Duas crianças de nacionalidade francesa, de três e cinco anos, foram encontradas sozinhas numa estrada nacional, no final da tarde de terça-feira, por um casal que passava de carro. Há fortes suspeitas de que tenham sido abandonadas. Mãe e padrasto foram entretanto detidos.
A mãe e o padrasto das duas crianças encontradas sozinhas, com sinais de abandono, em Alcácer do Sal, foram localizados e detidos pela Guarda Nacional Republicana (GNR) em Fátima, a cerca de 170 quilómetros do local onde as crianças foram encontradas.
A informação foi confirmada em comunicado pela GNR: "A Guarda Nacional Republicana localizou e deteve, hoje, dia 21 de maio, em Fátima, um homem de 55 anos e uma mulher de 41 anos, suspeitos da prática dos crimes de violência doméstica e de exposição e abandono, relacionados com a ocorrência envolvendo duas crianças menores encontradas sozinhas junto à via pública no concelho de Alcácer do Sal", lê-se na declaração enviada pelas autoridades às redações.
Segundo a CNN Portugal, os dois foram identificados como os franceses Marine Rousseau e Marc Ballabriga.
"Na sequência do alerta inicialmente recebido, relativamente à presença de duas crianças sozinhas junto à via pública, os militares da GNR deslocaram-se de imediato ao local, onde localizaram os menores, garantindo a sua proteção e segurança. Perante a situação de evidente vulnerabilidade, as crianças foram encaminhadas para a casa de um popular, onde permaneceram e foram prestados os primeiros cuidados, na presença dos militares da Guarda, até serem encaminhados para unidade hospitalar", esclarece ainda a declaração da GNR, que acrescenta que "os militares do Posto Territorial de Fátima localizaram e detiveram os suspeitos naquela cidade, em consequência do trabalho de pesquisa e proatividade policial desenvolvido".
A investigação encontra-se a cargo do Núcleo de Investigação e Apoio a Vítimas Específicas (NIAVE) de Santiago do Cacém e os factos foram comunicados ao Tribunal Judicial de Grândola, informa ainda o comunicado das autoridades.
Crianças encontradas sozinhas em pânico
Ao final do dia de terça-feira, 19 de maio, duas crianças foram encontradas por um casal que passava de carro, a vaguear e em estado de pânico, na zona rural de Monte Novo do Sul, na Estrada Nacional 253, no concelho de Alcácer do Sal.
Artur Quintas, o popular que as encontrou, referiu, em entrevista à SIC Notícias, que as crianças estavam a chorar e que o irmão mais velho lhe contou que tinham sido levadas para a floresta, alegadamente para brincar. “Para enganarem as crianças, os pais vendaram-lhes os olhos e deixaram-nos na floresta a jogar um jogo. Disseram-lhes para irem à procura de um brinquedo”, contou.
As crianças traziam mochilas com uma garrafa de água, uma peça de fruta, um pacote de bolachas e uma muda de roupa, o que levou o homem a suspeitar de que poderiam ter sido abandonadas.
Artur Quintas levou as crianças para junto da sua família, onde permaneceram até à chegada da Guarda Nacional Republicana (GNR). Pela manhã, foram encaminhadas para o Hospital de Setúbal para serem observadas.
A GNR confirmou à Euronews que as crianças estão agora ao cuidado de serviços de assistência social. A mesma força de segurança adiantou à AFP que "todas as possibilidades estão a ser consideradas" neste momento no que concerne a este caso.
A CNN Portugal avançou, na noite de quarta-feira, que as crianças teriam sido abandonadas pela mãe e que a investigação policial estaria a relacionar o caso com outro ocorrido em França, onde uma mulher terá raptado os dois filhos e estaria a ser procurada há 15 dias.
Segundo esta versão, a mãe, de 41 anos, teria retirado as crianças ao pai, residente em França, entrando posteriormente em território português através de Bragança.
Também o jornal francês, Le Figaro, avançou que a Procuradoria de Colmar, comuna francesa onde residiria a suspeita, abriu um inquérito judicial por "abandono de menores." O procurador Jean Richert, citado no mesmo jornal, relatou que esta mulher "desapareceu sem dar explicações", juntamente com as crianças, motivando a sua busca incessante por parte das autoridades.
Já o pai, acrescentou o magistrado, que está separado da mãe das crianças e "não entende" as motivações para o desaparecimento, ter-se-á entregado às autoridades.
Investigação está a cargo da GNR
Em comunicado partilhado pela Polícia Judiciária (PJ) no seu site, ao início da tarde de quinta-feira, a autoridade indicava que "foi pelo Ministério Público delegada na Polícia Judiciária a competência para investigar a prática do crime de exposição ou abandono" no âmbito deste caso.
No entanto, esta nota de imprensa viria, depois, a ser removida do site da organização policial. Em esclarecimento à Euronews, fonte oficial da PJ detalhou que isso aconteceu porque, "entretanto, o Ministério Público voltou a delegar as competências" relativas ao apuramento dos factos "na GNR".
De facto, fonte oficial desta última força de segurança também confirmou à Euronews que detém, neste momento, a responsabilidade pela investigação.
Depois disso, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, sustentou a mais recente decisão do Ministério Público. Isto porque as duas tipologias de crime que estarão em causa - de "violência doméstica e exposição ou abandono" - são da "competência das forças de segurança”.
Portanto, esses atos deverão ser "investigados pela Polícia de Segurança Pública [PSP] ou pela GNR, de acordo com a área territorial onde os crimes tenham ocorrido”, acrescentou.
Questionado sobre se poderia fornecer mais detalhes sobre as perícias em curso, disse que não se encontra a par da "intimidade das investigações", à semelhança do que acontecia no passado, quando era diretor nacional da PJ.
E concluiu dizendo que "o que interessa é que as crianças estão bem" e, além disso, "que os presumíveis autores destes crimes muito feios, sobre crianças absolutamente vulneráveis, estão identificados e sob a alçada da Justiça".