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"Chalamet gate": troça dá lugar a debate sobre acesso ao teatro de ópera e ballet

Timothée Chalamet na segunda parte de um jogo da NBA entre os New York Knicks e os Portland Trail Blazers, em 30 de janeiro de 2026
Timothée Chalamet na segunda parte de um jogo da NBA entre os New York Knicks e os Portland Trail Blazers, a 30 de janeiro de 2026. Direitos de autor  AP Photo/Frank Franklin II
Direitos de autor AP Photo/Frank Franklin II
De Alexander Kazakevich
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Afirmar que ninguém quer saber de 'La Traviata' ou do 'Quebra-Nozes' gerou polémica. Profissionais defendem o actor e lembram que a verdadeira luta é tornar estas artes mais acessíveis e representativas

Transformou-se entretanto numa campanha à escala mundial. Grandes instituições culturais, de Roma a Seattle, passando por Lyon, reagiram às declarações de Timothée Chalamet sobre a ópera e o ballet, que o ator descreveu como "cenas" de que "já ninguém quer saber".

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Esta observação – explosiva – foi feita durante uma conversa pública (fonte em francês) entre o ator franco-americano e o colega de Hollywood Matthew McConaughey, organizada pela Variety e pela CNN num evento na Universidade do Texas, a 24 de fevereiro.

Pouco mais de 50 minutos depois do início da conversa, Timothée Chalamet foi questionado sobre a afluência às salas de cinema e sobre o facto de a atenção do público se estar a reduzir, com alguns espectadores a querer que a ação comece logo nas primeiras cenas. A estrela de "Dune" respondeu que, se as pessoas quiserem mesmo ver um filme, irão naturalmente, citando como exemplo "Barbie" e "Oppenheimer".

O ator mudou então de assunto, sublinhando que algumas artes sobrevivem sobretudo graças a uma lógica de preservação institucional, mesmo se o interesse do grande público diminuiu. Garantindo que "admira" quem luta para "salvar" as salas de cinema ou um género artístico em particular – e que ele próprio já o fez no passado – levantou ainda assim reservas: "Não quero trabalhar no ballet ou na ópera, nem em cenas em que nos dizem: 'Ei, continuem a pôr isto a andar, mesmo que, na realidade, já ninguém queira saber'".

"Com todo o respeito por quem trabalha no ballet e na ópera", acrescentou rapidamente, antecipando uma onda de críticas.

"Isto é um convite pessoal"

A criatividade das equipas de redes sociais dos grandes teatros de ópera, nacionais e regionais, inundou os feeds do Instagram e do X. Alguns convidaram o ator a assistir a uma representação, enquanto outros aproveitaram a ocasião para apresentar a sua temporada, destacando excertos que ilustram o esforço para tirar o pó aos clássicos e mostrar a vitalidade desta arte prestigiosa.

Na Ópera de Paris – referência francesa, com duas salas icónicas, o Palais Garnier e a Bastilha – revisitou-se a filmografia de Timothée Chalamet, atualmente candidato aos Óscares com "Marty Supreme", de Josh Safdie, onde o ator brilha no papel de Marty Reisman (1930-2012), disposto a tudo para se tornar o melhor jogador de ténis de mesa da história.

"Plot twist: também há ténis de mesa na ópera", ironizou na sexta-feira a instituição parisiense ao publicar um vídeo de uma cena de "Nixon in China", de John Adams, em que se vê um jogo de ténis de mesa, símbolo da aproximação entre os Estados Unidos e a China no início da década de 1970, em plena Guerra Fria.

"Caro Timothée, [...] só te queríamos sossegar: os cantores, os bailarinos e as orquestras continuam a comover e a surpreender e, pormenor curioso, as salas continuam a encher-se", informou a Opéra Grand Avignon (fonte em francês).

"Pelos vistos, há até quem venha ouvir vozes sem microfone, ver corpos a contar histórias sem efeitos especiais e chorar com música escrita há 200 anos. Estranhos tempos", observou o teatro do sul de França.

A Ópera Estatal de Viena foi ao encontro dos habitantes da capital austríaca para lhes perguntar se esta arte é importante para eles.

Numa sequência de entrevistas de rua publicada pela instituição emblemática, vêem-se pessoas a acenar afirmativamente, algumas com reservas. "Depende muito da geração: os mais velhos vão, claro, aproveitar um pouco mais do que nós", diz um jovem. "Bem, não me interesso propriamente por isso", acrescenta outro, "mas acho interessante quando vemos um pouco do que é apresentado no Instagram ou assim. Mas eu próprio ainda nunca fui".

"Considera isto o teu convite pessoal para Viena. O nosso palco espera por ti", concluíram as equipas da ópera.

Uma chuva de aplausos, um pano que desce. La Scala (fonte em francês), um dos teatros mais famosos do mundo, optou pelo laconismo, respondendo com uma mensagem no seu curto vídeo: "Há quem se importe, dá para ouvir".

Na capital italiana, em Roma, a ópera quis jogar com as afinidades desportivas do ator: "Sabemos que és adepto da Roma, mas achamos que devias alargar os horizontes e vir visitar-nos : vais descobrir outras paixões", publicou a instituição no X.

Muitos, como a Ópera de Lyon (fonte em francês) – instalada no edifício renovado por Jean Nouvel e onde a companhia ensaia atualmente "Billy Budd", de Benjamin Britten – avançaram os seus números de público, com os espectadores aplaudirem em massa esta "resposta".

O Grande Teatro do Liceu (fonte em francês), em Barcelona, aproveitou para anunciar a estreia digital de "La Gioconda", de Ponchielli, que será transmitida este domingo na plataforma LiceuOPERA+.

Em Seattle, onde "Carmen" está em cena, foi apresentado no Instagram um código promocional de 14 % para todo o fim de semana. Uma alusão aos 14 cêntimos que Timothée Chalamet calculou ter perdido em audiência depois da tirada sobre a ópera e o ballet.

"Diz adeus a esse Óscar"

Entre as observações recebidas pela Euronews, um parisiense, Luís, fala em "responsabilidade social" e lamenta que uma "jovem ícone do cinema faça declarações que não ajudam a ópera, já em crise, bem pelo contrário".

Para os fãs do ator que nunca foram à ópera, "é a desculpa perfeita!"

Se o tom das mensagens institucionais se mantém benevolente, alguns comentários sob o vídeo ou nas redes sociais não têm papas na língua. "Quando já ninguém se lembrar de Timothée Chalamet, Mozart e Tchaikovski vão continuar a fazer a sua magia", troça um internauta. Outro atira: "Apoia os teus teatros locais, pá". Alguns vão mais longe: "Já ninguém quer saber" – diz o tipo que acabou de entrar num filme sobre ténis de mesa" ou ainda "Pois, de certeza que nos vamos lembrar de Wonka e Marty Supreme, mas não do Lago dos Cisnes ou das Bodas de Fígaro".

"La Scala bate Dune I e II em número de espetáculos esgotados".

E, para rematar: "Pois… podes dizer adeus a esse Óscar" – a uma semana da cerimónia no Dolby Theatre.

"É absurdo dizer que toda a gente é tocada pela ópera"

No grande concerto de críticas e farpas, algumas vozes destoam.

Ben Glassberg, à frente da Orquestra da Ópera Normandie Rouen, dirigiu-se aos seus seguidores numa longa mensagem em vídeo, publicada no Instagram. O maestro britânico, quase da mesma idade de Timothée Chalamet, afirmou não estar "de acordo" com a estratégia "defensiva" que se instala "sempre que se ataca a ópera".

Na sua opinião, o ator franco-americano "não tem totalmente razão, mas também não está completamente errado".

"Há muita gente neste planeta a quem a ópera não interessa nada e fingir que é uma forma de arte 'superior', do género: se não percebes, o problema é teu... Pois eu acho que isso é um erro", insistiu.

"É absurdo dizer que toda a gente é tocada pela ópera. Gostava que fosse assim", confidencia o maestro à Euronews. "Um amigo resumiu isto muito bem: a ópera tem de estar aberta a todos, mesmo que não fale necessariamente a toda a gente".

"O que mais me preocupa é a ópera continuar a ser uma arte reservada aos ricos", acrescenta Ben Glassberg.

O papel dos profissionais do setor, precisa na sua mensagem, não é exclamar: "Vejam, estamos a atuar com lotação esgotada", mas ouvir e perguntar: "Se calhar há pessoas, muitas pessoas, a quem isto não diz nada. E porquê? O que podemos fazer para mudar isso?"

Tudo passa pela exposição, explica, citando o exemplo dos filhos, que começaram a ouvir ópera "ainda na barriga da mãe".

"Em vez de cairmos em cima de Timothée Chalamet, devíamos é apontar aos governos e perguntar: 'Porque é que cortam no financiamento da música na escola?' Porque, na realidade, ninguém vai querer vir à ópera no futuro se nunca tiver ouvido falar dela. Ninguém a vai conseguir compreender".

É uma forma de arte extraordinária à qual a maioria de nós dedicou a vida. Mas, para quem não a conhece, como é que a pode apreciar?

O maestro aconselha os seus pares a "canalizar a raiva", considerando que "o problema" não é Timothée Chalamet, que "pode dizer o que quiser numa entrevista".

"Devíamos canalizá-la para os governos que retiram financiamento à música e à educação artística, e também para quem, dentro da própria indústria, não procura tornar a ópera acessível e suficientemente diversificada para que toda a gente se sinta representada", sublinhou.

Em França, desde a reforma do ensino secundário que entrou em vigor em 2021, o acesso à música ficou mais limitado: os alunos só podem escolher, no máximo, duas opções facultativas (línguas, artes, educação física, etc.). Resultado: um aluno pode deixar de ter música logo a partir do 10.º ano (15 anos), até porque as opções e especialidades musicais não são oferecidas em todos os estabelecimentos e dependem muitas vezes dos seus meios.

Várias casas de ópera francesas sofreram, além disso, cortes nas subvenções nos últimos anos. O Ministério da Cultura, no caso da Ópera de Paris (2024), ou as autoridades locais, como em Lyon (2021), cortaram nos orçamentos para responder a outras prioridades.

"A melhor publicidade à ópera desde o início da minha carreira"

Num artigo de opinião publicado no New York Times, Gia Kourlas, crítica de dança, considera também que o cerne do debate não é pôr em causa o valor intrínseco destas formas de arte, "que não fazem propriamente parte da cultura mainstream", mas sim a forma como são percecionadas e a capacidade de "durar" enquanto arte viva e de chegar a um público perante a concorrência dos filmes, por exemplo.

Segundo ela, o objetivo do ator não era dizer que a ópera e o ballet são "sem importância", mas antes que "o mundo tem dificuldade em apreender" a sua riqueza.

"Está errado?", questiona Gia Kourlas, acrescentando que a polémica foi amplificada pelo facto de ter sido desencadeada por uma estrela de cinema.

"Se um bailarino dissesse que um filme não tem impacto, seria como uma árvore que cai numa floresta". Sem que ninguém a ouvisse.

Trata-se de um debate essencial, e as soluções têm de vir ao mesmo tempo das companhias, da sociedade e dos decisores políticos, para que a ópera e o ballet não fiquem confinados a um papel de nicho e continuem a provocar arrepios ao maior número possível de pessoas.

No fim de contas, para Ben Glassberg, a frase do jovem ator é "a melhor publicidade à ópera" desde o início da sua carreira.

A Euronews contactou Timothée Chalamet, sem resposta até ao momento da publicação.

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