A Alemanha está a reorganizar as suas forças armadas. A Bundeswehr deverá tornar-se mais rápida, mais poderosa e tecnologicamente mais moderna e, no futuro, poderá também atingir alvos com precisão a distâncias maiores.
O ministro Federal da Defesa, Boris Pistorius, apresentou na quarta-feira, pela primeira vez, uma estratégia militar para a Bundeswehr e para a República Federal da Alemanha. "O nosso objetivo é claro: vamos continuar a reforçar a prontidão operacional da nossa Bundeswehr, e vamos fazê-lo rapidamente", disse Pistorius no início da apresentação.
Segundo Pistorius, o principal fator que desencadeia a estratégia é a guerra de agressão russa contra a Ucrânia. Os "desenvolvimentos na Ucrânia, tanto a nível militar como industrial", mostraram que as forças armadas devem adaptar-se constantemente, mesmo a desenvolvimentos "que talvez nem sequer sejam previsíveis atualmente", afirmou o ministro.
A situação de ameaça intensificou-se significativamente nos últimos anos e, de acordo com Pistorius, a ordem internacional está a ser posta em causa mais do que há muito tempo. "Por outras palavras, o mundo tornou-se mais imprevisível. E sim, há que dizê-lo também, mais perigoso", afirmou o ministro da Defesa.
Neste contexto, o governo alemão analisou a forma como as ameaças poderão evoluir no futuro, quais os cenários realistas e quais os potenciais conflitos para os quais a Alemanha se deve preparar.
No centro da nova estratégia está um repensar fundamental. No futuro, a Bundeswehr deverá concentrar-se menos num número fixo de unidades e mais em capacidades específicas. "Não se trata do número exato de tanques, aviões e navios para os próximos 10 ou mesmo 15 ou 20 anos", disse Pistorius. Segundo este, o fator decisivo seriam as capacidades.
Esta lógica foi também sublinhada pelo Inspetor-geral Carsten Breuer. "Estamos agora a olhar para o impacto que podemos alcançar". Isto significa que cada capacidade já não tem necessariamente de ser mapeada através de um sistema específico. O fator decisivo é o resultado.
Isto inclui a defesa aérea, os sistemas de armas de longo alcance e a capacidade de conduzir um combate moderno e baseado em dados. As novas tecnologias, como a inteligência artificial, também desempenharão um papel mais importante no futuro.
Foco: "Deep Strike" (ataque profundo)
A capacidade de atingir alvos muito atrás da linha da frente é outra das prioridades. Pistorius e o Inspetor-geral Breuer deixaram claro que essas capacidades se tornarão cada vez mais importantes no futuro.
Isto inclui armas de precisão de longo alcance que podem ser utilizadas para eliminar as rotas de abastecimento, os centros de comando ou as infraestruturas do inimigo numa fase inicial. Tendo como pano de fundo a guerra na Ucrânia, esta forma de guerra é considerada fundamental para enfraquecer as estruturas inimigas numa fase inicial e aliviar a pressão sobre as próprias forças.
Atualmente, a Bundeswehr apenas dispõe de uma arma que pode ser classificada na categoria de ataque profundo baixo a médio: o míssil de cruzeiro Taurus, um produto germano-sueco. Com um alcance de mais de 500 quilómetros, o Taurus situa-se no extremo inferior a médio deste tipo de armas.
No entanto, no futuro, as tropas deverão estar numa posição ainda melhor para atingir com precisão esses alvos potenciais, mesmo a distâncias maiores.
O míssil de cruzeiro JASSM-ER, por exemplo, deverá ser adquirido para o novo caça F-35 e, com um alcance de cerca de 1.000 quilómetros, chegará muito mais longe do que os sistemas anteriores. Tanto o caça como o míssil de cruzeiro são fabricados pela empresa americana Lockheed Martin.
Partes da estratégia permanecem secretas
De acordo com Pistorius, parte da estratégia está a ser deliberadamente mantida em segredo. Cenários concretos ou possíveis imagens de utilização não são tornados públicos. Isso daria aos potenciais opositores demasiadas informações, como afirmou Pistorius. Caso contrário, poderíamos acrescentar Vladimir Putin à nossa lista de distribuição de correio eletrónico", referiu.
Paralelamente à reorganização dos conteúdos, o governo alemão está a planear uma expansão significativa da Bundeswehr. O objetivo é ter um total de 460.000 soldados, entre efetivos e reservas. Atualmente, existem na Alemanha cerca de 184.300 soldados no ativo e cerca de 860.000 reservistas.
O aumento deverá ser efetuado em várias fases. Inicialmente, o objetivo é aumentar rapidamente a prontidão operacional até 2029. Nos anos seguintes, deverão ser desenvolvidas novas capacidades - também com vista à entrada de novos sistemas de armas.
De acordo com o ministério da Defesa, está a ser adotada uma abordagem pragmática. A fim de reter o maior número possível de candidatos, no futuro serão recrutadas mais pessoas do que os lugares efetivamente disponíveis. "Estamos a permitir o overbooking", afirmou Pistorius.
A formação de pessoal é um pré-requisito fundamental para toda a estratégia, dado que sem um número suficiente de soldados, as novas competências não podem ser desenvolvidas nem asseguradas a longo prazo. A reserva também deverá desempenhar um papel muito mais importante no futuro. Já não será considerada apenas como um complemento, mas como parte integrante das forças armadas. "A nova reserva deverá estar em pé de igualdade com as tropas ativas", indicou Pistorius.
A reserva tem um papel central a desempenhar, especialmente a nível interno: numa situação de emergência, a Alemanha é considerada um centro logístico na Europa. Os movimentos das tropas, os abastecimentos e as infraestruturas teriam de ser assegurados e, por conseguinte, tarefas que seriam em grande parte assumidas pelos reservistas.
"Precisamos da reserva para garantir que a Alemanha funcione como um centro logístico numa situação de crise ou de defesa. A nossa reserva é, portanto, se quisermos, a charneira entre os militares e a sociedade civil", disse Pistorius.
Ao mesmo tempo, a Bundeswehr também deve tornar-se mais rápida em termos organizacionais. O ministério quer reduzir a burocracia e simplificar os processos com uma agenda de reforma abrangente. Os planos incluem fluxos de trabalho digitais em vez de processos em papel, menos obrigações de notificação e uma maior utilização de tecnologias como a inteligência artificial. "As obrigações de notificação e de comunicação só existirão quando tiverem efetivamente um valor acrescentado", indicou.
A estratégia em si não pretende ser um conceito rígido. "Estas estratégias são documentos vivos", afirmou o ministro da Defesa. Devem ser adaptadas regularmente em função da evolução das ameaças e das tecnologias.