Um olhar moderno fascinante sobre três visionários catalães, «Gaudí–Miró–Gomis: Deconstructed» combina obras históricas com inovação digital para explorar a linguagem criativa que partilham
Se pedirmos à maioria das pessoas que indiquem as maiores figuras culturais da Catalunha, Antoni Gaudí e Joan Miró serão provavelmente dos primeiros nomes a surgir. Muito menos recordarão Joaquim Gomis. Sem a sua câmara, porém, a forma como o mundo compreende a arquitetura de Gaudí poderia ser completamente diferente.
Numa altura em que a obra do arquiteto radical ainda era desprezada por parte da própria elite artística de Barcelona como excentricidade e não como visão, Gomis percebeu a sua importância.
Fotógrafo, modernista e amigo próximo de Miró, documentou as formas, texturas e pormenores extraordinários de Gaudí. Ao fazê-lo, não se limitou a conservar os edifícios do arquiteto: ajudou a moldar a forma como as gerações seguintes iriam ver, interpretar e apreciar a visão de Gaudí.
Essa ligação pouco reconhecida entre arquiteto, artista e fotógrafo está no centro de Gaudí–Miró–Gomis: Deconstructed, uma versão reimaginada de uma exposição anterior da Fundació Joan Miró que explora os vínculos entre a arquitetura de Gaudí, a arte de Miró e a fotografia de Joaquim Gomis.
Instalada, com toda a pertinência, no recém-restaurado terceiro piso da Casa Batlló de Gaudí_,_ a nova edição amplia o diálogo entre estas três figuras criativas com instalações digitais imersivas, inteligência artificial e tecnologia 3D desenvolvidas com a Fundació Joan Miró e o estúdio criativo Tomorrow Bureau.
Recorrendo a inteligência artificial, fotogrametria de alta resolução e varrimento 3D, as novas obras revelam detalhes invisíveis a olho nu. Marcas de ferramentas e desgaste nas esculturas de Miró, digitalizadas desta forma pela primeira vez, ocupam uma das secções, enquanto a outra apresenta uma releitura do arquivo de Gomis através de uma reinterpretação gerativa.
A Euronews Culture falou com a cocuradora da exposição e diretora artística da Casa Batlló Contemporary, Joana Seguro, sobre a redescoberta do legado ignorado de Gomis, a forma como a tecnologia está a mudar a experiência da arte e porque é que as ideias radicais de Gaudí e Miró continuam a inspirar artistas hoje.
Euronews Culture: Como nasceu esta exposição? Quando surgiu a ideia de reunir Gaudí, Miró e Gomis?
Joana Seguro: Tudo começou com uma conversa. Estávamos a preparar o primeiro ano de exposições aqui no segundo piso da Casa Batlló, por isso fomos à Fundació Joan Miró e falámos com a equipa. Estávamos simplesmente a tentar perceber o que poderíamos fazer em conjunto, qual é o impacto da Casa Batlló na obra de Miró?
E disseram-nos: «Já fizemos uma exposição exatamente sobre isto.» A exposição original chamava-se Miró, Gomis, Gaudí e centrava-se sobretudo nas fotografias de Gomis que documentam o trabalho de Miró, em diálogo com a arquitetura de Gaudí. Fiquei entusiasmadíssima porque se percebia muito claramente uma ligação direta entre a obra de Gaudí, este edifício em particular, e a obra de Miró.
Penso que, à medida que Miró se foi afastando da pintura e começou a olhar para elementos mais tridimensionais, foi precisamente para a obra de Gaudí que se voltou, observando as suas formas inspiradas na natureza para criar esculturas e bronzes. Realizou também uma série de gravuras intitulada Gaudí.
Mas o que mais me entusiasmou foi perceber que sabia muito pouco sobre Joaquim Gomis. Comecei a ver as fotografias e a compreender a importância do trabalho que desenvolveu ao documentar a Casa Batlló e, mais amplamente, a obra de Gaudí em Barcelona.
Elemento central desta exposição é o diálogo entre as obras originais e as novas instalações digitais: como foram criadas estas peças digitais e o que acrescentam à forma como os visitantes experienciam estas obras?
Talvez a abordagem mais radical desta mostra, em comparação com a exposição original, seja termos encomendado ao Tomorrow Bureau não só as peças digitais, mas também a conceção do espaço e as paisagens sonoras presentes em toda a exposição, para criar um ambiente onde possamos apreciar e explorar esta ligação de outra forma.
Temos as gravuras de Miró, temos os bronzes, mas estão em diálogo com digitalizações de alta resolução feitas a partir das peças originais de Miró e depois desconstruídas, olhando para estes objetos quase como um arqueólogo, recorrendo às técnicas mais avançadas de que dispomos hoje para conseguirmos vê-los de uma forma diferente.
O mesmo acontece com as fotografias. Partimos dessas imagens e desse arquivo, criado sobretudo nos anos 40, para gerar uma base de dados viva através de inteligência artificial, dando origem a outra peça digital que leva esse conhecimento um passo mais longe com as técnicas de que dispomos em 2026.
O Tomorrow Bureau está a desconstruir, a criar artefactos digitais e a trabalhar sem as limitações que a conservação, e bem, impõe a estes objetos ou que, por exemplo, a gravidade determina, porque são peças bastante pesadas.
Com o artefacto digital, existe uma grande liberdade: é possível rodá-lo, aproximar-se dos detalhes. O digital e o físico funcionam em equilíbrio. Penso, e espero, que é isso que conseguimos com esta exposição.
Criámos ainda um carrossel da obra de Gomis, que reúne todo o arquivo que conseguimos digitalizar e que nem sequer era totalmente acessível na exposição original, porque o digital oferece-nos muito mais possibilidades e flexibilidade.
Gaudí e Miró desafiam limites: se estivessem vivos hoje, abraçariam tecnologias como a inteligência artificial e a arte digital como parte do seu processo criativo?
Não sei, mas penso que o mais interessante é ver como artistas contemporâneos vivos abraçam a visão de Gaudí.
Gaudí continua relevante, e penso que Miró também. A curiosidade, a vontade de experimentar, essa mentalidade radical e visionária continuam a ser uma enorme inspiração para artistas contemporâneos, e as técnicas que Gomis e Miró utilizaram mantêm-se atuais. A visão deles enquanto artistas, e a visão de Gaudí, é hoje ainda mais pertinente do que era na altura.
Alguém chamou a Gomis o criador do Photoshop. Muitas das técnicas que utiliza como fotógrafo aproximam-se de colagens, são calibragens digitais antes de o digital existir. Estamos a falar de pessoas que, no trabalho que desenvolviam, eram experimentais e radicais. É esse espírito que precisa de continuar.
Gosto de acreditar que abraçariam novas oportunidades e tecnologias, sem esquecer os objetos, o saber-fazer, a artesania e aquilo que estas ferramentas permitem: a possibilidade de replicar obras, como eu fiz, em grande escala e em diferentes contextos.
Para visitantes pouco familiarizados com a arte moderna, a obra de Miró pode parecer muito simples ou até infantil à primeira vista: até que ponto essa aparente simplicidade resulta, na realidade, de reflexão e experimentação cuidadosas?
Creio que há uma beleza na simplicidade e um entusiasmo infantil comum a estes três artistas. Há a excitação de criar, de explorar.
Basta olhar para este edifício: há elementos belíssimos e lúdicos, desde puxadores de portas em forma de cogumelo a outros detalhes. Miró, Gaudí e Gomis eram obcecados com a natureza. Procuravam soluções aparentemente simples, mas tão elegantes e extraordinárias que aquilo que pode parecer infantil é, na realidade, algo muito sofisticado, eficiente e divertido.
E nunca devemos esquecer essa dimensão.
Quando os visitantes saem da exposição, o que espera que levem consigo? Que ligação ou mensagem gostaria que ficasse com eles após contactarem com a obra destes três artistas?
Gostaria que as pessoas descobrissem a obra de Gomis e percebessem o quão decisiva foi para o reconhecimento internacional de Gaudí.
E que entendam também o fio condutor que une todos estes artistas: uma curiosidade pela vida e pela natureza, um amor pelo mundo natural e um amor particular pela Catalunha.
A exposição tem ainda diferentes camadas, diferentes elementos. Quem quiser aprofundar as biografias tem uma secção própria; quem quiser mergulhar mais fundo na obra de Gomis também pode fazê-lo.
Pode simplesmente vivê-la e sentir a ligação entre os três.
Gaudí–Miró–Gomis: Deconstructed está patente na Casa Batlló, em Barcelona, até janeiro de 2027.