Esta quinta-feira assinala o fim de uma era para o "The Late Show", um marco da cultura norte-americana prestes a desaparecer. Saiba o que esperar do último episódio, dos convidados, dos motivos que levam a CBS a fechar o programa e do futuro de Stephen Colbert
Chega ao fim esta semana mais de uma década de história da televisão noturna, com Stephen Colbert a despedir‑se do comando do programa norte-americano The Late Show já esta quinta‑feira.
Recorde‑se que o The Late Show tem sido, há muitos anos, o programa de conversas de horário noturno de referência da CBS. Estreou‑se em 1993, com David Letterman na apresentação. Colbert assumiu o lugar em 2015 e destacou‑se pelo humor, pelo carisma e pelos monólogos políticos, amplamente populares, em que não poupava a administração Trump.
A era Colbert, de 11 anos, termina na quinta‑feira, 21 de maio, deixando o universo dos programas noturnos bastante mais pobre.
Eis o que importa saber sobre a despedida – e sobre os motivos que levaram ao cancelamento do The Late Show.
Que esperar do programa final
O último programa terá uma duração alargada e a derradeira lista de convidados está a ser mantida em segredo.
Entre os convidados das últimas emissões desta semana estiveram Jon Stewart, Steven Spielberg e David Byrne, e sabe‑se que o penúltimo programa, esta quarta‑feira, 20 de maio, contará com uma atuação da lenda do rock Bruce Springsteen – bem como com a derradeira edição do segmento recorrente (e muito querido) The Colbert Questionert. Desta vez será o próprio Colbert a responder às famosas 15 perguntas – e o público ficará finalmente a saber em que número é que ele pensa.
Os colegas de ofício Jimmy Kimmel, Seth Meyers, John Oliver e Jimmy Fallon juntaram‑se a Colbert no programa da semana passada para uma reunião da Strike Force Five – o grupo que formaram para apoiar e pagar aos seus argumentistas durante a greve do Sindicato de Argumentistas da América, em 2023.
Durante a conversa, comprometeram‑se a estar presentes na última emissão de Colbert. Manifestaram também o descontentamento com a decisão de cancelar o programa.
«Estou à espera que apareça o Stephen furioso», disse Kimmel na entrevista em grupo. «Quero ver‑te perder a cabeça.»
Kimmel e Fallon anunciaram ainda que os respetivos programas não irão para o ar na quinta‑feira: a ABC e a NBC vão emitir reposições em homenagem à despedida de Colbert.
Quem poderá surgir no último episódio
Numa entrevista ao The Hollywood Reporter (fonte em inglês), Colbert revelou que ainda há uma figura célebre que gostaria de entrevistar antes do fim do programa...
«O papa é a minha baleia branca», disse Colbert, referindo‑se ao papa Leão XIV. «Escrevi‑lhe. Disse: “Vá lá!” Não, escrevi: “Santidade, espero que esta carta o encontre bem, ou, pelo menos, infalível. Quer vir ao meu programa? Não precisamos de falar de política.”»
Colbert conseguirá realizar esse desejo? Faltam apenas dois dias para saber...
Porque está Colbert de saída
Não é apenas Colbert a reformar‑se; toda a franquia chega ao fim.
Em julho, a CBS anunciou que o The Late Show iria pôr termo a 33 anos de emissão. A cadeia insistiu que a decisão de puxar o cabo era «puramente financeira» e que não estava «relacionada, de forma alguma, com as audiências, o conteúdo do programa ou outros assuntos em curso na Paramount».
Seguiu‑se o riso, porque poucos acreditaram nessa explicação. Muitos apontaram para eventuais pressões da administração Trump, tendo em conta que Colbert nunca hesitou em parodiar, criticar e expor Trump como um vigarista.
Também a coincidência temporal levantou suspeitas: o anúncio deu‑se quando Colbert criticava duramente a empresa‑mãe da CBS, a Paramount Global, por aceitar pagar 16 milhões de dólares a Trump devido a uma entrevista com a antiga vice‑presidente Kamala Harris, emitida no 60 Minutes. Colbert chamou ao acordo da Paramount «um suborno gordo».
Tanto o The Late Show como o 60 Minutes são programas da CBS. Nessa altura, a Paramount estava a ultimar uma mega fusão, de vários milhares de milhões de dólares, com a Skydance, que precisava do aval da administração Trump...
Até Sherlock Holmes, em coma, conseguiria ligar estes pontos.
A isso soma‑se o facto de Trump nunca ter escondido a antipatia por Colbert e pelo programa – bem como por qualquer programa ou apresentador que se atreva a exercer o direito, consagrado na Primeira Emenda, de o criticar – e a justificação «financeira» soa ainda mais frágil.
Trump chegou mesmo a celebrar a notícia na sua plataforma Truth Social, regozijando‑se: «Adoro absolutamente que o Colbert tenha sido despedido». Acrescentou que o «talento [de Colbert] era ainda menor do que as audiências».
Nota: «despedido», não «cancelado».
Colbert respondeu em direto: «Como se atreve, senhor? Um homem sem talento seria capaz de compor a seguinte tirada satírica?...» (virando‑se para outra câmara, com uma etiqueta onde se lia «eloquence cam») «Vai‑te foder.»
A justificar o cancelamento do programa, Letterman disse ao The New York Times (fonte em inglês): «Foi deitado borda fora porque as pessoas que estão a vender a cadeia à Skydance disseram: “Oh, não vai haver problema com esse tipo. Tratamos nós do programa. Enfiamos isso no pacote. Quando é que a tinta do cheque seca?” (...) Fico apenas registado o seguinte: eles estão a mentir.»
Concluiu, referindo‑se à justificação dada pela CBS para cancelar o programa: «Deixem‑me acrescentar apenas mais uma coisa... São doninhas mentirosas.»
The Late Show chega ao fim – o que vai ocupar o horário
A CBS anunciou no mês passado que o horário do The Late Show será preenchido pelo programa Comics Unleashed with Byron Allen.
Boa sorte com isso.
Trata‑se de um formato de mesa‑redonda, com Allen e quatro comediantes que «partilham histórias, contam piadas e levam as maiores gargalhadas à televisão», atualmente emitido na CBS imediatamente a seguir ao The Late Show.
Colbert, cavalheiro como sempre, reagiu à notícia do sucessor em declarações ao The Hollywood Reporter: «Que Deus o abençoe.»
Próximos passos de Stephen Colbert
No início deste ano, Colbert – grande fã de J.R.R. Tolkien – anunciou que vai escrever um novo filme do universo O Senhor dos Anéis com o filho, o argumentista Peter McGee, e com Philippa Boyens.
Como noticiou a Deadline (fonte em inglês) em março, Colbert irá coassinar o argumento do, provisoriamente intitulado, The Lord of the Rings: Shadow of the Past, realizado por Peter Jackson.
O próximo filme da série é Lord of the Rings: The Hunt for Gollum, realizado por Andy Serkis. A estreia está marcada para 17 de dezembro de 2027.
Para lá da escrita de guiões, muitos esperam que Colbert se candidate a um cargo político.
Numa entrevista recente, frente a frente com Barack Obama, Colbert contou que «muita gente» lhe diz que devia concorrer à presidência.
«Bem, pelo menos tem o aspeto», respondeu Obama. «Tem o cabelo.»
«Para que conste, acho que é uma ideia estúpida», continuou Colbert. «Quão disparatado lhe parece que haja quem diga que devo concorrer à presidência?»
«A fasquia mudou», disse Obama. Prosseguiu, sem mencionar o nome de Trump: «Ponhamos as coisas assim: acho que conseguiria um desempenho significativamente melhor do que algumas pessoas que temos visto. Tenho muita confiança nisso.»
Presidente Colbert? Nunca vergou perante Trump, portanto não lhe falta coluna vertebral. E, de facto, o cabelo ajuda. Coisas mais estranhas já aconteceram.
O The Late Show termina na quinta‑feira, 21 de maio, às 23h35 na costa leste dos EUA – 5h35 CET. Despedida e obrigado, Stephen. Boa sorte para o Seth, o John e os dois Jimmys.