Milhares de visitantes vão à Costa del Sol não só pelo sol e pela praia, mas por um conceito que junta concertos, gastronomia, natureza e noite, num formato único exportável
Há décadas que Marbella é um dos grandes destinos turísticos do Mediterrâneo, graças às praias, ao clima e à oferta hoteleira. Mas, há cerca de quinze anos, um novo motivo começou a atrair visitantes de todo o mundo: a música.
Não se trata apenas de assistir a um concerto. Quem viaja todos os verões para o Starlite Occident Marbella procura uma experiência completa, que começa muito antes de se apagarem as luzes do palco e se prolonga até bem entrada a madrugada.
É uma nova forma de encarar o turismo, em que a viagem se organiza em torno de uma vivência e não apenas de um destino. Todos os verões, o festival realiza-se na Cantera de Nagüeles, um impressionante anfiteatro natural escavado na rocha, a poucos minutos do centro de Marbella.
O Starlite tornou-se num dos eventos de entretenimento mais singulares da Europa. Ao contrário dos grandes festivais de música, que concentram dezenas de artistas num fim de semana, aqui cada noite é dedicada a um único concerto.
Esta programação, que se prolonga durante quase três meses, permite que milhares de visitantes organizem as férias em função do artista que querem ver. “Somos muito mais do que um festival”, explica à Euronews a fundadora e CEO, Sandra García-Sanjuán. “A música é o fio condutor, mas a experiência começa muito antes do concerto”.
Destino com banda sonora. A transformação do turismo nos últimos anos levou muitos viajantes a dar prioridade às experiências em detrimento dos destinos tradicionais. O Starlite encaixa perfeitamente nessa tendência.
O recinto abre por volta das oito da noite e mantém-se ativo cerca de dez horas. Antes de cada atuação, o público pode jantar num dos seus cinco restaurantes, percorrer diferentes espaços gastronómicos, participar em atividades culturais ou simplesmente desfrutar do ambiente ao ar livre, rodeado pelas paredes de rocha da pedreira.
Quando o concerto termina, a experiência continua. O recinto transforma-se num clube noturno com sessões de DJ e atuações até ao amanhecer.
“Os nossos visitantes passam, em média, entre quatro horas e meia e cinco horas dentro do recinto. Vêm jantar, conviver com amigos, viver o concerto e depois prolongam a noite. Isso faz parte da experiência Starlite”, explica García-Sanjuán.
A proximidade, o novo luxo. Com capacidade para apenas 3 500 pessoas, o auditório oferece uma experiência completamente diferente da de um estádio ou de um macrofestival.
Enquanto outros eventos disputam quem reúne o maior número possível de espetadores, o Starlite construiu a sua identidade precisamente em torno do conceito oposto.
“Não queremos competir para ser os maiores. Queremos oferecer proximidade”, sublinha a fundadora. Essa dimensão reduzida permite uma relação muito mais direta entre artistas e público.
Todos os espectadores têm lugar sentado, podem levantar-se para dançar ou sair alguns minutos sem perder o lugar e beneficiam de uma proximidade pouco habitual em concertos de grandes estrelas internacionais. Para García-Sanjuán, essa ligação humana é precisamente um dos grandes trunfos do turismo do futuro.
“Vivemos rodeados de ecrãs e de inteligência artificial. Vai ser cada vez mais importante partilhar experiências reais, olhar o artista nos olhos, sentir a energia e viver algo que nenhuma tecnologia pode substituir”, afirma. Um motor turístico para Marbella. O impacto do Starlite vai muito além do recinto do festival.
Segundo um estudo elaborado pela PwC, cada edição gera cerca de 315 milhões de euros de impacto económico para a Costa del Sol.
A duração do evento explica grande parte desse valor. Durante quase três meses, milhares de visitantes chegam de 93 países, ficam em hotéis, consomem em restaurantes, vão à praia, jogam golfe, fazem compras e prolongam a estadia vários dias para assistir a um ou vários concertos.
“Quando um destino vende apenas sol e praia, o visitante pensa sempre que poderá voltar noutro verão. Mas, quando oferece também a oportunidade de ver um artista internacional num lugar único, a viagem ganha um caráter irrepetível”, sublinha a CEO do Starlite.
A organização trabalha com hotéis e operadores turísticos que vendem pacotes específicos para quem quer combinar férias e concertos, um modelo que se consolidou como um dos grandes exemplos de turismo experiencial em Espanha. Uma marca global. O sucesso do projeto levou o Starlite muito para lá de Marbella.
A empresa já realizou várias edições em Madrid, concebidas como a versão de inverno do conceito, e estuda novas implantações internacionais. A Arábia Saudita, o México e outros mercados latino-americanos figuram entre os destinos que manifestaram interesse em acolher o modelo.
No entanto, García-Sanjuán insiste em que a expansão será limitada. “Não queremos estar em todo o lado. A Disney também não”.
A comparação não é casual. “Somos o mais parecido com a Disney, mas com música”, resume. Não porque ambicione tornar-se num parque temático, mas porque procura construir um universo reconhecível em torno de uma experiência.
Tal como milhões de pessoas viajam até à Disney para passar alguns dias imersos num mundo próprio, o Starlite quer que cada edição se torne um destino que valha a pena visitar, independentemente do artista que atua nessa noite.
O auge do turismo das emoções. A evolução do Starlite reflete uma tendência que ganha peso na indústria turística mundial: o crescimento do turismo assente em emoções e experiências.
Cada vez mais viajantes organizam as deslocações em torno de um grande evento desportivo, de um festival gastronómico, de uma exposição ou de um concerto. O destino continua a ser importante, mas já não é o único motivo da viagem.
Neste contexto, Marbella encontrou um instrumento poderoso para diversificar a oferta para lá do tradicional turismo de sol e praia.
O Starlite não se limita a atrair visitantes. Gera conteúdos audiovisuais que são distribuídos internacionalmente, projeta a imagem da cidade em dezenas de países e alimenta um turismo aspiracional: pessoas que descobrem o festival através da televisão ou das redes sociais e que acabam por viajar anos mais tarde para viver a experiência.
Mas talvez o verdadeiro espetáculo seja perceber como um antigo espaço industrial, uma pedreira em plena serra, conseguiu reinventar-se até se transformar num dos destinos experienciais mais exclusivos do verão europeu. Porque, no Starlite, o concerto é apenas o início da viagem.