Pelo menos 88 pessoas morreram durante a recente vaga de entrada de migrantes no enclave espanhol de Ceuta, proveniente de Marrocos, segundo as autoridades espanholas. Marrocos apresentara, entretanto, um balanço inferior.
Pelo menos 88 pessoas morreram durante a recente vaga de entrada de migrantes no exclave espanhol de Ceuta, proveniente de Marrocos, segundo as autoridades espanholas. O governo de Marrocos apresenta, entretanto, um balanço inferior.
A maioria dos cerca de 60 mil migrantes que entraram no território norte-africano espanhol, muitos deles a nado, já regressou a Marrocos após a maior travessia migratória em massa alguma vez registada no território.
O delegado do governo espanhol em Ceuta, Miguel Ángel Pérez Triano, indicou inicialmente que o número de mortos era de 72, depois de o balanço anterior apontar para 67 vítimas.
Mais tarde, o Ministério marroquino do Interior avançou com um balanço de 11 mortos: dez pessoas morreram afogadas e uma outra caiu de uma zona rochosa. Já a Associação Marroquina de Direitos Humanos afirmou, num comunicado, que o número de mortos poderá, pelo contrário, chegar aos 130, e fala em "dezenas de feridos".
Entretanto, várias famílias marroquinas denunciaram desaparecimentos nos meios de comunicação social e nas redes sociais, numa tentativa de localizar os seus familiares.
No domingo, a polícia e o exército espanhóis patrulhavam as ruas de Ceuta, enquanto o exclave regressava gradualmente à normalidade após a entrada em massa de migrantes registada entre quarta e sexta-feira.
Apenas pequenos grupos de migrantes permaneciam nas ruas, depois de a maioria dos que atravessaram a pequena barreira fronteiriça ter regressado voluntariamente a Marrocos nas 48 horas seguintes.
No sábado, jornalistas da agência AFP observaram menores migrantes a deambular por um parque industrial desativado em Ceuta, enquanto outros dormiam nos passeios: "Todas as crianças que estão aqui querem ir para Espanha continental", afirmou Aziz Dabch, marroquino de 41 anos e um dos poucos adultos presentes no local.
Patrulhas navais
O que foi o maior afluxo de migrantes de sempre ao exclave desencadeou uma crise internacional para Espanha, com alguns dos seus parceiros europeus a criticarem Madrid pelas políticas de imigração.
Junto a um bairro habitacional perto do porto de Ceuta, militares espanhóis detiveram um grupo de nove migrantes, visivelmente exaustos, que estavam sentados no passeio, sob vigilância de tropas apoiadas por um veículo blindado, relatou um jornalista da AFP.
Pequenas embarcações insufláveis de uma unidade de salvamento patrulhavam as águas junto à barreira fronteiriça que se prolonga pelo Mar Mediterrâneo, onde uma nova barreira flutuante com 500 metros reforçava a segurança.
A Guarda Civil retirava ainda migrantes de um autocarro para os escoltar até ao posto fronteiriço, de onde seriam devolvidos a Marrocos.
A passagem fronteiriça decorria com normalidade e equipas de limpeza recolhiam roupa, lixo e outros resíduos deixados para trás durante a travessia em massa.
Espanha acusou redes criminosas de difundirem rumores de que uma recente decisão do Supremo Tribunal de Espanha em matéria de imigração permitiria aos migrantes entrar mais facilmente no país.
Rumores
Alguns analistas admitem que Marrocos possa ter permitido a passagem de migrantes pela fronteira para exercer pressão diplomática sobre Espanha, que recentemente reforçou as relações com a Argélia, rival regional de Rabat.
Em 2021, cerca de 10 mil migrantes entraram em Ceuta, aproveitando o alívio dos controlos fronteiriços por parte de Marrocos, numa medida interpretada como uma forma de pressionar Espanha.
Alguns dos que atravessaram a fronteira disseram ter ouvido que a passagem estava aberta, um rumor rapidamente amplificado nas redes sociais.
A União Europeia anunciou uma videoconferência para esta terça-feira, depois de 22 Estados-membros terem subscrito uma carta aberta conjunta a pedir uma reunião urgente para definir uma resposta rápida e coordenada e evitar novas entradas descontroladas.
No sábado, Itália suspendeu durante um mês a aplicação do Acordo de Schengen nas ligações com Espanha, restabelecendo os controlos fronteiriços. Numa carta dirigida aos líderes da União Europeia, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, criticou a reação "egoísta" de alguns países da UE.
No domingo, o Papa Leão XIV referiu-se à situação em Ceuta durante a oração do Angelus, afirmando acompanhar os acontecimentos "com preocupação" e manifestando esperança numa solução assente na "paz, estabilidade e justiça".
Quantos migrantes permanecem em Ceuta?
Miguel Ángel Pérez Triano defendeu a posição do governo de que a Moncloa e os serviços de informações não dispunham de informação sobre a entrada em massa que acabou por ocorrer entre quinta-feira e sexta-feira da semana passada, quando mais de 50 mil pessoas (ou 73.500, segundo fontes policiais) atravessaram a fronteira a nado até à praia El Tarajal, depois de mais de duas semanas de entradas constantes, com quase 200 pessoas por dia a chegarem ao território de Ceuta.
Mantêm-se também as dúvidas sobre quantos destes migrantes permanecem no município. Fátima Hossain, do movimento localista de esquerda MDYC, criticou esta sexta-feira, nas redes sociais, o ministro dos Negócios Estrangeiros, depois de José Manuel Albares ter afirmado que "a grande maioria" dos migrantes tinha regressado.
O presidente de Ceuta, Juan Vivas, apontou para cerca de 5 mil pessoas ainda no território, menos de 10% do total, numa entrevista ao "El País", na qual se mostrou muito mais crítico em relação a Marrocos do que o Governo central.
"A fronteira não pode estar sujeita a essa dúvida permanente sobre quando Marrocos, noutro dia em que lhe apetecer, vai abrir as portas".
Vários testemunhos de migrantes recolhidos pelos meios de comunicação social garantem que os guardas fronteiriços marroquinos os incentivaram a prosseguir na tentativa de chegar a Ceuta, enquanto Rabat responsabiliza as máfias, as redes sociais e a desinformação provocada pela revisão do Supremo Tribunal espanhol à sua Lei de Estrangeiros.
Novas barreiras de contenção marítimas
O fim de semana foi tenso para a cidade, com várias figuras da extrema-direita espanhola, dos meios políticos e mediáticos, a deslocarem-se à cidade autónoma, entre elas o ativista Vito Quiles e o eurodeputado Alvise Pérez, cujas ações de rua geraram distúrbios entre os apoiantes convocados.
Com quatro processos no Supremo Tribunal e dois pedidos para levantamento da imunidade, este último foi escoltado pela polícia depois de uma contramanifestação contra a sua presença em Ceuta. O líder do Vox, Santiago Abascal, pediu a "militarização permanente da fronteira".
Para já, o governo optou pela instalação de novas barreiras marítimas em El Tarajal, com uma altura entre 30 e 70 centímetros acima da superfície e até um metro de profundidade debaixo de água.