Dell Technologies garantiu um contrato de defesa de 9,7 mil milhões de dólares (8,3 mil milhões de euros) para fornecer software da Microsoft a todas as forças armadas dos EUA, semanas depois de Donald Trump elogiar a empresa na Casa Branca
Esta quarta-feira, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos confirmou ter atribuído à Dell Federal Systems, a unidade da Dell Technologies focada no sector público, um contrato de cinco anos, no valor de 9,7 mil milhões de dólares (8,3 mil milhões de euros), para fornecimentos ao Pentágono.
No âmbito do Core Enterprise Technology Agreement (CETA), quadro de licenciamento e aquisição de software da Microsoft para todo o Pentágono, a empresa vai fornecer e gerir licenças de software da Microsoft, subscrições de serviços de cloud e licenciamento de software local em todas as Forças Armadas dos EUA, agências de informações e na Guarda Costeira dos EUA.
As ações da Dell Technologies subiam cerca de 5% nas negociações antes da abertura, para 320 dólares, depois de terem fechado a sessão de quarta-feira em torno de 305 dólares.
A empresa divulga resultados do primeiro trimestre deste ano na quinta-feira, com analistas da Zacks Investment Research a prever receitas de cerca de 35 mil milhões de dólares (30 mil milhões de euros), o que representaria um crescimento anual de cerca de 50%.
Segundo a diretora de informação (CIO) do Departamento de Guerra dos EUA, Kirsten Davies, que falou com jornalistas no Pentágono, o CETA deverá permitir poupanças anuais na ordem dos 422 milhões de dólares (360,9 milhões de euros), ao consolidar orçamentos de tecnologia dispersos pelos diferentes ramos das Forças Armadas numa única estrutura de compras.
O contrato foi atribuído menos de três semanas depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter participado num evento na Casa Branca em que apelou aos norte-americanos para “irem comprar um computador da Dell. São ótimos”.
Davies e o diretor interino de informação da Marinha dos EUA, Barry Tanner, insistiram que a adjudicação resultou de um concurso competitivo.
“Os fornecedores foram avaliados com base na concorrência, na comparação com a tabela de preços da GSA e na cadeia global de valor para o departamento”, explicou Tanner.
A Dell mantém uma parceria comercial de longa data com a Microsoft e é um dos principais compradores de licenças do Windows. Ainda assim, o contrato surge no final de um período de visível alinhamento entre o CEO Michael Dell e a administração Trump.
Em dezembro de 2025, Dell e a mulher, Susan, surgiram ao lado de Trump na Casa Branca para anunciar uma doação de 6,25 mil milhões de dólares (5,3 mil milhões de euros) para as “Trump Accounts”, um programa de investimento para crianças com benefícios fiscais, criado no âmbito da “One Big Beautiful Bill”.
O compromisso prevê a atribuição de 250 dólares (214 euros) a cerca de 25 milhões de crianças norte-americanas com 10 anos ou menos, de agregados com rendimento mediano inferior a 150 mil dólares (129 mil euros), e foi descrito pela Invest America, a organização sem fins lucrativos que lidera a iniciativa, como o maior compromisso privado de sempre dedicado às crianças nos Estados Unidos.
Michael Dell integra também o Conselho de Assessores em Ciência e Tecnologia de Trump, que aconselha a formulação de políticas públicas em áreas como economia, saúde pública, segurança nacional, energia e tecnologias emergentes.
A coincidência entre elogios públicos do presidente a empresas e subsequentes adjudicações de contratos federais está a suscitar escrutínio para lá do caso da Dell.
Declarações financeiras divulgadas este mês pelo Gabinete de Ética Governamental dos EUA revelam que contas de investimento associadas ao presidente Donald Trump detiveram ações da Dell Technologies no primeiro trimestre de 2026. Os documentos indicam que algumas compras foram efetuadas antes de Trump ter elogiado publicamente a empresa num evento na Casa Branca.
A Trump Organization afirma que essas contas são geridas de forma independente por instituições financeiras externas e que nem Trump nem a família dão instruções sobre operações específicas.
Na semana passada, em resposta a perguntas sobre as declarações financeiras de Trump durante uma conferência de imprensa na Casa Branca, o vice-presidente JD Vance afirmou que os investimentos do presidente são geridos por consultores financeiros independentes e rejeitou a ideia de que Trump decide pessoalmente compras e vendas de ações. “Ele não faz estas operações em bolsa”, disse Vance.
Comentadores e especialistas em ética têm igualmente apontado para operações envolvendo empresas como a Intel e a Palantir, cujas ações por vezes registaram fortes oscilações após declarações públicas de Trump ou anúncios relacionados com despesa governamental em tecnologia.
O Pentágono reitera que a escolha da Dell resultou de um processo concorrencial de contratação pública.
Ainda assim, a coincidência temporal entre a adjudicação, os elogios públicos de Trump à empresa e as divulgações financeiras que apontam para investimentos ligados à Dell deverá alimentar novo escrutínio por parte de especialistas em ética e críticos políticos.