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Estados Unidos: que impacto teria um embargo às exportações de gasóleo na Europa

Passageiros esperam o autocarro numa bomba de gasolina no centro de Essen, Alemanha, onde os combustíveis estão caros devido à guerra no Irão, 1 de abril de 2026.
Pessoas esperam pelo autocarro num posto de combustível no centro de Essen, Alemanha, onde os preços elevados refletem a guerra no Irão, quarta-feira, 1 de abril de 2026 -  Direitos de autor  AP Photo / Martin Meissner
Direitos de autor AP Photo / Martin Meissner
De Marta Pacheco
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A UE estreitou os laços energéticos com os EUA para reduzir a exposição a choques geopolíticos, mas os limites norte‑americanos ao gasóleo revelam quão depressa a dependência comercial se torna vulnerabilidade estratégica.

Uma proibição, pelos Estados Unidos, das exportações de gasóleo não deixaria necessariamente os postos de combustível europeus vazios de um dia para o outro, mas poderia fazer subir os preços, obrigando os governos europeus a uma nova ronda de intervenção de emergência numa altura em que famílias, agricultores e transportadores já sentem os efeitos da mais ampla crise energética.

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A perspetiva de Washington reter esses barris no país é particularmente desconfortável para Bruxelas, que reconheceu a dependência do bloco do gasóleo norte‑americano depois de ter abandonado a energia russa. A Comissão indicou que o assunto está a ser discutido com os países da UE e com o setor.

O bloco já enfrenta uma escassez de combustíveis depois de a guerra com o Irão ter perturbado os abastecimentos provenientes do Médio Oriente, enquanto a Rússia também restringiu as exportações de gasóleo.

Entretanto, os preços do gasóleo na Europa mais do que duplicaram desde o início do ano e eram cerca de 38% superiores em termos homólogos em meados de setembro, numa altura em que as refinarias em todo o mundo operam perto da capacidade máxima.

Analistas defendem que uma eventual proibição norte‑americana retiraria ao mercado mundial, já excecionalmente apertado, uma fonte de abastecimento crucial.

“Para a Europa, o efeito imediato é a subida dos preços. O Noroeste da Europa teria de oferecer mais para atrair carregamentos de substituição e estaria a competir com o Mediterrâneo, a América Latina e a África Ocidental pelo mesmo número limitado de barris”, disse à Euronews Zameer Yusof, analista de energia na plataforma de inteligência de mercado Kpler.

A UE passou a depender muito mais do gasóleo dos EUA desde que perdeu os fornecimentos russos. Os Estados Unidos forneceram cerca de 180 000 barris por dia (b/d) dos aproximadamente 580 000 b/d de importações de gasóleo extra‑UE este ano, cerca de 32%, face aos 17% em 2025.

A dependência é ainda mais evidente no Noroeste da Europa, onde os fornecimentos dos EUA representam cerca de 200 000 b/d de um total de 350 000 b/d provenientes de fora da região, perto de 57%, contra 37% no ano passado, segundo dados da Kpler.

Esta concentração significa que uma proibição parcial das exportações norte‑americanas poderia ter um impacto significativo nos preços.

No entanto, retirar 30% dos fornecimentos dos EUA não significaria necessariamente que os preços do gasóleo na Europa subissem 30% ou uma fração equivalente, argumenta a Kpler. Os compradores seriam obrigados a competir de forma agressiva por barris de substituição, o que poderia fazer disparar os preços.

Refinaria de petróleo Feyzin da Total vista nos arredores de Lyon, França, sexta‑feira, 17 de abril de 2026
Refinaria de petróleo Feyzin da Total vista nos arredores de Lyon, França, sexta‑feira, 17 de abril de 2026 AP Photo / Laurent Cipriani

França é atingida primeiro

No seio da UE, França parece ser o país mais vulnerável. O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou na quinta‑feira que a proibição proposta seria “catastrófica”. O país prepara‑se para ir às urnas em 2027, numa altura em que a crise energética está a alimentar a retórica da extrema‑direita.

Antes de a administração Trump defender uma proibição ao gasóleo, o líder francês pediu à Comissão que aliviasse temporariamente as especificações dos combustíveis, para que as refinarias europeias pudessem produzir mais gasóleo e combustível de aviação. Macron apelou também a Bruxelas para coordenar uma segunda libertação das reservas de petróleo de emergência.

Uma proibição das exportações dos EUA reforçaria esse argumento: se a Europa não pode contar com combustíveis refinados importados, precisa de extrair mais produção das suas próprias refinarias. Porém, as refinarias europeias não conseguem fabricar centenas de milhares de barris adicionais de um dia para o outro.

Paris importou cerca de 63 000 b/d de gasóleo dos EUA este ano, cerca de 36% das suas importações de gasóleo. Esta dependência é agravada pelo encerramento das refinarias de Grandpuits e Donges, deixando o país estruturalmente carenciado de gasóleo, alertou a Kpler.

O Reino Unido está igualmente muito exposto, importando cerca de 50 000 b/d dos EUA, ou 26% das suas importações de gasóleo, segundo a Kpler. O encerramento da refinaria de Grangemouth aumentou a dependência de importações.

Existe, contudo, uma almofada. O gasóleo é um dos produtos petrolíferos mais armazenados na Europa, o que significa que as reservas podem absorver pelo menos parte de uma perturbação inicial. Isso poderá evitar uma escassez imediata, embora não elimine a pressão de base sobre os preços se a proibição se prolongar.

Os mercados do sul da Europa estão um pouco mais protegidos graças à capacidade de refinação doméstica e mediterrânica. Itália obtém apenas cerca de 4% das suas importações de gasóleo dos EUA, enquanto Espanha recebe cerca de 19%. Portugal mal está exposto. As refinarias espanholas de Cartagena, Bilbao e Huelva oferecem uma importante almofada de abastecimento interno.

Europa tem poucas alternativas evidentes

O grande problema é o que acontece depois de esgotadas as reservas iniciais. A Europa não pode simplesmente substituir o gasóleo norte‑americano por outro grande fornecedor.

“A Índia é o único substituto credível, mas a sua capacidade de exportação foi fortemente afetada”, afirmou Yusof.

As exportações indianas já caíram acentuadamente, de cerca de 582 000 b/d no ano passado para 352 000 b/d este ano. Os envios de gasóleo indiano para a Europa diminuíram ainda mais, de cerca de 163 000 b/d para aproximadamente 50 000 b/d.

As refinarias indianas estão a obter melhores margens na África Oriental e no Sudeste Asiático, ao mesmo tempo que dúvidas sobre o crude russo utilizado em algumas dessas instalações complicam o comércio com a Europa.

A China e a Coreia do Sul também não conseguem, na prática, preencher essa lacuna. Os seus envios de gasóleo para a Europa este ano foram mínimos: cerca de 1 000 b/d oriundos da China e 2 000 b/d da Coreia do Sul.

A China enfrenta restrições da UE a produtos fabricados a partir de crude russo, enquanto as exportações da Coreia do Sul estão comprometidas por contratos estabelecidos nos mercados asiáticos e a sua disponibilidade global para exportação diminuiu.

Vista aérea da refinaria Martinez Refining Company ao pôr‑do‑sol em Martinez, Califórnia, quarta‑feira, 22 de abril de 2026
Vista aérea da refinaria Martinez Refining Company ao pôr‑do‑sol em Martinez, Califórnia, quarta‑feira, 22 de abril de 2026 AP Photo / Stephen Lam/San Francisco Chronicle

Rever a definição de segurança energética

Este episódio em torno do gasóleo expõe uma fragilidade mais profunda na estratégia energética europeia.

A situação em que a UE se encontra levanta questões sobre se o bloco precisa de reservas estratégicas maiores de combustíveis refinados, de uma capacidade de refinação europeia mais resiliente e de mecanismos mais robustos para coordenar os abastecimentos de combustível em período de crise.

Questionada sobre se está a ponderar uma segunda libertação das reservas estratégicas de petróleo, a Agência Internacional de Energia não tinha respondido até ao momento da publicação.

A decisão da Comissão de debater o assunto no seu grupo de coordenação do petróleo sugere que Bruxelas já o está a encarar como uma questão de segurança energética, e não apenas como um diferendo comercial.

Entretanto, a proposta de proibição das exportações de gasóleo dos EUA parece ser em parte impulsionada por pressões políticas internas. Os preços do gasóleo nos Estados Unidos rondam os 7 dólares por galão, o que aumenta a pressão sobre a administração Trump para mostrar que está a agir sobre o custo de vida antes das intercalares de novembro.

O secretário da Energia dos EUA, Chris Wright, tem sondado as refinarias sobre uma restrição voluntária das exportações como alternativa a uma proibição geral de 90 dias.

Um documento da Energy Policy Research Foundation (EPRF) sustenta que uma proibição das exportações de gasóleo pelos EUA provavelmente se voltaria contra o próprio país, uma vez que as refinarias já operam à capacidade máxima e não conseguem produzir mais sem nova capacidade instalada.

“Excluídas dos mercados de exportação, as refinarias da Costa do Golfo veriam os armazenamentos encherem‑se e as margens caírem, levando muitas a reduzir a atividade para recuperar a manutenção adiada durante a crise. Como a gasolina e o gasóleo são produzidos em conjunto, o resultado seria menos gasolina, gasóleo e combustível de aviação, e preços mais elevados nas bombas”, conclui o documento da EPRF.

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