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“No nosso país, o abandono está normalizado”: animais continuam a ser deixados para trás

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animal abandonado Direitos de autor  AP Photo
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De Ana Filipa Palma
Publicado a Últimas notícias
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Um dia têm uma cama, um sofá, um canto da casa. Têm quem lhes ponha comida e água na taça. Mas, para muitos animais de companhia, de um momento para o outro, tudo se perde e acabam abandonados numa estrada ou deixados à porta de uma associação ou de um canil municipal.

Ziro e Mike viveram toda a sua vida num lar feliz. Para ambos, bastavam-lhes água, comida e ter os donos por perto. Ambos viviam sozinhos com os donos já velhotes. Eram a companhia uns dos outros. Não se conheciam, não partilhavam as mesmas ruas nas caminhadas, mas no fim da sua vida partilharam a mesma casa: a da SOS Animal. Em ambos os casos, os donos não deixaram nenhum documento a indicar o futuro dos seus amigos, o mais certo é que não soubessem que o podiam fazer. Então, o futuro foi decidido por um familiar que optou por deixá-los na rua.

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Ziro andou a deambular pelas ruas de Setúbal, foi atropelado e agredido, ficando com lesões graves na boca. Mike era uma bomba-relógio: uma doença cardíaca ditava-lhe a vida diária e, apesar da boa vontade das vizinhas, amigas da dona, não conseguiam ajudá-lo como ele precisava. Ficou na SOS Animal até falecer. Ziro ainda está na associação para adoção.

O abandono de um animal em Portugal é crime, punível por lei desde 2014 com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 60 dias, mas nem sempre é possível fazer justiça. Sandra Duarte Cardoso, médica veterinária e presidente da SOS Animal,tem travado várias batalhas na defesa e bem-estar animal.

“O chip [dos animais de companhia] está registado em nome da pessoa que faleceu, portanto a contraordenação segue para a pessoa que faleceu”, explica. “Até à data, de todas as queixas que nós fizemos, porque quem herda o património devia herdar os animais, nunca nenhum foi transitado, portanto nunca ninguém sofreu consequências por meter na rua o cão ou o gato da mãe ou do pai”, conta em entrevista à Euronews.

Da esquerda para a direita: Mike e Ziro
Da esquerda para a direita: Mike e Ziro SOS Animal

Este sábado, dia 15 de agosto, assinala-se o Dia Internacional do Animal Abandonado, uma realidade bem presente em Portugal e, infelizmente, agravada na época de verão. “Ninguém pensa em mudar de país, ou de casa, e deixar os seus filhos para trás, ou entregar a uma organização, mas com os animais pensam”, lamenta Sandra Duarte Cardoso, que lida com a situação diariamente.

Em Portugal, a colocação de microchip nos cães tornou-se obrigatória em 2008 e nos gatos em 2022, uma medida tomada para combater o abandono animal. No entanto, a prática é frequentemente desrespeitada, e por si só, não parece ter resultado numa diminuição do abandono de animais de companhia.

A presidente da organização SOS Animal diferencia dois tipos de casos: “existem as renúncias, em que as pessoas entregam os seus animais e procuram uma solução para o animal com quem já não querem ou podem ficar; e o abandono, que são aqueles que simplesmente abrem a porta do carro e deixam o animal, ou põem dentro de um saco e deixam à porta de uma associação”, explica.

A Guarda Nacional Republicana (GNR) alertou num comunicado no final de julho que, entre 2024 e o primeiro semestre de 2026, foram registados mais de 2400 crimes e, neste âmbito, foram detidas 28 pessoas em todo o território nacional.

Segundo a autoridade, os meses de julho e agosto concentram o maior número de ocorrências, com 142 casos (38,1% do total anual), associado às deslocações das pessoas para férias.

A SOS Animal, Organização Não-Governamental de Ambiente, formalmente constituída em 2007, tem como missão proteger e defender os animais e o seu habitat. Além da clínica veterinária, tem também um Santuário que atualmente não tem morada pública. Foi ali que, durante algum tempo, chegaram a ser deixados animais diariamente. “No início atiravam animais lá para dentro. Lembro-me de um caso de um cão recém-nascido de 4 semanas que foi atirado com outros cães aqui à solta, uma cabra que partiu as patas e gatos eram ‘o pão nosso de cada dia’”, recorda com horror.

Para Sandra Duarte Cardoso, há um problema grave de “educação cívica” sobre as relações com animais e não compreende como é que pessoas geradoras de vida conseguem “descartar outra vida”.

“No nosso país, o abandono está normalizado”, começa por dizer, descrevendo situações diárias de emails que a associação recebe, com pessoas a ameaçar a ONG de que vão abandonar os seus animais se ela não ficar com eles. “Estão tão perfeitamente confortáveis com esta opção, que serve como chantagem. Quando ninguém, com o seu juízo todo, diz: 'se não me ajudarem com o meu filho, que tem um problema, eu vou abandoná-lo, vou deixá-lo ali na beira da estrada'”, desabafa.

Sandra Duarte Cardoso justifica as atitudes e o comportamento das pessoas com a perceção que as mesmas têm do animal. “O animal continua a ser visto como um bem, como uma coisa que a pessoa tem, que dá jeito até certo ponto e, depois, quando já não dá, acha que tem esse direito de se descartar dessa coisa, e não ser uma obrigação alienável”, diz.

Por que razão as pessoas abandonam os animais?

Num artigo para a revista científica “Journal of Applied Animal Welfare Science” (JAAWS), de 2022, a médica veterinária procurou perceber os fatores associados ao abandono de cães e gatos pelos seus donos em Portugal e as razões mais apontadas foram “falta de tempo para cuidar do animal”, “doença do animal”, “falta de espaço” em casa ou comportamento agressivo para com outros animais. Também o facto de destruir coisas em casa foi uma das respostas mais dadas.

O período pós-pandemia foi particularmente revelador da falta de compromisso de muitas pessoas. “Na altura do Covid houve um boom de adoções, porque muitas pessoas passaram a ter mais tempo em casa e adotaram sem saber como seriam as suas vidas posteriormente”, conta. Contudo, muitas pessoas tiveram de voltar às empresas e, quando recuperaram as suas vidas, muitos dos animais adotados durante a pandemia foram devolvidos às associações.

Segundo dados do Eurostat, de 2025, o custo dos cuidados veterinários e serviços relacionados aumentou mais de 30% na zona do euro e quase 37% em toda a UE na última década, o que também tem sido um fator que pode aumentar o número de abandonos dos animais de companhia. “De facto, as pessoas muitas vezes deixam os animais chegar a uma situação-limite indescritível, e não é porque querem, ou não têm consciência da dor do animal, mas porque não têm dinheiro”, conta a médica veterinária.

O abate dos animais acaba também por ser uma decisão muitas vezes tomada, não porque o animal não tivesse outra hipótese, mas porque as pessoas não têm capacidade de custear o tratamento dos mesmos. “Isto é uma situação horrível”, diz.

A responsabilidade do Estado nesta temática é, para Sandra Duarte Cardoso, flagrante. A médica veterinária tece duras críticas aos sucessivos governos. “Temos este problema estrutural, nacional e agonizante, e é preciso haver uma estratégia nacional efetiva, que inclua as ilhas”, defende. Segundo a presidente da SOS Animal, já foram apresentadas metodologia e propostas de cooperação de organizações internacionais, mas “os governos não têm isto como uma prioridade”.

Uma das medidas apontadas por Sandra Duarte Cardoso é a esterilização obrigatória dos cães e gatos. A proposta prevê que os cães de porte grande sejam esterilizados até aos nove meses e os de porte pequeno até aos seis meses. Já os gatos “devem ser todos esterilizados até aos cinco meses de idade”, defende.

Nos casos comprovados de carência económica, a pessoa recebia um voucher para fazer a esterilização, que podia cobrir a totalidade ou ter uma modalidade parcial.

Na Grécia, a esterilização de cães e gatos pode ser obrigatória, a não ser que os donos enviem amostra de material genético dos seus animais como prevenção. Assim, as autoridades podem identificar o animal em caso de abandono ou se forem encontradas ninhadas desses animais.

Em países como a Bélgica, Espanha, Áustria ou Alemanha existe legislação obrigatória para a esterilização de gatos, mas com diferentes nuances.

A SOS Animal promove a adoção dos animais de forma responsável e tem um protocolo próprio com exigências de comprovativos. Além disso, apela a uma reflexão profunda sobre a sua rotina e condições antes de adotar um animal. “Nós não facilitamos a vida, somos bastante exigentes, porque acreditamos muito na qualidade e pouco na quantidade”, explica.

Os animais residentes da SOS Animal para adoção
Os animais residentes da SOS Animal para adoção SOS animal

“Preferimos ter 80 ou 100 adoções num ano, sabendo que a taxa de devolução é zero, do que ter 300 adoções e depois uma taxa de devolução gigante. Isso é muito traumático para os animais”, conclui.

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