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Filme da semana: 28 Years Later: The Bone Temple - dança deslumbrante com o diabo

'28 Anos Depois: Templo dos Ossos'
28 anos depois: Templo dos Ossos Direitos de autor  © Columbia Pictures
Direitos de autor © Columbia Pictures
De Amber Louise Bryce
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'The Bone Temple', segundo capítulo da trilogia '28 Years', é um filme brutal e belo que preserva a bondade num mundo corrompido pela raiva

Atenção: contém spoilers

Há uma cena em The Bone Temple em que uma personagem, de peruca loira, fato de treino e asas de fada, faz a dança do Dipsy dos Teletubbies, abanando o traseiro enquanto os transeuntes, horrorizados, aguardam ser esfolados vivos.

Assim é o sadismo desconcertante da entrada de Nia DaCosta na trilogia 28 Years: um filme brutal mas belo, que, sem pudor, se agarra à bondade num mundo corrompido pela fúria e por uma podridão nostálgica.

Quando nos voltamos a encontrar com o jovem herói Spike (Alfie Williams), que no último capítulo optou por ficar no continente após a morte da mãe, o cenário não é animador. Foi raptado e integrado numa gangue violenta conhecida como os Jimmies, liderada pelo viscoso Sir Jimmy Crystal (Jack O'Connell, a voltar a provar a aptidão para interpretar frios líderes de culto).

Jimmy é louco. Não de forma divertida ou excêntrica, mas naquele modo “o diabo é meu pai e pediu-me para sacrificar pessoas”. Chama-lhe “caridade”, instruindo os seguidores a esventrar humanos não infetados para o “Old Nick”, que também acredita ter sido responsável pelo Vírus da Fúria.

Samson, o Alfa Infetado (Chi Lewis-Parry)
Samson, o Alfa Infetado (Chi Lewis-Parry) © Columbia Pictures

Entretanto, Ian Kelson (Ralph Fiennes), médico solitário que passa os dias a polir ossos para o seu ossário, cria um laço inesperado com um Alfa que arranca colunas vertebrais (Chi Lewis-Parry), agora viciado nas injeções de morfina que Kelson usa para defesa. Juntos, ficam sob efeito, contemplam as estrelas e dançam ao som de música dos anos 80, em estranhos e doces intervalos de alívio.

Esta estrutura narrativa em dois eixos desenrola-se em justaposições voláteis, com a capacidade humana para o bem e o mal a colidir, por fim, numa arrebatadora dança com o diabo (ao som de Iron Maiden, nada menos).

Tal como 28 Years Later, The Bone Temple parece afastado dos antecessores. As imagens granuladas e o nervo trémulo de 28 Days Later (2002) foram substituídos por visuais tão nítidos e coloridos que parecem saltar do ecrã com vigor sensorial.

E há os zombies em correria, antes centrais no fator medo da saga, agora mero incómodo de fundo à medida que surgem terrores piores.

O Vírus da Fúria, agora contido nas Ilhas Britânicas em quarentena, não só gerou várias novas evoluções dos Infetados, como também um mosaico de sobreviventes que lutam por encontrar propósito sem ordem. Alguns agarram-se ao que antes os fazia humanos, como Kelson com o seu bunker cheio de discos, enquanto outros são moldados numa outra espécie de monstro, como Sir Jimmy e as suas matanças guiadas por delírios.

É aqui que o filme mostra como a tragédia pode dar origem a sistemas de crenças perigosos, tecendo uma teia de personagens interligadas cujas vidas interiores acrescentam profundidade emocional e temática ao cenário apocalíptico.

Numa altura de reboots, remakes e spin-offs sem fim, o argumentista Alex Garland conseguiu o que poucos: uma sequela que enriquece a saga preexistente ao ousar refletir a escuridão do mundo real.

Ainda congelado nos anos 2000, o filme permite medir as nossas experiências pelas das personagens, usando a nostalgia para explorar como as pessoas se perdem em memórias cor-de-rosa.

Da aparente idolatria de Sir Jimmy por um apresentador de televisão caído em desgraça, à carruagem de comboio abandonada onde Samson, o Alfa, evoca uma memória há muito perdida, as cascas do passado estão por todo o lado, assombradas por um futuro desconhecido.

Sob a direção confiante de DaCosta, o filme torna-se mais negro e mais estranho do que nunca, privilegiando a inquietação em lume brando em vez dos sustos, e um tom que oscila entre rudez sangrenta e realismo mágico, evocando o grande final de Love Lies Bleeding.

Ancorado por uma prestação arrasadora de Ralph Fiennes, The Bone Temple irrompe por algo que parece psicose; os cenários impactantes, a banda sonora anacrónica e a vilania mascarada manifestam-se como uma espécie surreal de Cirque du Satan.

Alguns poderão lamentar a falta de desenvolvimento de Spike, cujo arco de passagem à idade adulta sustentou as bases emocionais do filme anterior. Mas esta contenção parece necessária numa trilogia cujo impacto vive nos encontros pelo caminho.

Cada personagem apresentada até agora, por mais pequena que seja, tem sido uma pista para uma nova direção. E, como revela o final, estamos finalmente a fechar o círculo, de volta a onde tudo começou...

Ainda assim, vai ser preciso esperar. Fala-se num lançamento em 2027, com Danny Boyle de regresso à realização.

Até lá, a força da série reside nas perguntas inquietantes que deixa. Gostaríamos todos de acreditar que, perante circunstâncias semelhantes, ficaríamos bem. Que não recorreríamos à violência ou à autodestruição. Mas, se a experiência de uma pandemia real nos ensinou algo, é que as crenças das pessoas raramente se alinham com a verdade.

A dor gera dor, que por sua vez leva à culpa, e o fosso entre bondade e crueldade alarga-se.

Como diz Kelson, «ninguém é o Old Nick. Só existimos nós.»

28 Years Later: The Bone Temple já está nos cinemas

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