A investigadora moçambicana morreu no domingo após uma “luta grande contra um cancro pancreático”, disse a sua filha à agência Lusa. Tinha 63 anos.
Maria Paula Meneses era uma antropóloga moçambicana que trocou o seu país por Portugal para realizar investigação no Centro de Estudos Sociais (CES), em Coimbra. Doutorada em antropologia pela Universidade de Rutgers, nos EUA, e mestre em História pela Universidade de São Petersburgo, na Rússia, a professora doutora também foi investigadora visitante na Universidade Paris 8, em França, onde frequentemente se deslocava para ministrar palestras.
A antropóloga foi uma das primeiras investigadoras contratadas pelo CES e ajudou a dinamizar este centro de investigação na área de estudos pós-coloniais, na qual se tornou investigadora principal. Coordenou vários cursos de pós-graduação e foi cocordenadora do Programa de Doutoramento em Pós-Colonialismos e Cidadania Global, um dos cursos mais procurados por estudantes nacionais e internacionais.
Após tomarem conhecimento da sua morte, vários escritores e figuras da academia publicaram notas de pesar nas suas redes sociais.
“Foi um prazer ter sido orientado por uma das maiores pensadoras de Moçambique, de África e dos Países de Língua Portuguesa. Eu ainda acreditava que iria defender a tese na tua presença, mas este sonho não será possível devido à tua partida. Descanse em paz, Professora Maria Paula Meneses. A tua obra é enorme. Ficarás para a história como um dos maiores nomes das ciências sociais que alguma vez já existiram. Terei sempre orgulho de ter-te como minha Mestre”, escreveu Jessemusse Cacinda, escritor moçambicano.
“Eu era ainda muito jovem — ousado, mas profundamente inexperiente. Mais activista do que académico, carregava muitas certezas sobre o mundo e pouca evidência que as sustentasse. Foi então que a professora Maria Paula Meneses me acolheu. Acreditou em mim quando eu próprio ainda não sabia bem quem poderia vir a ser. Convidou-me a trilhar os caminhos árduos, mas necessários, do pensamento crítico, da leitura exigente e da escrita metódica — a pensar académica e politicamente com rigor”. Escreve Boaventura Monjane, também escritor moçambicano.
Maria Paula Meneses foi uma das antropólogas africanas mais influentes das últimas décadas
Deu um contributo importante nas Epistemologias do Sul, na antropologia e nos estudos pós-coloniais, tendo sido uma voz fundamental nos debates sobre Moçambique, pluralismo jurídico e narrativas históricas africanas.
“O que marcava a Paula eram duas coisas principais: um conhecimento amplíssimo sobre processos sociais na África e uma crítica implacável à maneira como as ciências sociais no Ocidente assumem uma superioridade epistêmica em relação a outras tradições. Com o tempo, estas ideias acabaram por fundamentar as de livros e cursos sobre "as epistemologias do Sul", escreve Leonardo Avritzer, cientista político e investigador brasileiro.
“Conhecida (e reconhecida) internacionalmente pelo trabalho que desenvolveu ao longo de uma carreira riquíssima, foi uma antropóloga moçambicana que se entregou de corpo inteiro aos estudos pós-coloniais, com um pensamento a partir do Sul. Uma vida enorme que, na minha opinião, não foi assinalada tanto quanto penso que deveria ter sido. Ou então é o meu orgulho dela a falar”, escreve Celso Braga Rosa, estudante de doutoramento e escritor português.
Pouco antes de ficar doente, a investigadora foi alvo de acusações na sequência de denúncias de um Coletivo de Vítimas de abusos no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. “Entrou em depressão devido às falsas acusações informais”, escreve uma antiga aluna no Facebook. Após um inquérito interno promovido pela instituição, a professora foi ilibada.
Antes da doença e do consequente afastamento do CES, a professora integrava uma importante linha de investigação sobre “Europa e o Sul global: patrimónios e diálogos”. Foi coautora do livro Epistemologias do Sul, uma obra internacionalmente conhecida e amplamente reconhecida. A investigadora principal participou em vários projetos de investigação que resultaram na publicação de inúmeros livros e artigos científicos em vários países, nomeadamente Moçambique, Portugal, Espanha, Brasil, Senegal, Estados Unidos da América, Inglaterra, Argentina, Alemanha, Países Baixos e Colômbia.
A antropóloga nunca se desligou da sua “terra”. Nasceu em Maputo, em 1963, e manteve-se sempre associada à Universidade Eduardo Mondlane e à Universidade Pedagógica, “onde sempre procurou continuar a dar o seu contributo”, declarou a filha.
De acordo com uma nota de pesar publicada na página do CES, a autora e investigadora tinha 63 anos e estava a finalizar “o seu último livro”. O funeral foi esta terça-feira, em Coimbra.