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Colômbia tenta assimilar terramoto: “Ver aquele edifício completamente destruído é muito duro”

Imagem dos estragos em Pereira
Imagem dos estragos em Pereira Direitos de autor  Kevin Pérez - cedida
Direitos de autor Kevin Pérez - cedida
De Cristian Caraballo
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Dois moradores contaram à “Euronews” como viveram as primeiras horas do terramoto, que já provocou mais de 240 mortos, mais de mil feridos e dezenas de desaparecidos.

Kevin Pérez estava encostado, prestes a levantar-se, quando sentiu uma vibração muito forte na janela de casa, em Dosquebradas, junto a Pereira. Saiu a correr com a mãe e deu de caras com vizinhos aos gritos, a correr sem saber para onde. O seu testemunho é um dos muitos que começam a surgir na sequência do terramoto de magnitude 7,4 que abalou a Colômbia na segunda-feira.

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“Não se sabe como reagir”

Pérez descreve esses primeiros segundos como algo muito difícil de explicar. Diz que ainda sente uma espécie de tontura, como se continuasse no corpo aquele tremor do momento exacto em que a terra começou a mexer. “A terra tremeu com muita força”, recorda. Conta que, à sua volta, as pessoas gritavam, corriam em pânico e rezavam, e que ele próprio não sabia bem o que fazer naquele corre-corre.

Foi então que viu um homem com mobilidade reduzida a tentar sair do apartamento. Pérez admite que ficou em choque e que, naquele instante, não se sentiu capaz de o ajudar: “É tanta coisa que uma pessoa nem sabe como agir”, confessa. É uma das memórias que mais lhe pesam daquela manhã.

Pérez já tinha sentido tremores de terra, mas nunca desta magnitude. “É algo que apanha completamente de surpresa, nem se imagina”, reconhece. A experiência deixou-lhe uma ideia clara: “É preciso viver já preparado, nunca se sabe”.

Assim ficou uma das praças da cidade colombiana de Pereira.
Assim ficou uma das praças da cidade colombiana de Pereira. Kevin Pérez - Cedida

Percorrer um centro que já não reconhece

Apesar da fraca rede, Pérez saiu à procura de familiares e conhecidos na zona, para confirmar como estavam perante a dificuldade em comunicar por telefone. Conta que um estabelecimento onde costumava tomar café com amigos ficou completamente destruído: “Ver aquele edifício completamente destruído é muito duro”, afirma. Diz ainda que um hospital próximo sofreu danos tão graves que praticamente ruiu, obrigando a evacuar doentes que estavam em cirurgia ou em estado crítico.

Segundo o seu relato, há pessoas que perderam familiares nesse hospital e outras de quem ainda não se sabe nada. Há, diz, muitas casas e estruturas danificadas e, por trás de cada uma, a história de alguém que perdeu quase tudo.

Apelo à solidariedade

Pérez e a família vivem em Dosquebradas, perto do viaduto que liga a Pereira, numa zona que, reconhece, não sofreu grandes danos, algo que atribui mais à sorte do que a outra coisa. “É preciso ser solidário, pôr a mão na consciência, porque a vida é passageira, tudo pode acontecer num segundo”, insiste.

Pede a quem puder ajudar que o faça com alimentos, roupa ou qualquer outro tipo de apoio, e destaca o papel que as redes sociais estão a ter na divulgação de informação sobre pessoas desaparecidas, algo que, segundo ele, já está a ajudar várias famílias a reencontrarem-se. Não tanto a ele, esclarece, mas a quem está realmente a passar por algo muito triste.

“Ninguém viu um terramoto assim”: o testemunho de Edilson

“Acho que ninguém viu um terramoto destes, porque isto é uma coisa muito impressionante”, diz Edilson, que estava a trabalhar num prédio de cinco andares quando começou a tremer. Foi dos primeiros a sair, conta, porque sentiu que tudo se mexia à sua volta.

Já na rua, o abalo continuava a sacudir tudo com tanta força que, segundo descreve, “uma pessoa nem consegue manter-se de pé” e muita gente caiu ao chão, entre gritos que não paravam. O movimento durou, calcula, um minuto e meio, embora para ele tenha parecido muito mais longo.

Do ponto onde se encontrava, com vista para o centro de Pereira, viu edifícios a desabar no meio de uma nuvem de pó. “Foi algo muito assustador, ver as pessoas aos gritos”, resume. E acrescenta, sobre o que viu depois: “Para Pereira é um desastre, há muitos edifícios caídos”.

O seu bairro passou o dia todo sem gás nem electricidade, até que, por volta das sete da tarde, o abastecimento foi restabelecido. Agora, conta, já voltaram a ter luz, água e gás com normalidade.

Outro dos edifícios ficou neste estado em Pereira.
Outro dos edifícios ficou neste estado em Pereira. Kevin Pérez - Cedida

Balanço nacional

O terramoto de segunda-feira fez, até ao momento, pelo menos 240 mortos e mais de 660 feridos em todo o país, segundo o último balanço das autoridades. Os números são provisórios e podem continuar a subir à medida que avançam as operações de resgate entre os escombros.

É o sismo mais forte registado na Colômbia na última década. Teve o epicentro em San José del Palmar, no Chocó, a mais de 80 quilómetros de profundidade, e sentiu-se com força em Cali, Pereira, Manizales, Quibdó e Bogotá, além de se ter sentido no Equador e no Panamá.

De acordo com o último balanço da Associação Colombiana de Cidades Capitais, Cali é a cidade com mais vítimas mortais, seguida de Pereira, enquanto continua a contagem de edifícios destruídos. Já há mais de 165 edifícios colapsados. Famílias da zona reportaram, na noite de segunda-feira, mais de 3.000 pessoas desaparecidas, um número muito superior ao de mortos confirmados, o que reflecte o caos nas comunicações nas horas posteriores ao terramoto.

Vários hospitais ficaram sobrecarregados e alguns aeroportos, entre eles o de Pereira, suspenderam as operações devido a danos nas instalações. Os presidentes de câmara de Pereira e Cali decretaram toque de recolher para evitar saques e facilitar o trabalho das equipas de emergência, que, juntamente com o Exército, passaram a noite à procura de sobreviventes com a ajuda de cães e cordões humanos, fazendo silêncio nos momentos de busca para poder ouvir qualquer sinal debaixo dos escombros.

O presidente colombiano, Abelardo de la Espriella, declarou o desastre de âmbito nacional e assumiu pessoalmente a coordenação da emergência. A reação internacional também não se fez esperar: o Governo espanhol, através de Pedro Sánchez, transmitiu a sua solidariedade à Colômbia, enquanto o ministro dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Albares, informou que há 164 espanhóis desaparecidos no país, embora, para já, não haja registo de mortos nem feridos dessa nacionalidade.

A Alemanha e os Estados Unidos também reagiram, sendo que este último destinou 15,5 milhões de dólares (13 milhões de euros) a abrigos de emergência, alimentos e avaliação de danos, enquanto as Nações Unidas se preparam para um possível pedido de ajuda por parte das autoridades colombianas.

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