O político britânico Nigel Farage mantém o seu lugar no parlamento, após ter apresentado a demissão no mês passado devido a uma investigação sobre as suas finanças que deu origem a eleições intercalares.
O político britânico Nigel Farage venceu confortavelmente, esta sexta-feira, uma eleição parcial local, depois de todos os principais partidos terem boicotado a votação em sinal de protesto.
O antigo eurodeputado já tinha proclamado, logo na manhã de sexta-feira, uma “vitória retumbante”, mas disse que não iria assistir ao anúncio oficial dos resultados, em que defrontava o candidato Count Binface.
Farage arrecadou mais de 22 000 votos numa eleição com uma participação de 44%.
“O veredito está dado e é uma vitória convincente e esmagadora”, afirmou, enquanto apoiantes gritavam o seu nome num evento em Essex, transmitido na plataforma X.
Farage, que provocou a realização da eleição ao renunciar ao mandato parlamentar que detinha desde 2024, na sequência de uma investigação às suas finanças, enfrentava Binface e dezenas de outros candidatos marginais na circunscrição de Clacton, no condado de Essex.
A votação foi ignorada pelos principais partidos britânicos, incluindo o governante Partido Trabalhista, que a consideraram uma manobra do líder do Reform UK – em tempos apontado como potencial primeiro-ministro – para fugir ao escrutínio sobre os seus negócios.
Isso abriu espaço para candidatos como Binface – alter ego do comediante Jon Harvey – assumirem o protagonismo.
“Que mundo virado ao contrário, em que o Count Binface é agora o candidato do sistema”, declarou Farage no discurso.
Disse que não iria estar presente na contagem, onde os candidatos tradicionalmente se reúnem para a declaração dos resultados, alegando que a Polícia de Essex o tinha alertado para uma “campanha organizada para perturbar e descredibilizar o resultado”.
A BBC noticiou que tal não correspondia à verdade, citando a Polícia de Essex numa declaração em que se lê: “Temos uma operação policial proporcionada e robusta para garantir a segurança de todos os participantes na contagem.”
O responsável eleitoral interino, Ian Davidson, afirmou que os serviços eleitorais tinham trabalhado com a polícia para garantir que o processo era “concluído de forma segura”, acrescentando que “não há motivo para não prosseguir com a contagem nesta fase”.
Os analistas esperavam uma vitória de Farage, mas previam que o autoproclamado “guerreiro espacial intergaláctico”, que faz campanha com um caixote do lixo na cabeça, poderia conseguir uma fatia desconfortavelmente elevada do voto, talvez perto dos 20%.
Binface declarou à AFP, na sala de contagem, logo na manhã de sexta-feira, que era seu “humilde dever” fazer oposição a Farage, mas garantiu que iria respeitar os resultados.
“Se a maioria dos eleitores de Clacton disser que quer que ele volte a ser o seu deputado, isso tem de ser respeitado”, afirmou.
A participação ficou em cerca de 44,7%, abaixo dos 59% registados nas legislativas de 2024.
Na comunidade costeira, muitos eleitores mostraram pouco entusiasmo pela votação, e até alguns voluntários do Reform descreviam a corrida eleitoral como uma brincadeira.
“É um pouco ridículo”, disse à AFP a ativista do partido Jane Embelton.
“Basicamente, é tudo para fazer Nigel Farage parecer um idiota. Mas ele não me parece um idiota, nem aos seus apoiantes.”
Um número recorde de 33 candidatos marginais, entre eles Binface, concorreu nesta eleição, com alguns dos boletins de voto mais longos da história do país a serem abertos no Clacton Leisure Centre, onde decorre a contagem.
“Não conseguimos decidir”
Farage, cujo partido liderou as sondagens nacionais durante 18 meses antes de cair recentemente, surpreendeu os eleitores ao apresentar a demissão a 7 de julho, em plena investigação às suas finanças.
A investigação do órgão parlamentar de fiscalização da ética política analisa alegações de que ele e o vice-líder do Reform, Richard Tice, não declararam donativos financeiros. Ambos negam qualquer irregularidade.
Farage apresentou a votação de quinta-feira como “o povo de Clacton contra o sistema”, destinada a travar o “arranjo” em torno das suas finanças.
“As pessoas de Clacton devem ser os juízes das minhas ações”, afirmou num vídeo divulgado antes de votar.
Phil, eleitor de Clacton, considerou que a votação “não vai mudar nada”, lembrando que, se Farage vencer como é esperado, a investigação parlamentar será retomada.
Analistas políticos têm minimizado o alcance da votação numa circunscrição que, há uma década, apoiou massivamente o Brexit.
“Seria surpreendente se Farage não vencesse”, afirmou à AFP o cientista político John Curtice.
Mas alguns consideram que a aposta eleitoral de Farage saiu pela culatra, numa altura em que o seu partido Reform desce nas sondagens nacionais.
“O plano de Farage para transformar esta eleição parcial numa batalha política séria fracassou”, disse à AFP Stijn van Kessel, professor de Ciência Política na Queen Mary University of London, sublinhando que o espetáculo resultante “faz Farage parecer algo ridículo”.
Farage obteve 46% dos votos nas legislativas de 2024, tornando-se deputado à oitava tentativa.
Investigação policial
A investigação a Farage, suspensa quando se demitiu, diz respeito a uma doação de cinco milhões de libras (6,7 milhões de dólares) do bilionário das criptomoedas Christopher Harborne.
Entretanto, a polícia de Londres confirmou ter iniciado, no ano passado, uma investigação a donativos ao Reform antes das eleições de 2024.
Meios de comunicação britânicos avançaram que essa investigação diz respeito a apoio financeiro não declarado do aliado de longa data de Farage e burlão condenado George Cottrell, bem como da mãe deste.
As polémicas coincidem com a queda do apoio ao Reform nas sondagens e da popularidade de Farage, há muito uma figura divisiva, simultaneamente apreciada e detestada em doses quase iguais.