Após arriscar a carreira ao defender Donald Trump num julgamento criminal, Todd Blanche foi confirmado como procurador-geral dos EUA, o que alimentou receios quanto à independência do Departamento de Justiça.
O Senado dos EUA confirmou, nas primeiras horas de sábado, Todd Blanche, antigo advogado pessoal do presidente Donald Trump, como procurador-geral, consolidando o controlo sobre o Departamento de Justiça que Trump ambicionava.
Blanche, que já vinha a exercer funções como máxima autoridade da aplicação da lei nos EUA em regime interino, representou Trump como advogado privado em vários julgamentos criminais antes de entrar para o governo.
O Senado, controlado pelos republicanos por uma margem estreita, aprovou a sua nomeação por 50 votos contra 49. As senadoras republicanas Susan Collins e Lisa Murkowski juntaram-se aos democratas ao votar contra, sublinhando a sensibilidade política em torno da nomeação.
Blanche é o segundo procurador-geral confirmado desde que Trump regressou à Casa Branca, no ano passado, com a intenção declarada de usar o Departamento de Justiça para investigar os seus adversários políticos.
Blanche afirmou estar “profundamente honrado pela confiança que o presidente Trump depositou em mim para liderar o Departamento de Justiça”.
“Estou agradecido ao Senado por ter ficado até tarde para concluir este processo. Aos dedicados servidores públicos do Departamento de Justiça, obrigado pelo vosso trabalho diário em defesa da lei e na proteção do nosso país”, escreveu Blanche na rede social X.
Trump, que tem abalado as normas políticas dos EUA ao procurar colocar sob um controlo cada vez mais direto organismos governamentais teoricamente independentes, considera Blanche uma “estrela”.
Independência suscita preocupações profundas
A votação encerrou uma tumultuosa batalha de confirmação que expôs profundas preocupações — tanto de alguns republicanos como de democratas — sobre a nomeação de um aliado próximo de Trump para chefiar um Departamento de Justiça que historicamente se orgulha da sua independência face à Casa Branca.
Os democratas opuseram-se a Blanche desde o início, acusando Trump de transformar o Departamento de Justiça numa arma política.
“O procurador-geral deve ser o advogado do povo”, afirmou na terça-feira o senador Dick Durbin, principal democrata na Comissão Judicial do Senado.
“O senhor Blanche continua a agir como advogado pessoal do presidente, tratando o Departamento de Justiça como um escritório de advocacia ao serviço de um único cliente — o presidente.”
Havia dúvidas sobre se a Casa Branca conseguiria convencer um pequeno grupo de republicanos resistentes, sem os quais mesmo esta estreita confirmação teria sido impossível.
O principal ponto de discórdia foi a tentativa de criar um fundo de 1,8 mil milhões de dólares (1,5 mil milhões de euros) para aquilo a que Trump chama vítimas de processos politicamente motivados, provavelmente incluindo os manifestantes que invadiram o Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021, numa tentativa de insurreição para impedir a certificação de Joe Biden como presidente, depois de este ter derrotado Trump nas eleições de 2020.
O outro grande motivo de controvérsia foi uma proposta extraordinária que concedia imunidade a Trump em matéria de inspeções fiscais.
Campanha de “retribuição”
Blanche acabou por desarmar a oposição interna no partido com uma ordem escrita, difundida no fim de semana, que revogou o chamado fundo político “anti-armação” e estipulou que o acordo de imunidade a inspeções fiscais com Trump, os seus dois filhos mais velhos e a Trump Organization se aplicaria apenas retroativamente aos anos fiscais anteriores e não às declarações futuras.
Blanche exerce funções de procurador-geral interino desde que Trump demitiu Pam Bondi, outra leal aliada política, em abril.
Desde então, tem estado intimamente ligado àquilo que os democratas descrevem como uma campanha de “retribuição” de Trump contra os adversários do presidente, de 80 anos.
Blanche tem sido também alvo de críticas de vítimas de Jeffrey Epstein pela forma como foi gerida a divulgação dos processos de investigação sobre o abusador sexual condenado, outrora amigo próximo de Trump.
Antes de entrar para o Departamento de Justiça, Blanche representou Trump no julgamento em Nova Iorque sobre alegados pagamentos de “dinheiro para silêncio” à atriz pornográfica Stormy Daniels.
Fez ainda parte da equipa de defesa em dois processos federais intentados contra Trump pelo procurador especial Jack Smith — por alegado tratamento indevido de documentos classificados após deixar a Casa Branca e por tentar reverter os resultados das eleições presidenciais de 2020.
Ambos os casos foram arquivados depois de Trump vencer as eleições de 2024.