Todos os anos, 230 jovens futebolistas tentam outro tipo de golo: a medalha de ouro no concurso nacional de eloquência para jovens atletas.
A consagração do Paris Saint-Germain frente ao Arsenal na final da Liga dos Campeões, a 30 de maio, representa não só um momento histórico para o clube, mas também uma enorme esperança para toda uma geração de jovens futebolistas franceses.
Todos os anos, jovens futebolistas em formação para se tornarem profissionais apontam a outro tipo de troféu: o primeiro prémio do concurso nacional de eloquência organizado pela associação Prométhée Éducation.
A 28 de maio, vinte futebolistas em formação, vindos de dez centros de elite em França, participaram na final do concurso de eloquência no Palácio de Versalhes. Para muitos, foi também a primeira visita a este lugar de exceção.
Desta vez, não foram avaliados por árbitros de apito na boca, mas por figuras do desporto, da cultura e da política, entre elas uma ex-ministra e um deputado da Assembleia Nacional.
Entre os finalistas da sétima edição estão Arthur Bar e Zélie Merlaud, ambos com 16 anos. Naturais de Paris e de Mont-de-Marsan, no sudoeste de França, são futebolistas em formação no centro de treino do PSG.
O discurso de cinco minutos sobre os direitos das crianças não lhes valeu um troféu, mas foi uma experiência marcante. “Mostrámos, um a um, os nossos talentos, que o futebol não faz de nós tontos. Acho que hoje quebrámos um estereótipo que nos persegue muito”, disse Arthur Bar ao microfone da Euronews.
“Vamos continuar a treinar a nossa eloquência, porque esta não será a última prova que teremos. Por exemplo, vamos ter a prova oral do exame final do secundário, por isso é inevitável treinar para progredir”, acrescentou a colega de equipa, Zélie Merlaud.
Esta formação na arte da retórica é proposta por vários clubes de futebol, entre eles o PSG, o AS Monaco e o Olympique Lyonnais, e é assegurada por Mohamed Slim, fundador da associação Prométhée Éducation. Diplomado pelo Sciences Po Paris, há sete anos que dedica o tempo livre a percorrer França para preparar para o concurso aqueles e aquelas que poderão vir a ser futebolistas profissionais.
“Muitos dos jogadores vêm de bairros considerados sensíveis, de meios desfavorecidos, e não dispõem de todas as ferramentas para se integrarem com serenidade não só no futebol e no exercício da palavra em público, mas também fora dele, caso não se tornem profissionais”, explicou Mohamed Slim à Euronews.
“Os atletas são uma referência para os mais jovens e transmitem mensagens. Para o fazerem de forma eficaz, têm de saber falar com à vontade”, acrescentou.
Ao longo dos anos, este apaixonado por futebol formou várias jovens estrelas, como Ayyoub Bouaddi, do LOSC Lille, que vai representar Marrocos no Campeonato do Mundo, bem como Warren Zaïre-Emery, jogador do PSG.
Entre os vencedores do concurso de eloquência deste ano está Usuman Kebeh, jovem médio do AS Monaco. Conquistou o primeiro prémio na categoria “Laureados” com um discurso sobre a questão “a sorte é uma ilusão?”
“É um tema que me provoca muita emoção, e penso que foi isso que me permitiu destacar-me. Não fazia ideia de que tinha este talento”, contou o jogador de 16 anos à Euronews.
“Quando subi ao palco, pensei no sítio de onde venho, de África. Representava o meu país, a Gâmbia, ou até todos os africanos, todas as pessoas de pele negra, até porque vivo num bairro. Para mim, consegui mesmo quebrar um clichê”, acrescentou.
Usuman Kebeh conseguiu impressionar Pascal Gentil, duplo medalhado olímpico em taekwondo e membro do júri há três anos: “Pelo timbre de voz, pela linguagem não-verbal, pela forma como usou os acessórios, por exemplo, os óculos, pelo silêncio que criou e pelo modo como nos olhou fixamente, conseguiu verdadeiramente cativar-nos”, explicou.
Elisabeth Moreno, membro do júri e ex-ministra da Igualdade entre Mulheres e Homens, ficou igualmente impressionada com o nível em palco: “Passei duas horas e meia a ouvir jovens de 15 e 16 anos transmitirem mensagens extremamente fortes.”
“Ouvir um jovem falar de desigualdade entre homens e mulheres deixou-me arrepiada. Dedicar tempo a ouvi-los e a ensinar-lhes as técnicas de expressão em público é dar-lhes a possibilidade de exprimirem as suas ideias”, acrescentou.
Uma visão partilhada por Karl Olive, antigo jornalista desportivo e deputado na Assembleia Nacional pelo grupo Renascimento: “Estamos perante uma revolução, porque há dez anos poucos clubes profissionais incluíam nos seus programas ensinamentos deste tipo.”
Uma visão partilhada por Karl Olive, antigo jornalista desportivo e deputado na Assembleia Nacional pelo grupo Renascimento (partido de Emmanuel Macron, de centro-direita): “Estamos perante uma revolução, porque há dez anos poucos clubes profissionais incluíam nos seus programas ensinamentos deste tipo.”
“Está a desenvolver-se um saber-fazer nos centros de formação dos clubes de futebol profissionais. Isso é importante, porque alguns destes jovens vão ser entrevistados em direto”, observou o deputado.
“Enquanto deputado, considero que muitos dos jovens que se exprimiram na final seriam capazes de usar da palavra no hemiciclo da Assembleia Nacional!”