O cultivo tradicional de séculos enfrenta desafios atuais e os produtores de batatas da ilha lidam com problemas graves.
Naxos é a maior ilha das Cíclades. A batata ali produzida é famosa não só na Grécia, mas também no estrangeiro: um produto estreitamente ligado à ilha e à sua economia e conseguiu obter Indicação Geográfica Protegida (IGP) desde 2010.
A batata cultiva-se na ilha desde o final do século XVIII. A sementeira e a colheita fazem‑se duas vezes por ano. Agora decorre a época da segunda sementeira.
Stelios Vathrakokoilis é um dos maiores produtores de batata em Naxos e presidente da Cooperativa Agrícola de Galanado. À Euronews, explicou o que torna tubérculo plantado na ilha tão especial
"Falta no subsolo um componente, o cálcio. Se nesta zona se cultivarem tomates ou hortícolas sem acrescentar cálcio aos fertilizantes, formam‑se podridões na parte de trás do produto. Isso significa falta de cálcio. A batata não é afetada por isso. É precisamente a ausência de cálcio nos nossos solos que lhe dá cerca de 80% do sabor diferente", explicou o agricultor.
Na década de 1980, a produção anual de batata de Naxos chegava às 15 000 toneladas, com milhares de pessoas a trabalharem no setor. Hoje o cenário é outro: cerca de 300 famílias na ilha das Cíclades dedicam‑se atualmente à produção da batata, que reduziu drasticamente para cerca de 5 000 toneladas anuais.
A falta de mão de obra agravou‑se muito nos últimos anos e preocupa os agricultores. É extremamente difícil encontrar trabalhadores legais.
A água diminuiu drasticamente, devido ao forte desenvolvimento urbano e turístico da ilha e a um período prolongado de seca. Os agricultores têm de comprar água cara ao município, proveniente das unidades de dessalinização.
Há, porém, muitos outros problemas, como o elevado custo e a desertificação. O produtor de batata lança o alerta sobre o futuro, perante a redução da produção e o agravamento dos problemas:
“A condição básica para haver produção é existir mão de obra. Um segundo aspeto, e aquilo que vejo num horizonte de cinco a dez anos, é que vamos andar à procura de agricultores com binóculos, não apenas em Naxos, mas em toda a Grécia. Não é possível um hectare deixar hoje no bolso do agricultor holandês 1 500 euros, do israelita 1 200 e do grego 50 euros. Não pode ser! Alguma coisa não estamos a fazer bem. Continuamos a usar métodos tradicionais, técnicas de há décadas, e não avançamos para algo diferente, para uma hidroponia, para soluções semelhantes, com menor área, melhores condições de trabalho e mais rendimento."
"O que vejo é que, dentro de 5 a 10 anos, não haverá nenhum agricultor grego em toda a Grécia", explicou. "E penso que isto é também um problema europeu, em termos gerais, porque vemos os protestos dos agricultores em França, na Alemanha. Não é possível pagar gasóleo de máquinas a dois euros e meio o litro, ter fertilizantes a preços astronómicos, sementes a preços astronómicos e salários na ordem dos 2 500 euros por mês. Se alguém tentar cultivar nestas condições, vai ficar completamente no vermelho.”, sublinhou Stelios Vathrakokoilis.
A União de Cooperativas Agrícolas de Naxos assinala este ano um século de atividade. A associação procura apoiar os agricultores e resolver os inúmeros problemas que afetam a produção agrícola e pecuária da ilha.
“As batatas de Naxos não são apenas um produto. São a história do lugar, são a produção do lugar, são a economia da ilha. São a riqueza do agricultor e do criador de gado" afirmou à Euronews Dimitris Kapounis, presidente da União de Cooperativas Agrícolas de Naxos.
Todos os anos a ilha organiza uma grande festa em torno este ingrediente.
A 17.º Festival da batata realizou‑se no sábado, 12 de setembro, no porto de Naxos. Em paralelo, comemorou‑se o centenário da fundação da União de Cooperativas Agrícolas de Naxos.
Mais de 3 000 pessoas participaram na iniciativa, na praça Nikiforos Mandilaras, com a presença de entidades locais e representantes do mundo agrícola. Habitantes e visitantes provaram diferentes receitas, em que a protagonista era a batata de Naxos, e assistiram a atuações de grupos de música e dança.