Hossein Taeb liderou a Basij nas manifestações de junho de 2009 e durante 13 anos os serviços de informação dos Guardas da Revolução, perseguindo jornalistas, binacionais e opositores; o regresso indica que Teerão se prepara para gerir nova contestação.
Hossein Taeb, o clérigo que comandou a Basij durante a repressão ao Movimento Verde em 2009 e liderou durante 13 anos os serviços de informação dos Guardas da Revolução, foi reconduzido à liderança da milícia Basij do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC).
A decisão de repor uma das mais altas figuras da segurança interna da República Islâmica na linha da frente, nos primeiros meses do governo do aiatola Mojtaba Khamenei, insere-se numa recente remodelação entre as elites políticas, militares e de segurança do país.
A nomeação indica que a nova liderança do regime de Teerão se prepara para eventuais distúrbios internos, numa altura em que decorre a guerra com os Estados Unidos e aumenta a pressão económica das sanções.
Quem é Hossein Taeb?
Taeb entrou nos Guardas da Revolução ainda adolescente e mais tarde trabalhou no Ministério da Informação, antes de regressar aos Guardas.
Tornou-se comandante da Basij em julho de 2008, menos de um ano antes de a contestada eleição presidencial iraniana desencadear as manifestações em massa de junho de 2009, conhecidas como Movimento Verde.
A Basij teve um papel central na repressão que se seguiu. Os Estados Unidos sancionaram Taeb em 2010, por considerar que tinha responsabilidade de comando na violência, e a União Europeia seguiu o exemplo em 2011.
No final de 2009, foi nomeado primeiro diretor da recém-criada Organização de Informação do IRGC.
Manteve o cargo durante cerca de 13 anos, período em que a estrutura se tornou uma das instituições de segurança mais poderosas do país, por vezes em competição e frequentemente a eclipsar o Ministério da Informação civil.
Sob a sua direção, a organização passou a intervir em casos envolvendo opositores políticos, jornalistas, ambientalistas e binacionais.
A operação mais conhecida associada ao seu mandato à frente dos serviços de informação do IRGC foi a captura e extradição de Ruhollah Zam, um dissidente iraniano a viver em França que dirigia o popular canal de Telegram Amad News.
O IRGC levou Zam para o Irão em 2019. Foi executado em 2020.
Taeb foi substituído em junho de 2022 por Mohammad Kazemi e passou para um cargo de conselheiro do comandante do IRGC.
A sua saída ocorreu após um período de falhas graves dos serviços de informação, incluindo operações atribuídas a Israel que expuseram debilidades sérias na contra-informação iraniana.
Entre estas estiveram alegadas infiltrações em locais sensíveis e o assassinato do cientista nuclear Mohsen Fakhrizadeh, em novembro de 2020, nos arredores de Teerão.
As autoridades iranianas nunca confirmaram publicamente essas falhas como motivo da sua substituição.
Taeb não foi afastado do aparelho de segurança, tendo sido deslocado diretamente para outro cargo de topo.
Diz-se que Taeb e Mojtaba Khamenei mantêm laços antigos que remontam à guerra Irão-Iraque, durante a qual ambos estiveram ligados ao batalhão Habib da 27.ª Divisão Mohammad Rasulollah do IRGC.
As redes criadas nessa altura tornaram-se depois vias importantes de ascensão institucional dentro da estrutura de segurança iraniana para os quadros mais leais.
O seu regresso à Basij sob a liderança de Mojtaba Khamenei, em vez de uma reforma após o revés de 2022, sugere que esses laços permanecem estreitos.
Porque é importante a Basij
A Basij mantém presença em bairros, locais de culto, universidades e repartições públicas e tem sido usada para vigiar cidadãos e comunidades, mobilizar apoio ao regime e reprimir protestos.
A ordem que nomeia Taeb sublinha a necessidade de alargar a “rede de inteligência popular” da Basij, melhorar a formação e integrar novas tecnologias, uma linguagem que aponta para o renovado interesse de Teerão na vigilância interna.
Colocar um veterano dos serviços de informação à frente da Basij pode permitir que a força passe de um corpo mobilizado de forma reativa, depois de os protestos eclodirem, para uma peça de um sistema mais vasto que deteta e contém a contestação antes de se espalhar.
A escolha de Taeb, que há quatro décadas transita entre cargos de topo no aparelho de segurança sem nunca ser afastado em definitivo do núcleo do sistema, mostra também que o IRGC, um corpo paramilitar de elite que responde diretamente ao aiatola, continua a ser decisivo na tomada de decisões em Teerão.
O antigo presidente Mahmoud Ahmadinejad acusou-o publicamente, em 2018, de fabricar processos contra opositores políticos, num raro conflito público pelo poder entre a presidência e o aparelho de informação do IRGC.
Durante a presidência de Hassan Rouhani, os serviços de informação do IRGC, então chefiados por Taeb, desafiaram abertamente o Ministério da Informação civil em vários casos mediáticos, num novo deslocar de poder político e de segurança para instituições diretamente ligadas ao aiatola.