Os vencedores do Festival da Canção estão em Viena para representar Portugal em mais uma edição da Eurovisão. "Rosa", a "moda canção" deste grupo português leva o Cante Alentejano até ao coração da Europa, numa das edições mais polémicas de sempre do festival.
Em Viena decorrem os ensaios e a azáfama normal dos últimos preparativos para mais uma edição do Festival Eurovisão da Canção. É lá que estão também os Bandidos do Cante, os representantes portugueses deste ano. Antes de rumarem até à Áustria, o grupo falou com a Euronews, mostrando-se confiante na certeza de quer apenas representar o país, o Alentejo e o Cante no "maior palco do mundo".
"Vai ser bonito e nós gostamos muito dos desafios. Vai ser um desafio lindo, é o maior palco do mundo e poder lá estar, representar um país, uma cultura, uma arte, uma região como é o nosso Alentejo, é fantástico. Vai ser um momento único das nossas vidas", dizem à Euronews.
O grupo, composto por Miguel Costa, Duarte Farias, Francisco Raposo, Luís Aleixo e Francisco Pestana, foi o grande vencedor da edição deste ano do Festival da Canção. "Rosa" foi a canção escolhida para representar o país. Uma "moda canção" como explicam, desenvolvida inicialmente para o álbum do grupo mas que depois aprimorada para o Festival da Canção, após o convite da RTP.
"Rosa" recupera a alma e na sonoridade do cante alentejano e transportam-no para um formato mais apetecível para o grande público, sendo que agora vai ser tocada para o maior público de todos.
"Sabemos que levamos uma canção que é um pouco diferente daquilo que é o habitual na Eurovisão, mas que isso também pode ser uma marca de diferença e pode-nos distinguir dos outros concorrentes", explicam.
Para já, entre os fãs já estabelecidos e a nova comunidade que chega após a exposição Festival, nomeadamente a dos chamados eurofãs, garantem que o feedback que têm recebido é positivo: "As pessoas têm-nos tratado sempre muito bem, sempre com muito carinho, quer os portugueses, quer pessoas lá fora que reagem à nossa canção".
"Queremos elevar aquilo que é a nossa cultura": grupo justifica participação no Festival, apesar da polémica
A participação do grupo português não é, no entanto, livre de polémicas, como não foi o próprio Festival da Canção e a Eurovisão. Em causa a participação de Israel, o boicote ao concurso de alguns países e dos próprios artistas.
Em Portugal, os Bandidos do Cante foram dos poucos artistas que aceitaram representar Portugal em Viena em caso de vitória no concurso interno.
"Nós tomámos esta decisão essencialmente porque queremos elevar aquilo que é a nossa cultura e o património imaterial da humanidade, que é o Cante Alentejano, ao mais alto nível", justificam. "O Cante e a nossa cultura merecem ser tocados num palco daquelas dimensões e serem mostrados a todo o mundo".
As críticas internas aumentaram ainda mais de tom, após o discurso do conhecido autor e cantor de música popular portuguesa, Toy, durante uma gala de entrega de prémios de música, no qual questionou as justificações dos artistas para representarem o país na Eurovisão.
"Em relação ao boicote [que vários artistas tentaram fazer à Eurovisão], percebo que a rapaziada precisa de se mostrar, e estão no início de carreira e fazem muito bem, só que nunca digam que a cultura e a política não se misturam”, afirmou o artista, num discurso que teve várias repercussões a nível nacional e mereceu um esclarecimento posterior do próprio cantor, realizado num espaço informativo da estação de televisão TVI.
"Não os critico e nunca os criticarei, porque acho que, na idade deles, provavelmente, também quereria ir, aparecer e ser famoso. Porque é isso que fazemos durante a nossa vida. Queremos ser cantores, queremos aparecer, queremos ser conhecidos", explicou. "Há uma frase em que eles dizem 'Nós vamos porque a cultura e a política não têm nada a ver uma coisa com a outra'. Eu só critiquei essa frase", reforçou.
O grupo aceita as críticas, até porque "as pessoas têm a sua opinião", mas defendem a posição tomada.
"Nós fazemos isto desde crianças, é uma coisa que está dentro de nós e que nós queremos transmitir e queremos que daqui a 50 anos o Cante seja ainda maior do que o que ele é neste momento", explicam. "E essa foi a principal razão. Todas as pessoas têm a sua opinião, nós respeitamos a opinião de cada um e está tudo bem com isso. Vamos, essencialmente, pegar no que é a nossa música, a nossa mensagem e passar um ambiente de harmonia, união e paz, que é o que o mundo precisa".
Mais de mil artistas assinaram uma carta aberta de boicote à Eurovisão, entre eles artistas como Massive Attack, IDLES, Kneecap. Entre os signatários da iniciativa, integrada no movimento No Music for Genocide, criado em setembro de 2025 para bloquear as suas músicas em plataformas de streaming, em Israel, encontram-se 330 artistas portugueses e até antigos participantes no concurso como Cláudia Pascoal, Iolanda, Carlos Mendes e Ella Nor.
"Rosa" chega à Eurovisão de cara lavada
Para Viena, a atuação portuguesa promete surpresas em relação ao que foi apresentado em Portugal: novo palco, cenário e figurinos. As primeiras imagens dos ensaios na capital austríaca já podem até ser consultadas nas redes sociais.
Prognósticos, só no fim do jogo ainda que as afamadas casas de apostas eurovisivas não augurem um resultado positivo para Portugal, nem sequer a qualificação para a final. Algo que não parece preocupar o grupo porquê.
"Nada! Se tivéssemos apostado era preocupante, mas não nos preocupa", explicam entre risos.
"Um bom resultado para nós seria passar à final. Posteriormente, se passarmos, ver onde é que conseguimos chegar. Mas a nossa vitória já a conquistámos, que foi vencer Festival da Canção em Portugal. Isso para nós foi a maior vitória. Agora é ir lá para fora e dar o nosso melhor e representar bem aquilo que é a nossa região e que é o nosso país."
Portugal atua na primeira parte da 1.ª semifinal do Festival Eurovisão da Canção, que se realiza a 12 de maio, de onde irão sair os primeiros apurados para a grande final do concurso, que acontece a 16 de maio.
"Estamos contentes porque vamos ter uma experiência que vai ser inesquecível para nós e é uma experiência que servirá para contarmos mais tarde aos nossos netos e aos nossos filhos, podermos dizer que atuámos num palco daquela dimensão", explicam. "Não estamos nervosos, estamos contentes e estamos ansiosos para poder representar a nossa cultura e o nosso país", garantem.