No domingo, assinala-se o Dia Internacional da Mulher. A Euronews falou com quatro mulheres chefs, que desafiam padrões na área da restauração.
O Dia Internacional da Mulher celebra-se este domingo, dia 8 de março, e representa um marco de conquistas sociais, políticas e económicas alcançadas por gerações que não se deixaram conformar. Na restauração foi igual, com mulheres a desafiarem preconceitos e a redefinirem a área.
Apesar de, durante séculos, o papel da mulher no seio familiar ter estado associado a tarefas domésticas e à cozinha, a liderança de equipas no mundo da gastronomia sempre foi encarada como uma função de homens. A Euronews falou com quatro mulheres que "metem as mãos na massa", e que têm vindo a revolucionar a restauração nacional e internacional.
Zélia Santos
A 'chef' do Brisa do Mar no Reid's Palace, Zélia Santos, foi a primeira mulher a assumir este cargo em mais de 130 anos de vida do lendário hotel madeirense. Natural da ilha, formou-se na Escola de Hotelaria e Turismo da Madeira e iniciou a sua carreira no Reid's, dominando as cozinhas francesa e mediterrânica.
O talento de Zélia deu provas e acabou por ser convidada para liderar o restaurante Brisa do Mar, onde aposta em ingredientes locais e sazonais. “Ser a primeira mulher a chefiar um restaurante do Reid’s Palace foi, sem dúvida, uma conquista pessoal e profissional, que comporta transformação e responsabilidade. Sinto-me verdadeiramente orgulhosa, sobretudo porque, quanto mais mulheres estiverem nestes cargos, mais portas conseguiremos abrir para que outras vejam a liderança como um objetivo alcançável”.
Questionada sobre se a representação feminina na restauração tem vindo a evoluir, Zélia reconhece que sim, embora admitaque é um caminho em construção. A 'chef' refere que, atualmente, "há uma maior preocupação em formar equipas de igual para igual, com o mesmo número de mulheres e homens", até porque "com uma equipa mista é possível ter acesso a ideias diferentes e formas de estar diferentes".
Marlene Vieira
A 'chef' Marlene Vieira, a única mulher a integrar o grupo de chefs do Time Out Market, em Lisboa, e Estrela Michelin em 2025, defende que "as mulheres têm uma certa dificuldade no trajeto", sendo "importante perceber como é que elas ultrapassam obstáculos, obstáculos que se calhar são diferentes dos dos homens, as mulheres têm uns e os homens têm outros".
"Ainda é mais comum encontrarmos homens no cargo de 'chef', mas tem havido cada vez mais mulheres. As condições são outras, ainda não são as ideais, mas são melhores do que eram. Já não é um mundo de homens", indica.
"Agora... mais facilmente há um investidor para um 'chef' homem do que para uma mulher, isso garantidamente. Um 'chef' de cozinha homem é muito mais comercial do que uma 'chef' mulher. Portanto, os investidores vão investir num produto que vende mais. O próprio público prefere ver homens à frente das cozinhas, e os investidores vão procurar o que é mais popular. E quem é mais popular em Portugal são os homens", acrescenta Marlene, salientando a desigualdade salarial que continua a existir na área: "Continua a haver uma discrepância em relação aos valores pagos, na mesma categoria, aos homens e às mulheres".
Natural da Maia, no Porto, Marlene Vieira começou o seu percurso na cozinha profissional aos 12 anos para aprender num "quase estágio". Aos 16 anos iniciou os estudos na Escola de Hotelaria de Santa Maria da Feira e desde os 18 que trabalha em hotéis em Portugal e no estrangeiro, tendo passado pelo restaurante português Alfama em Manhattan, nos Estados Unidos. Em 2009 integrou o concurso Chefe Cozinheiro do Ano, onde participavam maioritariamente homens.
Eva Monteiro
Também a 'chef' de pastelaria da Florbela Pâtisserie e do Blind, no Torel Palace Porto, Eva Monteiro, refere que há cada vez mais mulheres que se destacam na área. Observa que a ideia de que a restauração é maioritariamente dominada por 'chefs' homens já foi ultrapassada, e diz que nunca se sentiu discriminada por ser mulher. "Nunca senti que fui tratada de maneira diferente por ser mulher. Acredito que possa acontecer, mas não é a minha experiência. Acho que as mulheres estão muito bem representadas, e cada vez mais, na área da restauração".
Eva Monteiro começou por estudar Design de Interiores, mas não tardou em mudar de rumo, acabando por se formar em Gestão Hoteleira na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto. Depois de um estágio em pastelaria no Hotel Teatro, no Porto, passou por vários hotéis, restaurantes e pastelarias tradicionais antes de integrar a equipa do Torel Palace Porto em 2019, boutique hotelportuense inspirado na literatura portuguesa. A abertura da Florbela Pâtisserie, em 2023, fê-la abraçar um novo desafio e enveredar pela pastelaria de inspiração francesa, apesar de fazer questão de “dar algumas nuances de sabores portugueses".
Carla Sousa
Já a 'chef' do Xtian, no Vermelho Melides, Carla Sousa, confessa que, ainda hoje, há clientes que se mostram surpreendidos quando se dirige às mesas para se apresentar. "As pessoas verbalizam-no sem qualquer problema. Estão sempre à espera que seja um homem à frente da cozinha. Acho isso curioso".
Filha de pais cabo-verdianos, Carla Sousa assumiu a liderança da cozinha do Xtian no final de 2025. Cresceu num ambiente campestre, onde havia hortas, galinhas, patos, ovelhas, e estavam presentes o cultivo dos produtos — respeitados na sazonalidade e aproveitados integralmente - e a partilha familiar de refeições à mesa. Tudo isto influenciou o seu percurso na área da cozinha, tendo trabalhado, para além de Portugal, em Barcelona, Paris e no Luxemburgo.
Referências no feminino
A presença de referências no feminino na restauração revelou-se crucial no percurso das quatro 'chefs', apesar da reduzida presença de mulheres em cargos de liderança. "Infelizmente, em Portugal, nunca tivemos muitas 'chefs' mulheres que estivessem na ribalta. Se calhar a Tia Alice, mas já a conheci mais tarde", explica Marlene Vieira.
Eva Monteiro considera que é "motivador a existência de referências nesta área, como em todas", dado que relembram "que vale a pena lutar" e que "as mulheres fazem a diferença, tanto pela criatividade e o amor, como pelo carinho que colocam nos pratos".
Já Carla Sousa aconselha as jovens raparigas que ambicionam ter uma carreira na cozinha profissional a procurarem referências, bem como a demonstrarem "profissionalismo e consistência". Marlene Vieira refere que, para além de referências, é crucial que cada mulher e homem "siga o seu caminho" nesta área.
Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, e de modo a representar a força feminina, Zélia afirmou que prepararia um prato de carne por ser "um elemento forte da culinária". "Escolheria talvez uma carne de borrego, que exige mais trabalho, concentração e educação, acho que isso define bem o papel da mulher e as dificuldades que enfrenta". Após o prato principal, Evaprepararia uma sobremesa com "uma mistura de sabores frutados e ácidos, gosto muito de framboesa. Mas também poderia usar sabores quentes como a avelã, o caramelo salgado ou o pistácio".
Para conhecer melhor outras 'chefs' a dar cartas na gastronomia portuguesa, acompanhe também o trabalho de:
-Ana Borja Armijos, Head Sommelier no Restaurante Brilhante
-Eveline Borges, Sommelier no Midori, no Penha Longa Resort
-Mónica Azevedo, Chef de pastelaria no Tivoli Avenida Liberdad
-Lívia Orofino, Chef residente do Canalha
-Cintia Koerper, Chef Executiva de Pastelaria na Herdade da Malhadinha Nova
-Elisabete Fernandes, Diretora de Vinhos do The Yeatman
-Catarina Correia, Chef Executiva da Casa de Chá da Boa Nova