Marine Rousseau foi ontem detida pela GNR, suspeita do crime de abandono dos próprios filhos numa zona de mato em Alcácer do Sal. Com ela foi detido o padrasto das crianças, que já foi condenado por violência doméstica. O que se sabe sobre o caso que está a chocar Portugal e França.
Marine Rousseau de 41 anos foi detida pela GNR em Fátima, juntamente com um homem de 55 anos. De acordo com aquela força policial são "suspeitos da prática dos crimes de violência doméstica e de exposição e abandono, relacionados com a ocorrência envolvendo duas crianças menores encontradas sozinhas junto à via pública no concelho de Alcácer do Sal".
Pouco se sabe sobre a mulher de nacionalidade francesa e muito menos as motivações que a levaram a deixar os dois filhos, de quatro e cinco anos, sozinhos, num local desconhecido. Marine Rousseau foi detida a cerca de 170 quilómetros de distância do local onde as crianças foram encontradas.
Nas redes sociais apresenta-se como "sexóloga", que pode, segundo a própria, ajudar "todas as pessoas que sofreram traumas a recuperar a serenidade e a satisfação sexual". Nas redes profissionais com o LinkedIn diz-se "especializada em práticas corporais, dinâmicas do desenvolvimento e cuidados específicos para traumas", capaz de acompanhar jovens.
Foi também online que divulgou vídeos sobre formações que visam ajudar pais a abordar a sexualidade com os filhos. De acordo com a informação disponibilizada, estudou psicomotricidade na Universidade Pierre e Marie Curie, em Paris, e trabalhava também com EFT, uma técnica associada à libertação emocional.
Família denunciou desaparecimento
Foi a família materna que deu conta do seu desaparecimento às autoridades francesas.
"No dia 11 de maio de 2026, a esquadra da polícia de Colmar foi contactada pela família de uma mulher de 41 anos, residente em Colmar, que tinha desaparecido de casa sem dar explicações ", afirmou o Ministério Público de Colmar em comunicado, citado pela TF1. O desaparecimento foi apresentado como algo preocupante, até porque a mulher deixou para trás outro filho, de 16 anos, fruto de um relacionamento anterior.
O procurador público de Colmar, Jean Richert, aqui citado pelo mesmo orgão de comunicação, explicou que o pai das crianças, separado da mãe, também se dirigiu às autoridades, apresentando uma queixa por sequestro de menores. A imprensa francesa indicou ainda que era a mãe que detinha a guarda legal dos meninos.
O desaparecimento, comunicado a 11 de maio, foi investigado pela polícia francesa que, segundo o Ministério Público, conseguiu a localização da mulher "sucessivamente no sul de França, em Espanha e em Portugal, mas sem conseguir contactá-la ".
A notícia do aparecimento dos menores numa estrada nacional acabou por despoletar a investigação em solo português e também em França, com a promotoria de Colmar a abrir um inquérito judicial por "negligência infantil".
Padrasto já foi condenado por violência doméstica
As informações sobre a mãe são escassas mas o perfil do atual companheiro, identificado como Marc Ballabrigade 55 anos, também detido pela GNR, pode ser considerado problemático.
Segundo explica o Le Parisien, trata-se um antigo agente da autoridade, condenado em 2010 por assédio e violência doméstica contra a mãe da sua filha. O jornal francês cita uma fonte próxima ao caso, explicando que o indivíduo foi condenado a nove meses de prisão e dois anos de pensa suspensa.
Apesar da condenação, a avaliação psicológica na altura descreveu-o como uma "pessoa normal" e "sem patologias". A mesma fonte explica ao jornal francês que o homem terá passado "por um longo período de depressão que o levou a renunciar ao cargo" na polícia.
Nas redes sociais, o homem diz que trabalhou como "escravo do Ministério da Defesa" entr 1994 e 2010, apresentando ainda várias publicações com teorias da conspiração, a última com data de março.
O casal será hoje apresentado a um juiz para determinar as medidas de coação.
"Menores encontram-se bem de saúde"
O caso polémico teve teve início na quarta-feira, depois de duas crianças terem sido encontradas sozinhas, com sinais de abandono, junto à beira de uma estrada nacional, numa zona de mato em Alcácer do Sal, no distrito de Setúbal.
Um casal que passava de carro notou os meninos, explicando à imprensa portuguesa como as crianças aparentavam estado de confusão enquanto contavam que tinham sido levadas para a floresta, alegadamente para brincar.
Após a denúncia, os "militares da GNR deslocaram-se de imediato ao local, onde localizaram os menores, garantindo a sua proteção e segurança". Foram encaminhados para Posto Territorial de Alcácer do Sal, "onde os militares procuraram prestar os primeiros cuidados, assegurando alimentação, conforto e um ambiente de tranquilidade e proteção, particularmente importante tendo em conta a idade e fragilidade emocional dos menores", informou aquela força policial em comunicado.
As crianças foram depois encaminhadas para o hospital para determinar o seu estado de saúde. De acordo com a Procuradoria da República da Comarca de Setúbal, "os menores encontram-se aparentemente bem de saúde tendo recebido o acompanhamento médico necessário, tendo-lhe sido concedida alta hospitalar".
Em comunicado é reforçado que a "prioridade do Ministério Público tem sido assegurar o bem-estar e a segurança das crianças, o que tem sido conseguido".
Os dois irmãos estão atualmente a cargo de uma família de acolhimento provisório, depois de o tribunal de Família e Menores de Santiago do Cacém ter instaurado um procedimento urgente de proteção.
As autoridades portuguesas e francesas têm estado a comunicar para determinar o futuro das crianças e um eventual regresso a solo francês. O pai dos meninos já estará a caminho de Portugal. Segundo avança a SIC, o homem será sujeito a uma avaliação de forma a determinar se tem condições para ficar com as crianças.
O Tribunal da Comarca de Setúbal esclareceu que o regresso das crianças a França só pode acontecer depois do pedido formal das autoridades francesas.
"Caberá às autoridades judiciárias francesas, através dos mecanismos de cooperação judiciária, iniciar o processo de regresso das crianças ao Estado da residência habitual. Neste caso, os tribunais franceses são internacionalmente competentes para decidir sobre medidas de proteção definitivas e sobre as responsabilidades parentais”, refere o tribunal da Comarca de Setúbal.