Os tumultos surgem após meses de protestos contra o governo no país balcânico, desencadeados por um polémico empreendimento turístico numa zona ecologicamente protegida ligada à família do presidente dos EUA, Donald Trump.
A polícia albanesa recorreu a canhões de água e gás lacrimogéneo no domingo, numa altura em que os violentos protestos antigovernamentais entravam no sexto dia e o primeiro-ministro Edi Rama rejeitava as exigências dos manifestantes para que se demitisse.
Desde terça-feira que manifestações marcadas pela violência abalam Tirana, com os manifestantes a exigirem medidas face às más condições nas universidades, às propinas elevadas e à corrupção.
Centenas de manifestantes voltaram a concentrar-se ao meio-dia em frente ao ministério da Educação, entoando palavras de ordem “Rama, demite-te” num clima de grande tensão com a polícia.
Depois de a polícia tentar dispersar a multidão, os protestos espalharam-se pelo centro da cidade, degenerando em confrontos violentos que duraram várias horas.
Os manifestantes incendiaram caixotes do lixo nas ruas, partiram montras e janelas – incluindo na sede do partido Socialista no poder – e atearam fogo a uma esquadra de polícia e à entrada do ministério do Interior.
Os confrontos, marcados pela confusão, alargaram-se à principal avenida e à praça central, com os manifestantes a atirarem pedras, cocktails Molotov e a dispararem engenhos pirotécnicos, enquanto a polícia respondia com balas de borracha e gás lacrimogéneo, segundo um jornalista da AFP.
Ambulâncias entravam e saíam rapidamente das zonas dos confrontos para recolher os feridos.
O Ministério da Saúde indicou à agência noticiosa AFP que 16 agentes da polícia ficaram feridos, 14 dos quais quando os manifestantes atacaram a esquadra.
Albert Nushi, do departamento de segurança pública da polícia, afirmou na noite de domingo que uma esquadra em Tirana foi atacada com cocktails Molotov e engenhos pirotécnicos, colocando em perigo tanto os agentes como as pessoas detidas.
“Um ataque a uma esquadra não é um protesto. A violência contra agentes policiais, os ataques a instituições e ações que ponham em risco vidas humanas não podem ser tolerados”, afirmou.
Apelou ainda aos manifestantes para se distanciarem dos indivíduos encapuzados responsáveis pela violência e para “se reunirem de forma pacífica”.
Segundo o Ministério da Saúde, 28 pessoas ficaram feridas no domingo: 19 agentes da polícia, quatro manifestantes, quatro transeuntes e um jornalista.
Antes do protesto, lojas e escritórios no centro da cidade protegeram portas e janelas com grades e estores metálicos, enquanto equipas municipais retiravam paralelepípedos para evitar que fossem utilizados pelos manifestantes como projéteis.
Num vídeo transmitido durante mais de uma hora, Rama afastou a hipótese de se demitir, afirmando que os protestos são “obra de uma mão externa”.
Segundo o serviço de imprensa federal austríaco, a visita oficial de Rama ao chanceler federal Christian Stocker, prevista para segunda-feira, foi cancelada pelas autoridades albanesas.
Edifícios em chamas
A escritora e ativista Lura Elezi, de 38 anos, disse à AFP que está a protestar “por uma vida melhor, pelo Estado de direito e contra o crime e a corrupção”.
“Amo o meu país, mas o meu governo não nos respeita, desafia-nos. Cada cidadão deve assumir responsabilidade pelo seu país, assumindo o dever de liderar, de amar e de não destruir a própria nação”, afirmou.
Tirana registou no sábado os episódios de violência mais graves, quando os manifestantes lançaram pedras, cocktails Molotov, objetos metálicos e engenhos pirotécnicos contra a polícia, e incendiaram carros e caixotes do lixo para os utilizar como barricadas contra o avanço das forças de segurança.
Vários edifícios, entre os quais um tribunal, bancos e uma estação de correios, foram incendiados ou ficaram gravemente danificados.
De acordo com um relatório do Ministério da Saúde divulgado no domingo, 65 pessoas ficaram feridas, entre as quais 37 agentes da polícia, tendo 12 sido hospitalizadas na sequência dos protestos de sábado.
Desde terça-feira, 272 pessoas ficaram feridas nos confrontos, incluindo 169 agentes da polícia, segundo o mesmo ministério.
Os Estados Unidos, aliado próximo da Albânia, reagiram no final de sábado, com a embaixada em Tirana a apelar à “contenção e calma de todas as partes”.
A Comissão Europeia, em comunicado escrito, “condenou o recurso à violência em Tirana e noutras cidades”, acrescentando que a resposta “deve manter-se proporcional”.
“Num país candidato firmemente empenhado no processo de adesão à UE, as queixas devem ser tratadas através de diálogo construtivo e de forma pacífica”, acrescenta a mesma nota.
A vaga de agitação sucede-se a vários meses de protestos antigovernamentais no país dos Balcãs, desencadeados inicialmente por um polémico projeto de estância turística numa área ecologicamente protegida associada à família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.