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"Violência sexual não pode ser conversa de café". Cristina Ferreira e a responsabilidade nos média

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De João Azevedo
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Palavras da apresentadora sobre caso de violação geraram onda de repúdio na sociedade portuguesa, com Cristina a ser acusada de banalizar crimes sexuais. Especialista ouvida pela Euronews pede formação específica para quem trata estes temas no espaço público. TVI arrisca sanção da ERC.

"Mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve – claro que têm de ouvir –, alguém entende aquele: 'não quero mais?'". Estas palavras de Cristina Ferreira, proferidas em direto na rubrica "Crónica Criminal" do programa "Dois às 10" da TVI, do passado dia 14 de abril, puseram as redes sociais em ebulição e atiraram a apresentadora para o centro de um furacão mediático que dura há mais de uma semana.

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A polémica extravasou o ciberespaço e gerou um levantamento social que resultou numa Carta Aberta de condenação, assinada por mais de 140 personalidades, incluindo colegas de profissão, e em mais de quatro mil queixas à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

O caso discutido no programa aconteceu em fevereiro do ano passado no concelho de Loures, quando uma rapariga, à data, de 16 anos terá sido violada por um rapaz, então, de 17, com quem tinha marcado um encontro pela Internet, e por mais três jovens, à época com idades entre os 19 e os 20 anos, que o acompanharam.

Os atos sexuais, inicialmente consentidos e que foram gravados, acabando mais tarde por ser publicados nas redes sociais, começaram num jardim público de Santo António dos Cavaleiros e prosseguiram numa garagem próxima, onde a adolescente pediu, infrutiferamente, que fossem parados. É o que indica o Ministério Público, que ao todo acusa os quatro influenciadores digitais de mais de 30 crimes, entre os quais violação, pornografia de menores e ofensa à integridade física.

Os arguidos ficaram em liberdade, obrigados a apresentações semanais perante as autoridades, e apenas um deles aceitou falar no julgamento que decorre à porta fechada no Tribunal de Loures.

A TVI saiu em defesa da sua diretora de entretenimento e ficção, falando em "manipulação grosseira" e anunciando que recorrerá aos tribunais para "repor a justiça". Cristina Ferreira não se tinha até agora pronunciado em detalhe sobre a torrente de críticas que recebeu.

À exceção do comunicado divulgado na rede social Instagram dois dias depois de a controvérsia ter estalado, em que rejeitou "qualquer forma de crime ou abuso" e se queixou de ser alvo de "puro ódio pessoal", foi mantendo o silêncio, até à entrevista da última terça-feira no Jornal Nacional.

Em horário nobre, no canal para o qual trabalha, a comunicadora não fez um pedido de desculpa formal, expressando apenas um "lamento" pelas proporções que a situação tomou. Confrontada com o teor das declarações feitas no programa da manhã, Cristina Ferreira vincou que não se tratou de qualquer comentário, antes de "uma pergunta dirigida a uma comentadora", embora tenha reconhecido que poderia ter escolhido uma outra formulação.

“Se tivesse escrito aquela pergunta teria usado as palavras certas”, afirmou, frisando que "não é não, ponto" e acrescentando que apenas quis perceber o que se passou "na cabeça de quatro jovens que não respeitaram aquela rapariga". Mais à frente, rebateu as acusações de machismo.

"Por que é que sou machista em querer perceber o comportamento de um violador?", questionou. A apresentadora assumiu-se mesmo como defensora dos direitos das mulheres e reiterou que é preciso "combater a onda de julgamento e de ódio".

O debate está instalado na sociedade portuguesa: como tratar a temática da violência sexual no espaço público e que padrões éticos devem as celebridades adotar no uso do seu poder de influência?

Crimes discutidos em "tom quase de tertúlia"

Maria João Faustino, doutorada em psicologia, e que estuda, em particular, as questões ligadas à violência nas relações sexuais, foi a primeira subscritora da Carta Aberta, na qual é expresso o mais "absoluto repúdio pelo teor e pelo tom do debate" e se reivindica "uma reflexão mais lata sobre a responsabilidade dos média".

"Achávamos que fazia sentido ter um exercício de cidadania que fizesse a indignação, de alguma forma, traduzir-se em reivindicações concretas. Porque há sempre o risco de haver uma indignação fragmentada e um bocadinho inconsequente", afirma à Euronews esta investigadora, que pede "muito maior rigor e cuidado" no tratamento dos crimes sexuais pela comunicação social, a qual desempenha um "papel determinante" na prevenção e informação.

"Os discursos amplificados pelos média têm um impacto tremendo na perceção das pessoas sobre a violência sexual. E muitas vezes são palco de profusão de mitos e de desinformação. Isto é muito preocupante", alerta Maria João Faustino, contestando a versão de Cristina Ferreira de que está em causa uma mera pergunta e não uma opinião sobre o assunto.

"Aquela pergunta, obviamente, não é uma pergunta neutra. Aquela pergunta é enviesada e é problemática. Só a formulação daquela interrogação já admite a possibilidade [de violação]. A linguagem usada, 'fazer sexo com', já é um eufemismo. O retrato ali quase que nos transportaria para uma orgia. Não foi uma orgia. Aquilo foi uma violação em grupo", nota.

Segundo esta especialista, as intervenções da psicóloga que é comentadora no "Dois às 10", bem como dos restantes intervenientes do painel, mantiveram a "ligeireza" com que o assunto foi analisado, através do recurso a expressões como "pontas soltas".

Há, por isso, uma "dupla exigência", que passa por "formação especializada", não só para os apresentadores, mas também para quem faz comentário, incluindo os psicólogos.

"A resposta da psicóloga foi de uma falta de preparação absoluta. Porque, obviamente, que, no contexto de interação sexual, as pessoas são perfeitamente capazes de ler os sinais de recusa. E essa recusa não tem de ser verbal", refere. Maria João Faustino regista com agrado a "mobilização popular" na sequência deste caso, mas está ainda preocupada com "os termos do debate".

"Muitas pessoas não estão em condições de dizer não, porque têm um medo que paralisa. É a chamada imobilidade tónica", explica, considerando redutora a mensagem de sensibilização publicada nas redes sociais pela Polícia de Segurança Pública (PSP), baseada no lema "Não é Não".

"A vontade é muito explícita. Se a outra pessoa está parada, hesitante, com sinais de medo, tudo isso é um não", esclarece.

Além da falta de conhecimento técnico, os protagonistas do espaço público, muitas vezes, não associam responsabilidade à visibilidade, adverte a investigadora.

"A violência sexual não pode ser tema de conversa corriqueira, de conversa de café, em tom quase de tertúlia. É demasiado impactante na vida das pessoas", sublinha.

Em 2025, tal como atestado no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), o crime de violação em Portugal alcançou o valor mais elevado da última década, com um quinto dos arguidos a ter idades entre os 16 e 20 anos. "O problema é estrutural", reforça Maria João Faustino.

Entrevista na TVI foi "espetacularização da violência"

A presença de Cristina Ferreira no Jornal Nacional para falar sobre esta controvérsia levou o principal noticiário da TVI para a liderança da tabela geral de audiências do dia, com 9.3% de rating e 19.1% de share.

Este espaço informativo da estação de Queluz de Baixo fidelizou uma média de 922.900 espectadores, sendo que o pico se verificou justamente no decurso da entrevista à diretora de entretenimento e ficção do canal, altura em que estavam sintonizados 1,3 milhões de pessoas.

Maria João Faustino preferia ter visto a apresentadora prestar esclarecimentos com maior recato, na forma de mais um comunicado. Foi uma "espetacularização da violência", atira.

A especialista lembra que até os pais da adolescente se sentiram inclinados a pronunciar-se sobre o caso e advoga que, neste contexto, Cristina Ferreira devia ter pedido desculpa à jovem.

"É um discurso profundamente irresponsável, considerando os impactos. É um gatilho potencial para muitas vítimas que viram aquele discurso. Não só para aquela vítima em específico, mas para muitas vítimas que se sentem potencialmente magoadas e feridas ao ouvir isto", assevera, apontando também o dedo à TVI, que "aproveitou o momento para monetizar" a tragédia e "ganhar audiências".

Cristina Ferreira no programa "Dois às 10"
Cristina Ferreira no programa "Dois às 10" Página oficial de Cristina Ferreira no Instagram

Uma "estação comprometida com a dignidade e o bem-estar" das vítimas teria de reagir de uma outra maneira, acrescenta.

"A resposta institucional, se fosse responsável, seria dizer que vão refletir e pedir desculpa às pessoas que se tenham sentido magoadas e indignadas".

Maria João Faustino aguarda agora uma atuação firme por parte do regulador, até porque "não é um episódio isolado".

"Se a ERC ficasse em silêncio, seria um péssimo sinal e um silêncio conivente. Eu acredito honestamente que a ERC vai tomar posição", diz.

TVI arrisca condenação

A ERC confirmou à Euronews que, até quarta-feira, recebeu cerca de 4.400 participações a propósito das declarações de Cristina Ferreira no programa "Dois às 10".

As queixas estão a ser apreciadas na sequência do procedimento de averiguações aberto pelo Conselho Regulador do organismo.

"É um caso que pode dar azo a uma recomendação dirigida à TVI com o efeito de divulgação obrigatória por parte do canal", avança à Euronews Alberto Arons de Carvalho, professor universitário, doutorado em Ciências da Comunicação.

"Os estatutos da ERC preveem, numa das suas normas, que as deliberações do regulador que condenam um órgão de comunicação social podem ser, por este, obrigatoriamente divulgadas. A fundamentação pode ter 15, 20 páginas. Alguém [no canal] teria de ler integralmente a parte final, deliberativa", clarifica.

O também ex-vice-presidente do Conselho Regulador da ERC entende que foram ultrapassados os limites à liberdade de programação por parte da TVI e da própria apresentadora, "com a agravante de que tudo se passou num horário acessível a crianças e adolescentes".

Arons de Carvalho não tem dúvidas de que se tratou de uma intervenção "eticamente condenável", por configurar "uma postura machista e um convite à banalização da violência".

Ao longo dos anos, tem-se registado uma diminuição do número de deliberações que o regulador obriga os órgãos de comunicação social a divulgar nas respetivas páginas e emissões. As ocorrências que justificam uma sanção destas são excecionais e têm sido uma minoria, mas o caso a envolver Cristina Ferreira e a TVI pode bem preencher os critérios para tal.

O académico, que foi secretário de Estado da Comunicação Social, menciona a "indiscutível gravidade" das palavras e o "clamor popular" desencadeado como fatores que dão força a uma condenação.

Os visados ainda terão de ser ouvidos no âmbito do processo conduzido pela ERC, pelo que qualquer decisão nunca surgirá em menos de dois ou três meses, estima Arons de Carvalho.

A Euronews contactou a TVI para obter uma reação, quer do canal, quer de Cristina Ferreira, mas nenhuma das partes quis fazer mais comentários.

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