Em ano de recorde de candidatos a vagas financiadas em faculdades de medicina na Rússia, falta estudantes para a especialização. Especialistas apontam novas regras de colocação obrigatória após o curso, lembrando a prática soviética.
Este ano, apesar de um concurso recorde, as faculdades de medicina na Rússia ficaram com vagas de estudantes por preencher.
Ainda assim, o interesse pela profissão médica não desapareceu. Nos lugares financiados pelo Estado nas universidades subordinadas ao Ministério da Saúde, em 2026 deram entrada mais de 591 mil candidaturas — mais 26% do que no ano anterior. A concorrência atingiu em média 19 candidatos por vaga financiada.
Apesar disso, após a principal fase de matrículas, várias faculdades de medicina ficaram com lugares vagos. No ingresso nos cursos de especialidade ficaram por preencher dezenas de vagas (sobretudo devido à falta de estudantes com direito a benefícios), mas o problema é particularmente grave no internato médico, onde a falta de candidatos se conta às centenas em todo o país.
Segundo o site “Mel”, as maiores faculdades de medicina do país ficaram sem cerca de 1,5 mil médicos internos. Por exemplo, nas muito procuradas universidades moscovitas Pirogov e Sechenov ficaram por ocupar 289 e 211 lugares, respetivamente. A situação abrange também especialidades populares, como anestesiologia e cuidados intensivos, cirurgia e oncologia.
Este cenário é já descrito como uma das consequências inesperadas das alterações no ensino médico que entraram em vigor em 2026. Em particular, finalistas e jovens especialistas enfrentam agora novas exigências relativas ao seu futuro trabalho no sistema de saúde.
URSS: distribuição direcionada como no período soviético
Especialistas apontam as novas regras de ingresso em faculdades de medicina como principal causa desta falta de candidatos.
Desde 1 de março de 2026, todo o ingresso financiado pelo Estado no internato médico passou a ser feito em regime de formação dirigida.
O Estado procura resolver a falta de pessoal não apenas aumentando o número de estudantes, mas formando especialistas para necessidades concretas das diferentes regiões. Mas quanto mais precisa é a distribuição das vagas, maior o risco de se criar uma situação em que existe necessidade numa região, mas faltam candidatos dispostos a estudar uma determinada especialidade com esse objetivo específico.
Desde 2026, a quota de formação dirigida passou, pela primeira vez, a ser totalmente detalhada por entidades requisitantes, áreas de formação, universidades e regiões de futuro emprego. No total, foram atribuídos mais de 83 mil lugares de formação dirigida no ensino superior, uma parte significativa dos quais na área da medicina.
A principal novidade é que os estudantes têm agora de assinar antecipadamente contratos com futuros empregadores e são obrigados a trabalhar durante 1,5 a 3 anos após terminarem o curso em instituições incluídas no sistema OMS (seguro médico obrigatório). Se o diplomado violar as condições do contrato, tem de compensar os custos da sua formação, pagar uma multa de valor duplicado e devolver o dinheiro recebido em forma de bolsa ao longo dos estudos.
Além disso, se o estudante não conseguir encontrar um empregador disposto a financiar a sua formação, pode pedir transferência para ensino pago; caso contrário, arrisca-se a ser excluído do curso.
A razão principal é a relutância dos jovens especialistas em cumprir o período de trabalho obrigatório em hospitais rurais ou pequenas cidades, onde o nível de salários, as condições de trabalho e, por vezes, a qualidade de vida podem ser muito inferiores aos de Moscovo ou de outros grandes centros.
Este tipo de prática já existia na URSS (e foi testado pela primeira vez na época de Boris Godunov, tornando-se plenamente sistemático sob Pedro, o Grande). O Estado definia antecipadamente quantos especialistas iriam trabalhar e em que locais após terminarem a universidade.
A principal diferença em relação à formação dirigida atual é que, na URSS, a distribuição fazia parte de um sistema centralizado de planeamento de pessoal.
Empresas, ministérios ou regiões podiam informar antecipadamente a universidade sobre o número de especialistas de que precisavam. A universidade formava esses profissionais para uma necessidade concreta e enviava-os, após os estudos, para onde eram necessários. Em alguns casos, os diplomados podiam escolher entre diferentes locais de colocação. O período de trabalho obrigatório, tal como agora, era de até três anos.
Atualmente, muitos recordam também os “lados negros” dessa distribuição: os melhores alunos, mas também filhos de dirigentes do partido e outras pessoas consideradas “necessárias”, eram enviados para destinos atrativos, enquanto os estudantes comuns, e sobretudo os “indesejáveis”, eram colocados em regiões remotas do Império Russo ou da União Soviética. A possibilidade de os responsáveis decidirem desta forma o futuro dos especialistas abria igualmente espaço para práticas de corrupção.