O académico foi encontrado morto uma semana depois de abandonar os cargos de professor em Cambridge e bolseiro no Jesus College, após ser acusado de plagiar partes da tese de doutoramento e exagerar os seus feitos pessoais.
A família do académico britânico Jason Arday, encontrado morto na sexta-feira à noite numa residência no sul de Londres, num aparente suicídio em plena polémica mediática sobre um alegado plágio, denunciou o que descreve como anos de “abusos continuados”.
Numa declaração divulgada durante a noite, após a morte de Arday, a família afirmou que ele tinha sido “alvo de uma campanha de abusos continuados ao longo de mais de três anos, desde que aceitou o cargo de professor na Universidade de Cambridge”. O próprio Arday já tinha denunciado uma campanha “motivada por racismo” contra si.
Falando com jornalistas no sábado, o primeiro-ministro britânico Andy Burnham afirmou: “É uma tragédia a vários níveis, mas sobretudo para todos os que conheciam o Jason, a família obviamente, os amigos.”
Burnham acrescentou que não é altura “para precipitar julgamentos” e que este é “um momento de reflexão sobre como se chegou aqui”.
“Campanha de desinformação”
Arday demitiu-se do cargo na Universidade de Cambridge na semana passada, pouco depois de a instituição anunciar uma investigação às várias acusações que o visavam.
Ganhou destaque quando a universidade o nomeou, em 2023, o "mais jovem professor negro", mas viria depois a enfrentar acusações crescentes de que plagiara partes da tese de doutoramento. Também foram levantadas dúvidas sobre alguns feitos da sua biografia, incluindo a afirmação de que correu 30 maratonas em 35 dias e angariou milhões para instituições de solidariedade.
As alegações foram exploradas por jornais e comentadores britânicos de direita, que sustentaram que ele beneficiara indevidamente de políticas de diversidade, igualdade e inclusão (DEI).
Órgãos de comunicação social como o The Times, o Guardian e o Telegraph publicaram vários artigos de investigação sobre o trabalho académico e a vida pessoal de Arday.
Na declaração divulgada após a sua morte, a família de Arday afirmou que “a campanha de desinformação foi demasiada para o Jason, que era um homem afável e que procurava sempre ver o melhor em toda a gente”.
Diagnosticado com autismo, Arday contou que foi falava até aos 11 anos e só aprendeu a ler e a escrever aos 18, antes de se tornar, aos 37, o mais jovem professor negro de Cambridge, na área da sociologia.
Numa entrevista ao Times, no início deste mês, Arday admitiu ter cometido “erros” académicos, mas disse estar a ser indevidamente “retratado como um mentiroso, um fantasista e uma fraude académica”.
Explicou que alguns erros nos primeiros trabalhos académicos se deviam ao autismo, já que recorria à imitação para compreender a informação.
Simon Baron-Cohen, professor em Cambridge e diretor do Autism Research Centre, disse à rádio da BBC que falou com Arday na manhã de sexta-feira: “Estava a ser sujeito a um escrutínio implacável, incluindo ridicularização, desacreditando absolutamente todos os detalhes da sua vida”, afirmou.
“Não estava a conseguir lidar com a perda da carreira, com a perda da reputação, e sentia que não podia continuar. Usou essas palavras em mensagens de voz.”