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EUA: reforma de vacinas de Trump aumenta desconfiança e expõe Europa a surtos

À esquerda, Kendy Marte coloca um autocolante no filho, Stanley Pena, de 13 anos, após este receber a primeira dose da vacina Pfizer contra a COVID-19 em Nova Iorque
Kendy Marte, à esquerda, coloca um autocolante no filho, Stanley Pena, de 13 anos, depois de este receber a primeira dose da vacina Pfizer contra a COVID-19 em Nova Iorque Direitos de autor  Copyright 2021 The Associated Press. All rights reserved.
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De Giedre Peseckyte
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Os efeitos da ordem executiva de Donald Trump, que visa reduzir as vacinas infantis recomendadas, podem estender‑se além dos Estados Unidos, alimentando a desconfiança e criando falhas na imunização

Na segunda-feira, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem executiva que recomenda reduzir de 18 para 11 o número de doenças abrangidas pelas recomendações de vacinação infantil universal de rotina.

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Decisões deste tipo podem criar falhas na imunização, deixando as populações vulneráveis a surtos e alimentando a desconfiança em relação às vacinas, afirmou à Euronews Marco Cavaleri, responsável pelo Departamento de Ameaças à Saúde Pública da Agência Europeia de Medicamentos.

Não cumprir o calendário de vacinação infantil de rotina pode ser “catastrófico”, disse, acrescentando que isso implica “o regresso de doenças que tínhamos conseguido conter e eliminar dos nossos países”.

Além disso, pode minar a confiança da sociedade nas vacinas. Decisões como a tomada nos Estados Unidos “podem, infelizmente, ser muito prejudiciais em termos de confiança nas vacinas”, alertou Cavaleri.

EUA: ordem de Trump altera recomendações de vacinação infantil

A ordem de Trump retira as recomendações de vacinação universal de rotina para a COVID-19, gripe, rotavírus, doença meningocócica, VSR e hepatites A e B. Algumas vacinas continuarão a ser recomendadas para crianças consideradas de maior risco, enquanto outras passarão a depender de uma “decisão clínica partilhada” entre os pais e os profissionais de saúde.

A ordem recomenda ainda dividir a vacina combinada contra o sarampo, papeira e rubéola (MMR) em três injeções separadas, a administrar em consultas diferentes. Atualmente, não existem nos Estados Unidos vacinas separadas para o sarampo, a papeira e a rubéola.

A decisão surge numa altura em que o secretário da Saúde norte-americano, Robert F. Kennedy Jr., tem colocado em causa a segurança das vacinas e promovido alegações que associam as vacinas ao autismo, apesar de extensas evidências científicas não terem encontrado qualquer relação causal entre vacinação e autismo.

“As evidências atuais são inequívocas: as vacinas – incluindo a vacina MMR – são seguras e não causam autismo”, afirmou na quarta-feira o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, na rede X (fonte em inglês).

As vacinas combinadas também facilitam a imunização de crianças, pais e profissionais de saúde. Por isso, o desenvolvimento de vacinas tem vindo a caminhar no sentido de mais vacinas combinadas, e não de menos.

“Na prática, esta decisão dos Estados Unidos vai contra aquilo que o futuro nos trará em termos de melhor proteção para crianças, adultos e idosos”, afirmou Cavaleri, acrescentando que “não há base científica para separar estas vacinas”.

Embora os pais continuem a poder optar por vacinar os filhos através da chamada decisão clínica partilhada, especialistas em saúde alertam que exigir injeções separadas e consultas adicionais pode levar algumas famílias a adiar ou faltar às vacinas.

As alterações podem também reforçar a hesitação em relação às vacinas, deixando potencialmente as populações mais vulneráveis a surtos de doenças evitáveis que foram eliminadas ou controladas em muitos países.

“As alterações recentes à política de imunização dos EUA não estão alinhadas com décadas de evidência”, disse Tedros. “Essas evidências são revistas continuamente à medida que surgem novos dados em todo o mundo”, acrescentou.

Europa e mundo enfrentam riscos com nova política de vacinas dos EUA

A Europa já sente as consequências da queda na cobertura vacinal. Seis países – Arménia, Áustria, Azerbaijão, Espanha, Reino Unido e Uzbequistão – voltaram a registar transmissão de sarampo em 2024, segundo a OMS.

O sarampo é um exemplo claro do que pode acontecer quando a cobertura vacinal diminui.

“Já estamos a assistir ao regresso do sarampo sempre que a cobertura vacinal baixa”, disse Cavaleri. “E veremos mais casos, infelizmente, nos Estados Unidos e noutras partes do mundo.”

Alertou que a situação pode tornar-se “muito pior” se o número de pessoas vacinadas descer. “Basta pensar na poliomielite. Queremos que volte? Espero que não”, afirmou Cavaleri, apelando à vacinação.

Especialistas em saúde avisam também que a decisão dos EUA pode minar ainda mais a confiança do público nas vacinas na Europa.

O relatório “State of Vaccine Confidence” da Comissão Europeia concluiu que, desde 2020, a confiança global nas vacinas diminuiu entre o público em geral, com quebras particularmente significativas em muitos países da Europa Central e de Leste. A decisão dos EUA pode alimentar ainda mais esta tendência.

E as consequências não ficam pelas fronteiras.

“A Europa é a região que temos o dever de observar. Mas estas doenças infecciosas estão a causar problemas globais, surtos globais, epidemias globais”, disse Cavaleri.

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