Com a Terra a aquecer a um ritmo recorde, vai encolher substancialmente a lista de locais capazes de acolher de forma fiável uma edição dos Jogos de Inverno nos próximos anos.
Especialista italiano em produção de neve, Davide Cerato, terá um papel central nas provas de esqui e snowboard dos próximos Jogos Olímpicos.
É responsável por afinar vários percursos que vão estar em prova nos Jogos de Inverno de 2026, em Milão-Cortina, e leva o trabalho muito a sério.
“É a corrida mais importante da vida deles”, diz Cerato. “O nosso dever é dar-lhes o melhor, entregar pistas onde possam render ao máximo depois de treinarem tanto.”
Hoje, a neve fabricada (“neve técnica”, como lhe chama Cerato) faz parte do quotidiano das corridas de esqui; os atletas olímpicos já não hesitam em competir nela.
Acima de tudo, querem pistas que aguentem várias descidas de treino e as próprias provas sem se tornarem demasiado moles ou com muitos sulcos.
A natureza nem sempre garante isso e, com as alterações climáticas a afetarem especialmente os desportos de inverno, a produção de neve tornou-se essencial.
1,6 milhões de metros cúbicos de neve artificial prontos para os Jogos
Cerato supervisiona as operações nos recintos onde foram instalados novos sistemas de produção de neve, incluindo em Bormio para esqui alpino e esqui de montanha, e em Livigno para esqui freestyle e snowboard.
Trabalha com a Federação Internacional de Esqui e Snowboard e o Comité Olímpico Internacional desde os Jogos de Sochi 2014.
O comité organizador afirmou na sexta-feira ter produzido quase 1,6 milhões de metros cúbicos de neve técnica para todos os locais, menos do que o previsto. Cerato supervisionou os trabalhos de abertura de novos reservatórios de água em altitude para armazenar água destinada à produção de neve.
No Livigno Snow Park, construíram uma bacia com capacidade para cerca de 200 milhões de litros de água. É agora um dos maiores reservatórios no lado italiano dos Alpes, disse Cerato. Foram instalados mais de 50 canhões de neve para produzir cerca de 800 milhões de litros de neve em cerca de 300 horas.
Em Bormio, Cerato diz que foi construído um lago a 2.300 metros de altitude para armazenar 88 milhões de litros de água. Foram ainda adicionados 75 canhões de neve para o esqui alpino e o esqui de montanha.
“Levámos a pista de Bormio a um novo nível”, diz, comparando-a a uma “Ferrari com mudanças novas”.
Desportos de inverno dependem cada vez mais de neve artificial
Ao produzir neve, os organizadores controlam a qualidade e a dureza das pistas, preparando-as segundo os requisitos da FIS e garantindo condições consistentes, explica Cerato.
Diz que é mais fácil trabalhar com neve técnica por ser compacta e mais segura, já que não se degrada tão depressa; a neve natural exige mais trabalho. É possível injetar água profundamente no manto de neve, que congela e cria uma superfície de corrida mais estável.
Mas as alterações climáticas também tornam a neve artificial indispensável. O aumento das temperaturas continua a derreter as Dolomitas, onde decorrerá a maioria das provas.
Nos últimos cinco anos, Itália terá perdido 265 estâncias de esqui devido ao aumento das temperaturas, enquanto uma análise publicada no ano passado concluiu que o aquecimento global está a atingir regiões de montanha, incluindo os Alpes, “mais intensamente” do que as zonas de planície.
Além disso, com a Terra a aquecer a um ritmo recorde, a lista de locais capazes de acolher de forma fiável uns Jogos de Inverno vai reduzir-se substancialmente nos próximos anos, segundo os investigadores.
De 93 locais de montanha que atualmente dispõem de infraestruturas para desportos de inverno ao nível de elite, apenas 52 deverão ter a profundidade de neve e temperaturas suficientemente frias para acolher uns Jogos de Inverno na década de 2050, segundo investigação de Daniel Scott, professor da Universidade de Waterloo, e Robert Steiger, professor associado da Universidade de Innsbruck.
O número poderá cair para apenas 30 na década de 2080, dependendo de quanto o mundo reduzir a poluição por dióxido de carbono.
A situação é ainda mais sombria para os Jogos Paralímpicos de Inverno, normalmente realizados nos mesmos locais duas semanas após o fim dos Jogos de Inverno.
A investigação concluiu também que, a meio do século, quase não haverá locais capazes de acolher desportos de neve de forma fiável sem produção de neve.
Mas mesmo isso não é solução. “A produção de neve… constitui apenas uma proteção relativa e transitória face aos efeitos das alterações climáticas”, alertou a Cour des Comptes (Tribunal de Contas francês) num relatório publicado em 2024.
Apesar de as emissões poderem ser marginais, a produção de neve artificial é um processo intensivo em dinheiro, energia e água, que poderá em breve exercer pressão excessiva sobre os recursos locais.