Mark Carney mostra à UE como se afastar de Trump, mas Bruxelas arrisca enfrentar o presidente dos EUA e recusar as suas exigências? Para a Europa, é complicado.
Mark Carney disse basta.
Numa decisão surpreendente, o primeiro-ministro canadiano afastou-se das negociações comerciais com os Estados Unidos, outrora o aliado mais próximo do país. Embora as repercussões económicas permaneçam incertas e possam ser graves, o antigo banqueiro central deixou claro que a soberania não é um preço que o Canadá esteja disposto a pagar.
Carney denunciou as condições propostas por Washington como um “mau acordo”, que violariam o uso do francês no Canadá, protegido pela Constituição, e a capacidade do país de celebrar acordos comerciais com outros Estados.
“Está-se em guerra quando se é atacado e nós fomos atacados”, afirmou Carney, prometendo retaliar “dólar por dólar” contra o vizinho.
As consequências deverão ser dolorosas: tarifas elevadas sobre 20 mil milhões de dólares em bens canadianos e cerca de 87 mil empregos diretos e indiretos em risco, segundo as primeiras estimativas.
E a situação pode piorar rapidamente. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já anunciou uma nova vaga de tarifas contra o Canadá, alimentando o ciclo de retaliações.
Este choque espetacular tem sido comparado com a situação da União Europeia, que também tem sido alvo das exigências sempre crescentes da Casa Branca e das táticas negociais de uma administração Trump obcecada com os défices comerciais e disposta a usar todos os instrumentos para pôr a América em primeiro lugar, mesmo à frente dos aliados.
Há mais de um ano, Bruxelas procura conter a pressão americana para desmantelar regras ambientais, de sustentabilidade e digitais, ao mesmo tempo que tenta manter vivo o desequilibrado acordo comercial UE-EUA fechado no ano passado em Turnberry, na Escócia.
Em julho, Trump prometeu que a UE pagaria um “preço muito elevado” depois de a Comissão Europeia ter aplicado uma multa de 890 milhões de euros à Google por alegadas práticas de auto-preferência e tratamento injusto de programadores de aplicações.
“Prevemos que lhes seja aplicada uma TARIFA substancial no mais curto prazo possível”, afirmou Trump - o direito aduaneiro ainda não foi aplicado.
À medida que Bruxelas e Washington continuam a negociar a redução de tarifas, sobretudo sobre o aço e o alumínio, surge uma nova pergunta: poderá a UE algum dia afastar-se?
Sim: União Europeia pode afastar-se
A principal razão que poderia levar a UE a tomar uma decisão à maneira de Carney é a determinação em proteger o seu direito de regular e fazer cumprir normas no seu território, linha vermelha que Bruxelas considera intransponível.
Os europeus consideram que já fizeram mais do que suficientes concessões para apaziguar Trump, nomeadamente aceitando uma tarifa de 15% sobre bens da UE, e recusam ceder mais. Alterar leis ao sabor de Washington seria equivalente a capitular.
Diplomatas da UE assinalam que o recuo de Trump na sua tentativa falhada de adquirir a Gronelândia e a decisão de lançar unilateralmente uma guerra contra o Irão, agitando os mercados de energia, reforçaram a vontade coletiva de se fazer ouvir e de resistir.
Outro fator que poderia encorajar a UE a afastar-se é a sua dimensão, enquanto segunda maior economia mundial. O PIB do bloco de 27 Estados-membros é de 18,8 biliões de euros, contra 2,32 biliões de dólares (1,99 biliões de euros) do Canadá, o que o torna quase dez vezes maior.
No ano passado, o comércio UE-EUA (bens e serviços) atingiu 1,77 biliões de euros, o dobro dos 872,3 mil milhões de dólares (748 mil milhões de euros) do comércio Canadá-EUA. Tanto o Canadá como a UE registam há muito um excedente em bens e um défice em serviços nas trocas com os Estados Unidos.
O que muda é o grau de dependência. Pela sua localização geográfica, o Canadá depende estruturalmente do mercado americano: cerca de 75% das exportações canadianas de bens têm como destino os Estados Unidos. No caso da UE, cujas ligações comerciais são muito mais diversificadas, a quota desce para 21%.
Em princípio, isso dá à UE maior margem de manobra e uma almofada mais robusta para suportar uma guerra comercial com os Estados Unidos, caso algum dia considere necessário seguir esse caminho.
Durante as negociações que precederam o acordo de Turnberry, a Comissão Europeia preparou uma lista de bens americanos no valor de 93 mil milhões de euros a serem alvo de uma eventual retaliação equivalente. Essa lista, que se mantém válida, seria a primeira linha de defesa.
Responsáveis da UE também colocaram em cima da mesa a hipótese de ativar o Instrumento Anti-Coerção (ACI), que permite contramedidas para além das tarifas tradicionais, como excluir empresas estrangeiras de concursos públicos ou suspender parcialmente a proteção de direitos de propriedade intelectual.
O instrumento ganhou nova importância quando Trump reforçou as ameaças contra a Gronelândia e contra as regras ambientais e digitais do bloco. Ambos os casos foram considerados exemplos claros de coerção com fins políticos.
“Se Washington avançar com novas tarifas devido a impostos ou regulamentação digitais europeus, isso reabrirá, e muito, o acordo de Turnberry e colocará a Europa numa posição semelhante à do Canadá. Os governos europeus podem bem concluir que não há um acordo estável para preservar e que sair da mesa é a jogada tática mais adequada”, afirmou Tobias Gehrke, investigador sénior no Conselho Europeu de Relações Externas, em declarações à Euronews.
Mas a reação seria moldada não só pelos Estados Unidos como também pela China, acrescentou Gehrke. As tensões comerciais entre a UE e a China dispararam antes de um prazo que termina em outubro.
“Está a ganhar força na Europa a ideia de que a China representa o desafio mais sistémico à segurança económica, e poucos querem travar guerras comerciais simultâneas com Washington e Pequim”, disse. “Se a administração Trump pressionar a Europa precisamente quando Bruxelas tenta gerir uma confrontação com a China, Washington poderá concluir que a Europa tem poucas opções de escalada.”
Não: União Europeia não consegue afastar-se
Embora a UE disponha de argumentos e instrumentos sólidos para se afastar, está longe de ser evidente que consiga reunir a coragem de Carney para o fazer.
Desde que Trump anunciou as suas tarifas abrangentes, os 27 Estados-membros apressaram-se a fechar fileiras em torno da Comissão Europeia, que negoceia em seu nome.
Alguns, entre os quais França, Espanha e os países nórdicos, apelaram a que Bruxelas se mantivesse firme e retaliasse contra condições consideradas injustas. Outros, como Alemanha, Itália e Irlanda, defenderam publicamente um compromisso, custe o que custar, para evitar uma confrontação total prejudicial.
A cacofonia e os interesses nacionais concorrentes limitaram a margem da Comissão e acabaram por produzir um acordo que não deixou ninguém satisfeito. A UE continua sem uma estratégia comum para lidar com Trump, fragilidade que a Casa Branca tem procurado explorar.
Embora as ameaças dos Estados Unidos em temas centrais como a Gronelândia tenham aproximado os Estados-membros da UE, e até líderes ideologicamente próximos, como a italiana Giorgia Meloni, tenham entrado em choque com o presidente norte-americano, o facto de o Instrumento Anti-Coerção nunca ter sido ativado mostra quão difícil é para os Estados-membros alcançar consenso e aceitar a dor económica que uma confrontação total com Washington acarretaria.
Em contraste, Carney conseguiu unir o Canadá em seu redor.
Após o colapso das conversações, as províncias canadianas apoiaram rapidamente Carney. O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, cujo setor industrial deverá sair prejudicado do confronto, manifestou “total apoio a uma resposta firme – tarifa por tarifa, dólar por dólar”.
Uma nova sondagem (fonte em inglês)indica que 76% dos canadianos consideram que Carney tomou a decisão certa.
Para o primeiro-ministro canadiano, confrontar Trump faz sentido politicamente, porque capitaliza a antipatia generalizada que muitos canadianos sentem em relação ao presidente norte-americano, que repetidamente sugeriu transformar o Canadá no 51.º Estado dos EUA.
Há outro fator decisivo que pode levar a UE a pensar duas vezes: a Ucrânia.
Bruxelas reconheceu que o acordo comercial UE-EUA foi em parte motivado pelo desejo de manter Trump envolvido nos esforços para pôr fim à guerra da Rússia. A posição do presidente norte-americano sobre o conflito mudou de forma drástica, alimentando a ansiedade entre os europeus, conscientes de que não podem substituir os serviços de informação dos EUA nem os sistemas de defesa aérea fabricados na América.
“Não se trata apenas de comércio. Trata-se de segurança. Trata-se da Ucrânia. Trata-se da volatilidade geopolítica atual”, afirmou no ano passado o comissário europeu para o Comércio, Maroš Šefčovič. “Acredito que, a partir de agora, só podemos melhorar.”
Embora o Canadá seja um defensor firme da Ucrânia, o seu papel no conflito é limitado.
Uma saída europeia, pelo contrário, poderia dar a Trump um pretexto conveniente para retaliar desligando-se totalmente da Ucrânia. (Alguns responsáveis e diplomatas em Bruxelas consideram que, na prática, Trump já o fez.)
“O acordo de Turnberry não é um grande acordo. Não é um acordo equilibrado. Mas não implicou qualquer cedência em matéria de soberania da União Europeia. Não há nenhum elemento que comprometa a capacidade da União Europeia para regular no domínio digital, do clima, e noutros”, afirmou Ignacio García Bercero, investigador sénior no centro de estudos Bruegel, à Euronews.
A retaliação é também mais complexa para a UE do que para o Canadá, acrescentou.
“O Canadá é um Estado federal e pode impor contramedidas sem ter de obter a aprovação das províncias”, explicou García Bercero. “A UE não é um Estado federal, o que significa que medidas de retaliação exigem uma maioria qualificada dos Estados-membros. Até agora, as capitais europeias têm mostrado pouca vontade – ou tolerância – para uma guerra comercial à maneira do Canadá.”