As ações da CXMT, maior fabricante chinesa de chips de memória, dispararam esta segunda-feira na estreia em Xangai da maior IPO da China continental em anos.
As ações da CXMT dispararam 472% na estreia em bolsa e subiam 462% no início da tarde na Ásia, tornando a empresa na cotada mais valiosa de uma bolsa chinesa continental, com uma capitalização bolsista de cerca de 3,3 biliões de yuan (aproximadamente 415 mil milhões de euros). Ainda assim, a sua capitalização de mercado permanece abaixo da dos fabricantes de chips de memória sul-coreanos e norte-americanos Samsung Electronics, SK Hynix e Micron Technology.
A CXMT faz parte de um número crescente de fabricantes de chips que beneficiaram enormemente do boom da inteligência artificial. A empresa prosperou também à medida que a China aposta numa maior autossuficiência em tecnologias avançadas, enquanto lida com o acesso limitado a maquinaria de ponta para produção de semicondutores devido aos controlos às exportações liderados pelos Estados Unidos.
A empresa angariou pelo menos 8,6 mil milhões de dólares (aproximadamente 7,3 mil milhões de euros) na oferta, fixada em 8,66 yuan (cerca de 1,10 euros) por ação, na sua entrada no STAR Market, segmento semelhante ao Nasdaq da Bolsa de Xangai, também conhecido como painel de Inovação em Ciência e Tecnologia.
Foi a segunda maior oferta pública inicial na China continental, depois da dupla cotação do Agricultural Bank of China em Xangai e Hong Kong em 2010, que angariou 22,1 mil milhões de dólares (aproximadamente 18,8 mil milhões de euros).
Fundada em 2016 na cidade oriental de Hefei, a CXMT é um dos maiores produtores mundiais de DRAM, ou “memória de acesso aleatório dinâmico”, um tipo de semicondutor usado em tudo, desde servidores de IA a automóveis e produtos de eletrónica de consumo como smartphones e computadores pessoais.
“A CXMT desempenha um papel crítico na aposta da China na IA, particularmente perante os controlos às exportações dos EUA”, afirmou Kyle Chan, investigador no Brookings Institution e especialista nas políticas tecnológicas da China. As restrições norte-americanas também impedem a China de importar potentes chips HBM, ou memória de elevada largura de banda, um tipo de chip DRAM.
As receitas da empresa dispararam para 50,8 mil milhões de yuan (aproximadamente 6,4 mil milhões de euros) nos primeiros três meses de 2026, um aumento superior a 700% em termos homólogos, impulsionado pela forte procura gerada pela rápida adoção da inteligência artificial.
A utilização crescente de IA levou a uma escassez global de chips de memória, fazendo subir os preços de alguns computadores e smartphones. Uma das grandes incógnitas, disse Chan, é se a CXMT poderá ajudar a colmatar a escassez mais ampla.
A CXMT é vista como a melhor oportunidade da China para desenvolver os seus próprios chips HBM de última geração para alimentar modelos chineses de IA, acrescentou Chan. Mas enfrenta muitos desafios, incluindo estrangulamentos na cadeia de abastecimento ao aumentar a capacidade de produção, já que o acesso às melhores ferramentas de fabrico de chips do mundo é altamente limitado, obrigando a empresa a depender de fabricantes chineses de maquinaria.
De acordo com a Counterpoint Research, empresa de estudos de tecnologia, a CXMT foi, em 2025, o quarto maior produtor mundial de chips de memória DRAM por volumes expedidos, com cerca de 8% do mercado global. A Samsung Electronics representou 36%, a SK Hynix 29% e a Micron cerca de 24%.
Nos primeiros três meses deste ano, a CXMT foi responsável por aproximadamente 9% dos envios globais. Até 2028, a Counterpoint Research prevê que a sua quota de mercado atinja cerca de 11%. Mas a empresa de investigação estima que a CXMT precisará provavelmente de pelo menos 15% de quota global para ser competitiva a longo prazo.
“As restrições comerciais às ferramentas continuam a ser o principal desafio para a CXMT”, afirmou MS Hwang, diretor de investigação na Counterpoint que se especializa em semicondutores de memória. Alguns legisladores norte-americanos apelaram também recentemente à administração do Presidente Donald Trump para bloquear a compra de chips de memória da CXMT por empresas norte-americanas, por motivos de segurança nacional e económica.
A CXMT, entre muitas outras empresas chinesas, foi classificada pelo Pentágono como tendo ligações às forças armadas chinesas. Pequim contestou estas classificações na maioria dos casos.
A oferta pública de ações da CXMT seguiu-se à cotação, no Nasdaq, da sul-coreana SK Hynix, no valor de 26,5 mil milhões de dólares (aproximadamente 22,5 mil milhões de euros), no início deste mês.