Em junho, Donald Trump anunciara que “Hallelujah” seria interpretado na abertura da Grande Feira Estatal Americana, alimentando o conflito de longa data entre o presidente dos EUA e os herdeiros de Leonard Cohen
Criada para assinalar o 250.º aniversário dos Estados Unidos, a Great American State Fair teve uma estreia polémica em Washington, D.C., na noite de quarta-feira, depois de o espólio do falecido cantor Leonard Cohen se ter oposto à utilização da sua canção ‘Hallelujah’ no comício de abertura do evento.
Os planos iniciais para o concerto Freedom 250 no National Mall já tinham sido abandonados depois de vários artistas terem abandonado o cartaz, devido às ligações da feira ao movimento MAGA.
Donald Trump acabou por cancelar o concerto, mas até o comício que o substituiu foi alvo de críticas pelas atuações musicais.
“O espólio de Leonard Cohen foi informado de que a canção ‘Hallelujah’ será interpretada num comício de Donald Trump a 24 de junho”, lia-se num comunicado nas redes sociais do cantor. “Esta utilização não está autorizada e o Espólio não apoia nem aprova esta nem qualquer outra utilização semelhante.”
A mensagem terminava com a frase “Thank you for your attention to this matter”, uma alusão à fórmula de encerramento que Donald Trump costuma usar na rede Truth Social.
O presidente dos EUA tinha anunciado, três semanas antes, que ‘Hallelujah’ seria cantada no comício, juntamente com as árias clássicas ‘Nessun Dorma’ e ‘Ave Maria’ e o hino patriótico ‘God Bless America’
Apesar do aviso do espólio de Cohen, o tenor Christopher Macchio avançou com a atuação, acompanhado pelo sargento-mor de artilharia Kevin Bennear, da Banda de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos.
A interpretação da canção, lançada em 1984, pelos dois músicos destacou-se entre a miríade de versões já existentes pela abordagem particularmente enfática.
No início de junho, Trump elogiou Macchio na Truth Social: “Desde o lendário Luciano Pavarotti que não se ouvia uma voz assim!”.
Nem todos partilham dessa opinião, até porque Macchio é reincidente: já tinha interpretado o clássico de Cohen na Convenção Nacional Republicana de 2020.
O próprio Donald Trump continuou a usar a canção em numerosos comícios, apesar da forte oposição do espólio do artista, que se juntou a uma longa lista de músicos que exigem que o presidente republicano se mantenha afastado das suas obras.
Em outubro de 2024, o espólio de Leonard Cohen chegou mesmo a pedir à Sony Music que enviasse uma carta a ordenar que a campanha de Trump cessasse essa utilização.
Para além desta polémica, a noite de abertura da Great American State Fair ficou ainda marcada pela atuação da pouco conhecida cantora de country Alexis Wilkins, que na quarta-feira interpretou o hino nacional dos EUA. Wilkins é namorada do diretor do FBI, Kash Patel.
A artista, de 27 anos – que conta com 5 620 ouvintes mensais no Spotify – foi integrada na programação do comício à última hora, o que suscitou acusações de favoritismo.
“Sou artista de música country há vários anos. Tive uma carreira bem-sucedida tanto na música como na área de comentário/estratégia”, reagiu Wilkins na rede X. “Fui convidada para cantar este hino pelo meu próprio mérito, tal como já aconteceu noutros locais ao longo da minha carreira.”
Depois deste arranque atribulado, a Great American State Fair deverá prolongar-se por 16 dias. Vários estados norte-americanos recusaram participar no evento devido a preocupações com o seu carácter partidário.
Desde um combate de artes marciais mistas da UFC nos jardins da Casa Branca até às algas na piscina refletora do Lincoln Memorial, as comemorações do 250.º aniversário dos EUA promovidas por Trump têm sido acompanhadas por críticas e polémicas.