Relato exclusivo da Euronews revela a intensa negociação que levou a Hungria a levantar veto de dois anos à adesão da Ucrânia à UE.
Os embaixadores em Bruxelas estavam na sala há quase 12 horas seguidas.
A lista de temas parecia interminável: competitividade, defesa, migração, ação climática, o conflito no Médio Oriente e até uma diretiva sobre tributação do tabaco, e os diplomatas começavam a acusar o cansaço.
Depois, quando a reunião já se aproximava do fim, foi acrescentado um novo ponto à ordem de trabalhos.
Chipre, o país que detém atualmente a presidência rotativa do Conselho da UE, tinha recebido o sinal que aguardara ansiosamente durante dias: a Hungria estava pronta para levantar o controverso veto ao processo de adesão da Ucrânia.
Este relato baseia-se em entrevistas com vários responsáveis e diplomatas que falaram sob condição de anonimato para descrever os acontecimentos que conduziram ao avanço.
Durante dois anos, o veto revelou-se inultrapassável. A Polónia e a Dinamarca, que exerceram as presidências anteriores, prometeram quebrar o impasse, fazendo disso uma prioridade. Apesar de todos os esforços, não conseguiram e o bloqueio manteve-se.
Chipre estava determinado a evitar o destino dos seus antecessores. O país recebeu uma oportunidade de agora ou nunca depois de as eleições húngaras de 12 de abril terem afastado Viktor Orbán, o arquiteto do veto, e levado Péter Magyar ao poder.
A transição desencadeou uma vaga de negociações à porta fechada em Bruxelas, Budapeste e Kiev, que culminou numa única pergunta na noite de quarta-feira.
"Alguém tem objeções?", perguntou o embaixador cipriota à sala.
A pergunta foi recebida com silêncio, e o silêncio fez cair o veto.
O embaixador foi então autorizado a enviar duas cartas à Ucrânia e à Moldova, informando da disponibilidade para abrir o primeiro grupo de negociações de adesão à UE, conhecido como "Fundamentos", que abrange o Estado de direito, os direitos humanos e o sistema judicial.
Em teoria, tratava-se apenas de um passo processual simples. Na prática, foi uma conquista de enorme alcance que pôs termo a dois longos anos de paralisia e frustração.
Não houve aplausos na sala. Mas o alívio era palpável.
"Toda a Bruxelas estava à espera disto", comentou um diplomata. "É inacreditável. São boas notícias".
A abertura formal do primeiro grupo está prevista para 15 de junho, no Luxemburgo.
Valor do diálogo
As bases para o avanço de quarta-feira foram lançadas no início de maio, quando a Hungria e a Ucrânia iniciaram consultas sobre direitos das minorias. A primeira ronda de conversações entre os ministros dos Negócios Estrangeiros realizou-se online a 20 de maio, num ambiente positivo.
A situação da minoria húngara na região ucraniana da Transcarpátia ocidental tem sido há muito uma forte fonte de fricção entre os dois países, um dossier tornado particularmente sensível pelo sentimento nacionalista de ambos os lados.
Na Hungria, o tema reúne um amplo consenso em todo o espectro político. Depois de perder a Primeira Guerra Mundial, o país assinou o Tratado de Trianon, em 1920, perdendo dois terços do território e mais de três milhões de húngaros. O episódio é considerado um dos traumas fundadores da história nacional húngara.
Budapeste criticou duramente o esforço de Kiev para reforçar o uso da língua do Estado após a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia. A lei da educação de 2017, que reforçou o uso do ucraniano nos anos de escolaridade mais avançados, irritou especialmente a Hungria. Kiev adotou depois uma lei linguística para reforçar ainda mais o ucraniano na administração pública.
Em 2023, a Ucrânia alterou a Lei das Minorias Nacionais para a adaptar aos critérios de adesão à UE e às recomendações da Comissão de Veneza do Conselho da Europa. O novo diploma passou a permitir o uso de línguas da UE e das minorias nacionais na publicidade política, em escolas privadas, universidades, associações de estudantes representando minorias nacionais e no setor dos media.
Ao mesmo tempo, o ensino do ucraniano como língua do Estado continuou obrigatório em todas as instituições de ensino, embora pudesse ser lecionado em línguas da UE.
Apesar disso, as tensões permaneceram elevadas.
Ao lançarem as consultas, as duas partes procuraram um compromisso para aliviar tensões e restabelecer relações bilaterais, levadas a um mínimo histórico pelos vetos repetidos de Orbán. Segundo responsáveis e diplomatas, as conversações decorreram de boa-fé e a um ritmo decisivo, com a esperança de reconciliação a crescer dia após dia.
Entretanto, Chipre abriu uma via paralela de discussões entre a presidência, a Comissão e a Hungria para preparar a abertura do primeiro grupo. Budapeste queria garantir que qualquer acordo bilateral se refletiria no processo de adesão, enquanto Chipre e a Comissão procuravam evitar concessões injustas à Ucrânia. O objetivo era uma solução de "benefício mútuo" para todos.
Em 26 de maio, Taras Kachka, vice-primeiro-ministro ucraniano responsável pela integração europeia, disse à Euronews que o seu país estava a oferecer a Magyar o mesmo que tinha oferecido a Orbán.
"A Ucrânia trata a comunidade húngara no país com total respeito. Todas as suas necessidades estão hoje satisfeitas", afirmou Kachka na entrevista. "Portanto, isto não é uma promessa. É a realidade".
"Para nós, eles (a minoria húngara) são uma parte absolutamente integrante da sociedade ucraniana, com pleno respeito pela sua identidade nacional", acrescentou.
Alguns dias depois, a 29 de maio, Péter Magyar encontrou-se em Bruxelas com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, para desbloquear 16,4 mil milhões de euros em fundos de recuperação e coesão que tinham sido congelados devido a retrocessos democráticos.
Na conferência de imprensa que se seguiu ao muito mediatizado encontro, tanto Magyar como von der Leyen negaram que o desembolso tivesse sido condicionado ao levantamento do veto de Budapeste à adesão. Magyar, contudo, afirmou esperar "garantias" de Kiev em matéria de direitos das minorias, uma formulação que não chegava a exigir alterações constitucionais - a Ucrânia não pode alterar a Constituição sob lei marcial.
Durante a passagem por Bruxelas, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Magyar reuniu-se com Marta Kos, comissária europeia responsável pelo Alargamento, e informou-a dos progressos nas consultas.
Aval final de Magyar
Depois do encontro de Magyar com von der Leyen, tudo avançou rapidamente. A Hungria e a Ucrânia chegaram, nos dias seguintes, a um acordo preliminar a nível técnico.
A notícia chegou a Bruxelas e fez disparar a expetativa.
"Sabíamos que iria haver um acordo", disse um alto diplomata, sublinhando que o desbloqueio dos fundos europeus ajudou ao processo. "Mas chegou mesmo ao mais alto nível".
Esse nível era o próprio Magyar.
Na terça-feira, estava em Berlim com o chanceler alemão, Friedrich Merz. Aí, o dirigente húngaro disse estar "muito otimista" quanto às consultas e manifestou confiança em encontrar-se em breve com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, que tem insistido repetidamente no arranque das negociações de adesão.
"Estou pronto para me encontrar com o presidente da Ucrânia no início da próxima semana, se conseguirmos chegar a acordo sobre estes direitos humanos fundamentais", afirmou.
Na quarta-feira, precisamente quando os embaixadores se reuniam em Bruxelas para a sua reunião-maratona, Magyar aterrou em Paris para conversar com o presidente francês, Emmanuel Macron. No final do encontro, deu o seu aval pessoal ao acordo técnico.
Quando a presidência cipriota recebeu luz verde para avançar com os preparativos do primeiro grupo, Magyar publicou na sua conta de Facebook um vídeo gravado em Paris, confirmando as "boas notícias" do acordo.
"Cem mil húngaros recuperam os seus direitos fundamentais", declarou Magyar.
O acordo, que ainda não foi tornado público, abrange o uso livre dos símbolos nacionais húngaros e o direito a certificações escolares, adiantou.
O passo mais significativo é, provavelmente, a criação de um estatuto de escola minoritária. A gestão escolar será feita na língua materna e os pais poderão bloquear qualquer alargamento do uso do ucraniano, explicou.
Nas localidades onde as minorias representem mais de 10% da população, o húngaro será permitido na administração pública, tornando-se na prática uma língua oficial. A atividade política e a campanha eleitoral também poderão decorrer em línguas minoritárias.
Um ponto crucial é que o acordo abrange todas as minorias nacionais ligadas a Estados-membros da UE, excluindo na prática os russos.
"Em apenas três semanas, conseguimos o que Viktor Orbán e o seu governo não conseguiram em dez anos", afirmou Magyar.
As autoridades ucranianas, habitualmente rápidas a reagir a boas notícias, responderam desta vez com uma reserva invulgar. Contactado pela Euronews, o Ministério dos Negócios Estrangeiros não tinha qualquer reação imediata, apesar das manchetes vindas de Bruxelas.
Taras Kachka foi o primeiro a reagir, embora bastante depois da notícia, agradecendo os esforços da presidência cipriota. Descreveu prudentemente a decisão como um "passo rumo" à abertura do primeiro grupo. Não mencionou a Hungria nem o entendimento com Budapeste.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha, diretamente envolvido nas consultas, só divulgou a sua própria declaração na manhã de quinta-feira.
"Estamos a abrir um novo capítulo nas relações entre a Ucrânia e a Hungria, assente no respeito mútuo, na confiança e no nosso futuro europeu partilhado", afirmou. "A Ucrânia está a avançar".
As autoridades ucranianas não comentaram o conteúdo do acordo e não revelaram que medidas ou compromissos aceitaram com a Hungria.
Ainda assim, para todos os efeitos, o veto ficou levantado.
Responsáveis e diplomatas em Bruxelas resumiram o sentimento numa palavra: "Finalmente".