às consequentes alterações climáticas, é, para as organizações ambientalistas, urgente encontrar soluções que procurem não apenas mitigar a causa, mas ajudar a população a adaptar-se a um cenário que só tem tendência a piorar.

"É inevitável que nós tenhamos de olhar não apenas para a questão da redução das emissões de gases com efeito de estufa, aquilo a que nós chamamos de mitigação, mas também, obviamente, para a adaptação", explica Francisco Ferreira.

"É crucial que nós construamos e desenvolvamos cidades que tenham esta preparação, esta capacidade de adaptação. Isso significa, basicamente, um olhar muito importante para o edificado, que em muitos casos reflete situações de pobreza energética, em que nós não conseguimos manter a casa quente durante o inverno, mas também não conseguimos mantê-la fresca durante o verão."

Um trabalhador que transporta caixas caminha sob o sol em Lisboa, Portugal, onde a temperatura subiu acentuadamente e as autoridades emitiram um alerta para uma longa onda de
Um trabalhador que transporta caixas caminha sob o sol em Lisboa, Portugal, onde a temperatura subiu acentuadamente e as autoridades emitiram um alerta para uma longa onda de AP Photo/Armando Franca

A Zero é uma das signatárias da carta aberta que será hoje, Dia Europeu das Vítimas da Crise Climática Mundial, entregue na sede do Governo, no Campus XXI, em Lisboa, dirigida ao primeiro-ministro, aos ministérios do Ambiente e Energia, da Saúde e das Infraestruturas e Habitação, e à Associação Nacional de Municípios Portugueses, classificando o calor extremo como uma emergência de saúde pública, enquanto exige medidas de intervenção nos centros urbanos.

"Isto tem a ver com a forma e com as prioridades que nós temos tido em muitas das cidades. Nós achamos que realmente não tem havido um cuidado para com estas circunstâncias", indicou o presidente da associação.

A entrega do documento representará ainda um momento simbólico, numa ação de rua na qual os participantes irão envolver-se em toalhas e levantar cartazes com a mensagem “Lisboa não é uma sauna!".

Além da Zero, assinam o documento outras 11 organizações, como a Quercus, Geota, Greenpeace Portugal, WWF Portugal e a Rede Portuguesa de Embaixadores do Pacto Climático Europeu, no qual apresentam medidas concretas para a adaptação ao calor nas cidades portuguesas.

Entre elas estão a criação de uma rede nacional de refúgios climáticos, a identificação, por cada município, de espaços públicos e privados já existentes (bibliotecas, piscinas, jardins) que possam servir de proteção durante ondas de calor, a aceleração da renovação energética dos edifícios e até a instalação de equipamentos de climatização ativa em creches, lares e centros de dia.

"A ideia de termos realmente ativos disponíveis, refúgios climáticos, o que significa zonas de sombra, zonas verdes, zonas com ar-condicionado, que podem ser de diferentes naturezas, desde serviços, comércio até instituições públicas", reforça à Euronews.

A carta indica que os planos municipais de adaptação climática são "um passo fundamental" para a resiliência local, reforçando que a sua implementação é essencial.

"Em Portugal, temos a obrigação de fazer os Planos Municipais de Ação Climática que deveriam estar prontos até fevereiro de 2024, já vamos em 2026", reforçou o presidente da Zero. "Mais do que estes planos, é necessário realmente passarmos à prática, porque percebemos que esta necessidade de dar resposta, com este verão que estamos a ter e com situações também já dos últimos anos, é cada vez mais urgente para reduzirmos a morbilidade."

Emergência climática não é prioridade e mudanças são "dispendiosas"

Para o presidente da Zero, são várias as razões que justificam a falta de intervenção nas cidades. "As prioridades dos municípios, por vezes são outras, e não têm dado relevância, importância a esta resposta", explica. "Em alguns casos, principalmente em municípios pequenos, há falta de capacidade técnica. Não é fácil preparar este tipo de planos, quer em termos de redução de emissões, quer em termos de adaptação climática".

Além disso, os custos associados a medidas estruturais impõem entraves à tomada de decisões, redirecionando a "vontade política".

"É que as alterações que às vezes estão em jogo, em termos de adaptação climática, são dispendiosas. No futuro, vão sair mais baratas, não há dúvida. Vão melhorar a qualidade de vida dos residentes e de quem frequenta as cidades. Mas são investimentos dispendiosos e, por isso, muitas vezes complicados para a decisão do poder local."

Ondas de calor mais frequentes e mortais

ARQUIVO (08.07.2022) As pessoas lavam os pés ao saírem da praia de Carcavelos, nos arredores de Lisboa, na sexta-feira, 8 de julho de 2022.
ARQUIVO (08.07.2022) As pessoas lavam os pés ao saírem da praia de Carcavelos, nos arredores de Lisboa, na sexta-feira, 8 de julho de 2022. AP Photo/Armando Franca

"O calor extremo já não é um risco distante. É uma ameaça à saúde pública, à qualidade de vida e à segurança das nossas cidades. Sabemos também que este risco não é distribuído de forma igual. Quem vive em bairros com poucas áreas verdes, ruas excessivamente pavimentadas, trânsito intenso e escasso sombreamento está mais exposto", é possível ler na carta endereçada ao primeiro-ministro português.

Até início de julho, Portugal já tinha registado seis ondas de calor em 2026, totalizando 59 dias em situação de onda de calor nos primeiros seis meses do ano — episódios ocorridos em fevereiro, março (duas vezes), abril, maio e junho, segundo o IPMA.

"Identifica-se uma tendência crescente no número máximo de dias em onda de calor, destacando-se o ano de 2009, com 93 dias, seguido de 2017, com 83 dias, e 2023, com 80 dias. Em 2025 registaram-se 74 dias em situação de onda de calor e 59 dias nos seis primeiros meses de 2026", informou o serviço meteorológico português em comunicado.

Estes fenómenos de temperaturas extremas, também registados em outros países europeus, como o Reino Unido, a França e a Espanha, são ainda responsáveis pelo aumento da mortalidade.

Durante a última onda de calor em território nacional, registada no início de julho, registou-se um excesso de mortalidade. De acordo com os números do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO), foram observadas mortes em excesso entre os dias 2 e 8 de julho, altura em que o país esteve debaixo de altas temperaturas. Calculando a diferença entre o número de óbitos observados e a linha de base, o período de 2 a 8 de julho registou aproximadamente 539 mortes em excesso.

Entre os dias 3 e 6 de julho de 2026, altura em que o governo decretou situação de alerta em todo o território continental, foram contabilizadas 313 mortes em excesso.

Durante o mês de junho, considerado um dos meses mais quentes de que há registo na Europa, foram registadas mais de dez mil mortes em excesso na Europa.

De acordo com dados publicados na segunda-feira pelo EuroMOMO, um serviço de monitoramento da mortalidade apoiado pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças e pela Organização Mundial da Saúde, 27 países registaram 10.650 mortes em excesso entre 22 e 28 de junho.

A Organização Mundial de Saúde já deixou o aviso: isto é apenas o início, com a organização a dar conta de que os próximos verões serão mais difíceis.

“Esta onda de calor é um ensaio geral”, afirmou Hans Henri Kluge, diretor regional da OMS para a Europa.

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google

Notícias relacionadas

Europa regista 10 mil mortes em excesso durante ondas de calor em junho, revelam novos dados

Mar ao largo de Faro aqueceu até aos 26,1 ºC durante duas ondas de calor marinhas

Quem são os mais afetados pelas ondas de calor extremas na Europa?