As batalhas de “farmear aura” transformam memes, poses e gestos virais do TikTok numa competição onde os jovens testam carisma, estilo e confiança.
Dois adolescentes colocam-se frente a frente, rodeados por uma multidão. Olham-se fixamente e preparam-se para competir. Mas aqui não há murros, nem rimas improvisadas, nem uma batalha de dança convencional. Para vencer é preciso mostrar quem tem mais “aura”.
As chamadas batalhas de “aura farming” ou “farmear aura” trouxeram para a rua uma linguagem nascida nas redes sociais. Jovens, na maioria entre os 14 e os 20 anos, competem através de gestos, poses e recriações de alguns dos memes e vídeos virais mais reconhecíveis da internet.
Este fenómeno já deu origem a encontros em vários países da América Latina, entre eles México, Argentina, Brasil, Peru e Bolívia, e chegou agora também a Espanha. E, embora para quem não esteja familiarizado com os códigos do TikTok algumas atuações possam ser difíceis de decifrar, para os participantes reconhecer as referências faz parte do jogo.
Mas o que significa exatamente “farmear aura” e porque é que há adolescentes a competir para a conseguir?
O que significa “farmear aura”?
O conceito resulta da junção de dois termos muito distintos.
Em redes sociais como o TikTok e o Instagram, a “aura” é usada para descrever o estilo, a atitude ou o carisma que uma pessoa projeta. Dizer que alguém tem “100% de aura”, por exemplo, equivale a elogiar a sua capacidade de parecer atraente, seguro ou ‘cool’ quase sem esforço.
“Farmear”, por outro lado, vem do mundo dos videojogos. O termo inglês “farming” refere-se a repetir determinadas ações para ganhar pontos ou acumular recursos.
“Farmear aura” consiste, portanto, em fazer ou mostrar algo que permita ganhar simbolicamente pontos de carisma, estilo ou popularidade. O que começou como uma expressão típica da internet acabou por se transformar numa competição no mundo real.
Como se vence uma batalha de aura?
Numa destas competições, realizada recentemente em frente ao Palácio de Belas Artes, na Cidade do México, os participantes recorreram a todo um catálogo de referências virais para tentarem superar os adversários.
Carlos Irving Quintana, de 14 anos e cabelo roxo, conquistou os aplausos do público ao recriar o célebre salto do “Siuuu”, com que Cristiano Ronaldo festeja os golos. Depois recorreu ao “mewing”, uma tendência popularizada no TikTok que consiste em vincar a mandíbula e apontar para ela com o dedo para exibir o perfil.
O rival respondeu com o “6-7”, um meme difundido entre os jovens que não tem um significado concreto, mas se tornou num gesto reconhecível nas redes sociais. Os espectadores rodeiam os competidores e gravam as atuações com os telemóveis enquanto soa uma música que lembra a de um videojogo.
A chave está em mostrar que se dominam os códigos da internet. Quanto mais memes e vídeos virais um participante conseguir incluir na atuação, maiores são as probabilidades de impressionar o júri e o público.
Mas conhecer os memes não chega. A atitude é fundamental. “Quem tem melhor aparência, se exibe mais, provoca mais risos e tem mais confiança ganha”, explica à AFP Aldhir Gonzalez, de 22 anos, organizador da competição na Cidade do México.
De Cristiano Ronaldo a um sapato gigante
Praticamente qualquer elemento pode transformar-se numa ferramenta para “farmear aura”. O vencedor da competição mexicana foi Kaled Rosales Salazar, que apareceu vestido com calças do Rayo McQueen, protagonista do filme “Carros”, e tamancos.
Durante um dos confrontos, Rosales usou uma enorme sandália branca como acessório e imitou o gesto de laçar o rival e levá-lo como se fosse um cavalo. A encenação resultou. O adolescente acabou por levar os 3 000 pesos de prémio, cerca de 177 dólares.
Noutras competições, porém, o reconhecimento pode ser muito mais abstrato. Na Argentina, o prémio consiste em poder presumir de ter “aura infinita”.
O fenómeno cresceu ao ponto de chegar também ao futebol profissional. O clube argentino Boca Juniors aproveitou a tendência para publicar no X uma imagem do médio Santiago Ascacibar a celebrar um golo e brincar dizendo que a sua aura era insuperável.
Tendência desconcerta adultos
Nem toda a gente entende o fenómeno. “Aura é um estilo de vida” que “quase ninguém percebe”, resume o organizador de uma próxima batalha em Buenos Aires.
Essa incompreensão é especialmente visível entre gerações. Enquanto para muitos adolescentes as poses e os gestos contêm referências imediatamente reconhecíveis, alguns adultos veem estas competições como um sinal do empobrecimento da cultura popular.
A reação chegou mesmo à política. Um autarca das Honduras proibiu as batalhas e garantiu que, se dependesse dele, haveria serviço militar obrigatório. Outros especialistas, porém, encontram aspetos positivos na tendência.
A psicóloga venezuelana Maria Eugenia Tovar defende que este tipo de competições pode favorecer os encontros presenciais entre adolescentes, algo especialmente significativo para uma geração habituada a relacionar-se através das redes sociais.
E aí poderá estar uma das chaves do seu sucesso. Um fenómeno nascido no TikTok e no Instagram está a conseguir que os jovens deixem durante algumas horas o ecrã individual para se reunirem fisicamente, ainda que depois tudo volte a acabar gravado com um telemóvel e publicado na internet.
Para Rosales, o vencedor da competição da Cidade do México, a explicação é muito mais simples. Tenciona participar em novas batalhas, mas não necessariamente pelo dinheiro. “Mais do que pelo prémio, faço-o para me divertir e sair de casa”, explica à AFP.