Ilhas turísticas europeias enfrentam grave escassez de água: tecnologia que capta água do ar seco pode resolver?
Quando os poços da sua propriedade em Ibiza secaram, Hashem Arouzi confrontou-se diretamente com a crise da água na Europa.
Empresário britânico pôs-se à procura de uma solução – não só para si, mas também para os milhares de residentes da ilha cujos abastecimentos de água estão a diminuir devido à seca, à sobreexploração e à intrusão de água do mar.
“Só em Ibiza, há mais de 15 000 propriedades que não estão ligadas à rede de abastecimento e têm de garantir a sua própria água”, explica Arouzi. “Os poços que sempre as abasteceram estão a secar.”
Entregas de água em camiões oferecem um alívio temporário, mas até as albufeiras que os abastecem estão a secar.
Estações de dessalinização estão a socorrer cada vez mais as propriedades ligadas à rede pública, mas as casas fora da rede ficam para trás.
“Isto espelha um desafio global: em todo o mundo há milhões de habitações fora da rede, sob stress hídrico – em zonas onde os métodos existentes de captação de água têm dificuldade em lidar com condições áridas”, afirma Arouzi.
Máquinas que recolhem água potável do ar – mesmo em climas quentes e secos – podem tornar-se uma solução vital.
Aproveitar tecnologia de recolha de água galardoada com o Nobel
Já no próximo ano, vivendas e hotéis fora da rede no Mediterrâneo e nas Baleares poderão reforçar o seu abastecimento com tecnologia que faz exatamente isso.
Apresentado hoje (30 de julho) em Barcelona, o ARK é um dispositivo plug-and-play da empresa de tecnologia climática de Arouzi, a Ahbstra, que, segundo a própria, consegue recolher até 500 litros de água por dia a partir do ar.
A arma secreta? Uma química molecular revolucionária que, em 2025, recebeu o Prémio Nobel da Química.
Os chamados Metal-Organic Frameworks, ou MOF, têm uma estrutura molecular inovadora, concebida para possuir uma enorme área de superfície interna – o equivalente a um campo de futebol inteiro em apenas um grama de material.
Estas estruturas são o resultado de décadas de trabalho de três cientistas: Susumu Kitagawa, da Universidade de Kyoto, no Japão, Richard Robson, da Universidade de Melbourne, na Austrália, e Omar M. Yaghi, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos.
Como funciona a recolha de água baseada em MOF?
Com grandes cavidades por onde as moléculas entram e saem, os MOF podem ser usados para separar poluentes da água e extrair dióxido de carbono ou água do ar.
Os geradores atmosféricos de água convencionais (AWG) funcionam como desumidificadores, arrefecendo o ar até ao ponto de orvalho para criar condensação. Com humidade baixa, o ponto de orvalho desce, o que muitas vezes torna inviável arrefecer o ar o suficiente.
Os MOF, por sua vez, são adsorventes, não condensadores, o que significa que conseguem reter moléculas de gás ou líquido na sua superfície. Isso permite-lhes capturar fisicamente moléculas de vapor de água diretamente de ar com baixa humidade, sem necessidade de um arrefecimento intenso e consumidor de energia.
É necessária uma quantidade moderada de calor para libertar a água capturada em forma líquida.
A empresa do próprio Yaghi, a Atoco (fonte em inglês), apresentou em fevereiro de 2026 o primeiro sistema de recolha de água com MOF do mundo, com abertura de encomendas prevista para mais tarde este ano.
Capazes de produzir até 1 000 litros por dia usando apenas energia térmica ambiente, as unidades – com dimensões semelhantes às de um contentor de transporte – podem ser um recurso vital para comunidades afetadas por catástrofes, além de fornecer água, gerada a partir de calor residual, a centros de dados com grande consumo de recursos.
Como um ‘material mágico’ pode aliviar o stress hídrico fora da rede
“Há anos que os MOF são um ‘material mágico’ prestes a dar resultados decisivos para o ambiente, desde a recolha de água à captura de carbono”, afirma Arouzi.
Mas as elevadas necessidades de energia tornavam até agora a sua utilização em grande escala inviável.
A Ahbstra afirma ter ultrapassado este obstáculo com o seu Suspended Particle Reactor patenteado, que faz circular ar através de grânulos de MOF em estado fluidizado para maximizar o desempenho.
Com um preço de 150 000 libras (cerca de 175 000 euros), as unidades da empresa continuam longe de ser baratas – mas podem revelar-se fundamentais para propriedades em risco de desvalorização ou abandono por falta de segurança hídrica, defendem os responsáveis pelo projeto.
A água produzida pelo ARK pode ser usada para reabastecer poços e cisternas ou enviada diretamente para o sistema de água da propriedade.
A Ahbstra e a Atoco estão também a desenvolver sistemas para volumes de água mais pequenos.
Parte de uma abordagem integrada ao stress hídrico
Neste verão, ondas de calor sucessivas e períodos de seca expuseram muitos países do sul da Europa a fortes carências de água, com cerca de 30 por cento da população a enfrentar stress hídrico permanente na região, segundo a Agência Europeia do Ambiente.
“É evidente que os padrões de temperatura e precipitação estão a mudar, conduzindo a condições de seca mais extremas e prolongadas em muitos locais”, afirma Richard Perkin, diretor de tecnologia da Ahbstra. “Resolvê-lo exige uma abordagem de sistema completo, que vá da eficiência no uso da água à reutilização e a melhores infraestruturas.”
Mas, se as barragens ou os poços estiverem secos, só podem voltar a encher quando chover no sítio certo, por muito responsável que seja a gestão da água.
“É por isso que a recolha de água atmosférica é uma parte necessária da resposta”, sublinha.
Ainda não existem dados independentes, revistos por pares, sobre o desempenho e a durabilidade do ARK em condições reais.