A apreensão constitui o mais recente exemplo dos esforços de França para travar navios suspeitos de ajudar a Rússia a contornar as sanções impostas após a invasão da Ucrânia.
Um petroleiro suspeito de integrar a "frota fantasma" da Rússia chegou esta terça-feira à baía de Douarnenez, no oeste de França, escoltado pela Marinha francesa.
O petroleiro Tagor foi intercetado e abordado em águas internacionais ao largo da Bretanha, no domingo, com apoio do Reino Unido, confirmou o Palácio do Eliseu.
Segundo responsáveis franceses, o navio tinha partido do porto ártico russo de Murmansk e navegava sob falsa bandeira dos Camarões quando foi intercetado.
As autoridades referiram que o capitão russo do navio recusou inicialmente as ordens para parar, o que levou a uma operação de abordagem que o Kremlin descreveu como um ato de "pirataria internacional".
Trata-se do quarto petroleiro ligado à "frota fantasma" russa detido por França desde setembro de 2024.
Navios da chamada "frota fantasma" caraterizam-se, em regra, por estruturas de propriedade opacas, mudanças frequentes de bandeira, transferências de carga de navio para navio e coberturas de seguro limitadas.
Governos ocidentais afirmam que esta rede se tornou um instrumento crucial para exportar petróleo russo, apesar das restrições internacionais.
Segundo as autoridades francesas, o Tagor tinha como destino o porto de Limbe, nos Camarões, quando foi imobilizado.
Navegar com bandeira falsa ou inválida é considerado uma infração marítima grave, e é frequentemente associado à evasão de sanções.
Irão: magnata do transporte marítimo ligado às exportações de petróleo russas
O navio suscita particular atenção porque bases de dados o ligam à vasta rede de transporte marítimo do comerciante iraniano de petróleo Mohammad Hossein Shamkhani, uma das figuras mais proeminentes acusadas de facilitar as exportações de petróleo russas e iranianas.
Shamkhani, filho do antigo chefe da segurança nacional iraniana Ali Shamkhani, construiu uma ampla rede de empresas de transporte marítimo e logística a operar sobretudo a partir dos Emirados Árabes Unidos.
Em julho de 2025, a União Europeia sancionou Shamkhani e várias empresas ligadas ao seu império empresarial, incluindo a Admiral Group e a Milavous Group, descrevendo-o como um ator central da "frota fantasma" russa.
A União Europeia afirmou que a rede se tinha tornado um importante facilitador das exportações de petróleo bruto russo, e acusou-o de ajudar a gerar receitas significativas para o setor energético da Rússia.
Os Estados Unidos alargaram posteriormente as sanções contra aquilo que descrevem como o "vasto império marítimo" de Shamkhani, atingindo mais de uma centena de entidades, indivíduos e navios ligados à rede.
As autoridades norte-americanas afirmam que a estrutura gerou milhares de milhões de dólares através do transporte e venda de petróleo russo e iraniano, embora as autoridades francesas não tenham, até agora, alegado publicamente que Shamkhani seja o proprietário direto do Tagor.
França: quarto navio detido nos últimos tempos
França tem vindo a reforçar a fiscalização sobre navios da "frota fantasma" no último ano. As autoridades detiveram os petroleiros Deyna e Grinch, no Mediterrâneo, por motivos semelhantes, embora ambos tenham sido posteriormente libertados após o pagamento de coimas.
Noutro caso, um tribunal francês condenou à revelia o capitão chinês do petroleiro Boracay a um ano de prisão e aplicou-lhe uma coima de 150 mil euros, depois do navio não ter cumprido ordens para parar ao largo da costa da Bretanha, em setembro de 2024.
O governo francês anunciou em abril que vai agravar as penas para navios que operem sem registo de bandeira válido ou que recusem inspeções marítimas, refletindo a crescente preocupação europeia com a evasão de sanções e os riscos para a segurança marítima associados à "frota fantasma".
Segundo a União Europeia, perto de 600 navios ligados à Rússia estão atualmente sujeitos a sanções, numa altura em que os governos procuram reforçar as restrições às exportações de petróleo de Moscovo.