"Atrasámos o envio de tropas para a Polónia. Não é uma redução, é apenas um atraso normal na rotação", disse o vice-presidente dos EUA J. D. Vance na Casa Branca.
O comentário surge na sequência de informações pouco claras vindas do Pentágono, segundo as quais os planos dos Estados Unidos para reduzir o número de tropas norte‑americanas na Europa poderiam abranger também a Polónia, apesar de as autoridades polacas terem sido repetidamente asseguradas em Washington de que isso não aconteceria.
Ponto de partida para o debate foi a suspensão da rotação das tropas estacionadas na Polónia, ou seja, o cancelamento da deslocação de quatro mil militares dos EUA para bases polacas.
As informações, inicialmente sem confirmação oficial por parte da administração norte‑americana, apanharam de surpresa tanto a oposição nos EUA como o governo polaco em Varsóvia.
Na terça‑feira, durante um briefing na Casa Branca, um jornalista questionou JD Vance sobre a razão pela qual os Estados Unidos “vão recompensar Vladimir Putin e, ao mesmo tempo, punir o melhor aliado, a Polónia, reduzindo o número de soldados nesse país”, ao qual o vice‑presidente respondeu: “não reduzimos em quatro mil o número de militares na Polónia. Apenas adiámos a deslocação das tropas que deveriam ir para a Polónia. Isto não é uma redução, é simplesmente um atraso normal na rotação, que por vezes acontece em situações deste tipo”, acalmou.
Vance elogiou ao mesmo tempo o presidente dos EUA: “Ninguém fez tanto para garantir à Ucrânia a sobrevivência à invasão russa como Donald Trump”.
Para além de afirmar “adoramos a Polónia e adoramos os polacos”, Vance explicou que o adiamento está ligado a uma revisão geral da presença militar norte‑americana nos países europeus.
“Eis o problema fundamental: a Polónia consegue defender‑se com um grande apoio dos Estados Unidos. Não estamos a falar de retirar todas as forças americanas da Europa, estamos a falar de deslocar parte dos meios de forma a maximizar a segurança da América. Não creio que isso seja mau para a Europa. Isso incentiva a Europa a assumir uma maior responsabilidade”, explicou, recordando a posição anterior de Trump sobre as capacidades de defesa europeias.
Considerou ainda que “os Estados Unidos não podem ser o polícia do mundo”.
O formato das mudanças após a revisão ainda não está definido. “Estas tropas podem ser destacadas para outro ponto da Europa ou podemos decidir enviá‑las para outro sítio. Ainda não tomámos uma decisão final”, afirmou o vice‑presidente Vance.
Pentágono: Polónia é aliado exemplar
Mensagem idêntica, de tom tranquilizador, foi transmitida a seguir às palavras de Vance pelo porta‑voz do Pentágono.
“O Departamento da Guerra reduziu o número total de Brigade Combat Teams (BCT) atribuídos à Europa de quatro para três, regressando aos níveis de BCT na Europa de 2021. Esta decisão resultou de um processo abrangente e multilayer centrado na postura das forças dos EUA na Europa. Isto provoca um atraso temporário na deslocação de forças dos EUA para a Polónia, que é um aliado exemplar dos Estados Unidos”, escreveu no X Sean Parnell.
Linha direta Varsóvia‑Washington
Também na terça‑feira, o ministério polaco da Defesa Nacional informou que, ainda antes da conferência de J. D. Vance, o titular da pasta, vice‑primeiro‑ministro Władysław Kosiniak‑Kamysz, manteve uma conversa telefónica com Pete Hegseth, secretário da Guerra dos EUA.
“Está em curso um processo de reagrupamento de forças e meios do exército dos EUA na Europa, mas ainda não foi tomada qualquer decisão de reduzir as capacidades das tropas americanas na Polónia. As decisões que estão a ser tomadas não são de forma alguma dirigidas contra a nossa parceria estratégica”, informou o ministro da Defesa no X.
Acrescentou ainda que “o Pentágono está precisamente a preparar um novo plano de posicionamento das suas forças em toda a Europa.”
Na mesma linha pronunciou-se o Palácio Presidencial. O porta‑voz de Karol Nawrocki garantiu na Rádio ZET que “o governo pode contar com o apoio do presidente, mas agora a iniciativa cabe justamente ao governo e é assim que deve ser”.
“O presidente Nawrocki sublinhou isso muitas vezes; graças às boas relações com o presidente Donald Trump, conseguiu já em setembro, na Casa Branca, a confirmação de que os militares dos EUA permanecerão na Polónia”, afirmou na Rádio ZET Rafał Leśkiewicz, porta‑voz do presidente Nawrocki, recordando a visita do chefe de Estado polaco a Washington no ano passado.
Assegurou também que “por enquanto tudo isto está no plano das meias palavras e das especulações mediáticas, não há grandes decisões concretas. Estão a trabalhar neste dossiê quer os colaboradores do presidente, quer sobretudo o governo”.
Desde terça‑feira encontra‑se igualmente nos Estados Unidos uma delegação do Ministério da Defesa, que integra, entre outros, os vice‑ministros da Defesa Cezary Tomczyk e Paweł Zalewski.
A visita está diretamente relacionada com os movimentos da administração norte‑americana quanto às tropas na Europa e a partir de quarta‑feira deverá decorrer uma série de encontros no Congresso dos EUA.