A votação de domingo evidenciou a perda de influência numa região antes dominada pela Rússia, apesar de alegadas ameaças de Moscovo e queixas de ingerência.
Os arménios decidiram virar a página do seu passado político conturbado, dando ao primeiro-ministro cessante, Nikol Pashinyan, um forte mandato para um futuro equilibrado e pró-Ocidente, já que os primeiros resultados desta segunda-feira mostram o seu partido Contrato Civil na frente.
O voto de domingo assinala também o recuo da influência numa região em tempos dominada pela Rússia, apesar das alegadas ameaças de Moscovo e de acusações de interferência.
Arménia e Rússia são, em teoria, aliados, mas Moscovo comparou as ambições da ex-república soviética de aderir à União Europeia a uma das razões que levaram ao lançamento da invasão em grande escala da Ucrânia em 2022.
Com mais de 60% dos votos contados, o partido Contrato Civil lidera face à aliança Arménia Forte, do bilionário russo-arménio Samvel Karapetyan, por 51,2% contra 23%, indicou a Comissão Eleitoral Central.
Duas outras forças da oposição, a Aliança Arménia, do ex-presidente Robert Kocharyan, e o partido Arménia Próspera, também ultrapassaram o limiar eleitoral, obtendo 9,9% e 4,1% dos votos, respetivamente.
A participação foi de 59%, segundo a comissão.
Pashinyan saudou a "vitória histórica que garantirá a eternidade e o desenvolvimento da Arménia".
Prometeu "continuar o caminho de aproximação ao Ocidente" e, ao mesmo tempo, desenvolver as relações da Arménia com a Rússia.
"O povo arménio votou pela prosperidade regional e pela cooperação e espero que isto tenha uma resposta positiva da Turquia e do Azerbaijão", disse em conferência de imprensa, acrescentando que "é preciso institucionalizar a paz entre a Arménia e o Azerbaijão".
Prometeu ainda "a erradicação definitiva do sistema criminoso e oligárquico da Arménia", afirmando que "os líderes dessas forças devem ser responsabilizados criminalmente".
As eleições surgem após anos de turbulência desde que Pashinyan chegou ao poder, em 2018, na sequência de uma revolução de rua.
Pashinyan conduziu uma campanha eleitoral acesa, dizendo aos arménios que o futuro estava em jogo e enfrentando abertamente críticos e oposição, que o acusavam de ter abandonado o Carabaque e traído o país, insistindo na mensagem de que fechara o capítulo com o Azerbaijão para construir um futuro pacífico e próspero para a região do Sul do Cáucaso.
O político de 51 anos procura também reduzir a dependência da Arménia em relação a Moscovo, depois de esta não ter ajudado durante o conflito do Carabaque.
Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ofereceu o seu "apoio TOTAL à reeleição" ao "grande amigo e líder" Pashinyan, Moscovo reage mal à possível perda de mais um aliado na sua esfera de influência.
"Aceitaremos qualquer escolha feita pelo povo", disse Pashinyan aos jornalistas, numa assembleia de voto em Erevan, depois de votar.
Garantiu que, após o escrutínio, a Arménia seguirá uma política externa equilibrada, insistindo que "não se coloca a questão de escolher" entre a Rússia e o Ocidente.
O Kremlin é acusado de tentar influenciar o resultado.
Analistas assinalam desinformação na internet, atividade de piratas informáticos e narrativas favoráveis ao Kremlin que apresentam a cooperação com o Ocidente como perigosa.
Nas semanas que antecederam o voto, a Rússia proibiu a importação de vários produtos da Arménia, numa medida interpretada como tentativa de aumentar a pressão económica sobre o país.
E responsáveis arménios alertaram que "inimigos da liberdade" estão a financiar esforços de propaganda.
"Pressa imprudente"
Pashinyan insiste que não pretende uma rutura com Moscovo, mas a campanha decorreu como uma batalha pelo futuro geopolítico da Arménia.
Pashinyan e os seus principais adversários acusaram-se mutuamente de pôr em risco um novo conflito.
Pashinyan disse aos eleitores que a Arménia poderia enfrentar uma "guerra catastrófica" com o Azerbaijão dentro de poucos meses se o seu partido não conseguisse uma maioria sólida.
Os adversários classificaram essa retórica como alarmismo.
Os partidos da oposição acusaram as autoridades de violações eleitorais e de repressão, em particular contra as suas equipas de campanha.
O Comité de Investigação da Arménia indicou ter aberto 59 processos-crime por alegadas violações eleitorais, incluindo voto múltiplo, e deteve nove pessoas.
O líder da Arménia Forte, Karapetyan, rejeita as acusações de que pretende arrastar a Arménia de volta para a órbita da Rússia, mas advertiu contra a "pressa imprudente" de Pashinyan em direção ao Ocidente.
Está em prisão domiciliária desde o ano passado, acusado de planear um golpe de Estado, acusações que rejeita por as considerar politicamente motivadas.
"Voto pela paz"
O historial democrático de Pashinyan também foi a votos.
Oito anos depois de ter chegado ao poder com a promessa de desmantelar o sistema oligárquico da Arménia, enfrenta acusações crescentes de retrocesso democrático.
Ainda assim, para muitos arménios, a oposição continua associada à influência russa e aos oligarcas.
"Votei pela paz. Só Pashinyan pode trazer paz", disse um eleitor, o artesão Hakob Hakobyan, de 63 anos, à agência noticiosa AFP.
Outro eleitor, Khachatur Movsisyan, engenheiro mecânico de 59 anos, afirmou ter votado num partido da oposição "porque o país, e todos nós, precisamos de mudança, na política externa, na política interna e nas negociações com o Azerbaijão".