O Presidente da República discursou no Parlamento Europeu a propósito dos quarenta anos de adesão de Portugal à União Europeia. No discurso, Marcelo deixou recados a Donald Trump avisando que “não há quem consiga hoje refazer pela força a divisão do mundo em hemisférios como no passado”.
No mês em que se assinalm os quarenta anos de adesão de Portugal à União Europeia, Marcelo Rebelo de Sousa foi chamado a discursar no Parlamento Europeu.
Perante um hemiciclo composto e depois de lhe ter sido dada a palavra por Roberta Metsola, o presidente da República Portuguesa não se limitou ao histórico comunitário do país. "O reino de Portugal nasceu em 1143" começou Marcelo, recuando até à data da fundação, naquela que seria mais uma aula de história do Presidente português.
Mas, como em todas as aulas, houve tempo para algumas advertências, que chegaram quando fala do papel da Europa no mundo.
"É hoje moda do momento esquecer, minimizar, diminuir a Europa e o seu papel no mundo", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.
A mensagem parecia seguir no caminho das atuais dificuldades diplomáticas com os Estados Unidos, quando Marcelo recordou velhos aliados.
"Temos os EUA, cuja independência Portugal foi o primeiro estado europeu neutral a reconhecer. Mas preferiríamos que fôssemos sempre aliados a 100%, e não com hiatus, intermitências ou estados de alma", afirmou.
Perante as ameaças de Donald Trump de anexação da Gronelândia e críticas aos países e bloco europeu, Marcelo deixou o recado: "Tudo o que se pode dizer das comunidades europeias, hoje União Europeia, de crítico, de falível, errado e insuficiente, que é muito, é nada, comparado o que lhes devemos".
"Que os aliados e os parceiros que desejamos virão sempre como sempre vieram. Quando perceberem que não há senhores únicos no globo, que não há poderes eternos e que as nossas alianças e parcerias valem mais do que a espuma, mesmo espetacular, mesmo sedutora de cada dia", afirmou o presidente português, num claro recado para o presidente dos Estados Unidos e as suas intenções.
"Não há quem consiga hoje refazer pela força a divisão do mundo em hemisférios como no passado e sonhar controlar o seu hemisfério. Ou resolver problemas do mundo sozinho: falhará quem o tente no século XXI. Como falharam outros no século XX", afirmou.
"Não há portugueses puros, há portugueses diversos"
Ao assinalar a entrada de Portugal na União Europeia, Marcelo Rebelo de Sousa assinalou a mudança que a integração do bloco trouxe para o país.
"A integração europeia do século XX que culminou na adesão, há 40 anos, no mesmo dia de Espanha, com papel cimeiro de Mário Soares e Felipe Gonzalez, veio mudar a história. Mudou a história europeia, mudou a história nas relações com o nosso único vizinho por terra. Mudou a nossa história. Mudou para a liberdade, para a democracia, Estado de Direito, mudou para o desenvolvimento, mudou para justiça social".
Marcelo, que ao lembrar as raízes portuguesas, salientou sempre Portugal “nasceu na Europa e de linhagens europeias” mas garantiu: "não há portugueses puros".
“Somos europeus desde as raízes. E essas raízes mesclaram-se, logo à partida, com as de outros continentes, de outros universos. Por isso não há portugueses puros, há portugueses diversos, na sua riqueza cultural. Somos europeus, na língua, na cultura, na História, e, porque europeus, universais”, lembrou.
O Presidente da República reforçou as qualidades europeias: "temos mais liberdade, democracia e Estado de direito do que tantos outros" para dizer logo a seguir que, "tudo isto não basta" e que "temos de fazer mais e melhor".
“Tratemos disso. Com prioridade e com urgência. Contemos, antes do mais, connosco. Nós próprios, que sempre acreditámos na Europa Livre, Igualitária e Democrática. Reconstruamo-la. Sem medos. Sem inibições. Sem complexos”.