Enquanto os europeus aguardam com apreensão segunda vaga de calor, o ar condicionado tornou-se símbolo do conflito entre justiça social e objetivos climáticos e energéticos da UE.
Depois de uma vaga de calor brutal que terá causado cerca de 1.300 mortes na Europa e com uma segunda a aproximar-se no início de julho, a política climática está mais polarizada do que nunca.
Apresentado em 2019, o Green Deal europeu assenta na premissa de consumir menos energia, queimar menos combustíveis fósseis e tornar as casas europeias mais eficientes, para evitar um aquecimento futuro ao reduzir as emissões de gases com efeito de estufa (GEE).
A visão de Bruxelas foi, porém, moldada em grande medida pelo inverno, ao privilegiar a forma de manter os europeus aquecidos e de reduzir a dependência do gás importado.
Depois chegou o calor. À medida que os europeus enfrentavam temperaturas escaldantes, muitos começaram a sentir os custos do Green Deal antes de experimentarem os seus benefícios.
A vice-presidente executiva da Comissão Europeia para uma transição limpa, justa e competitiva, Teresa Ribera, reconheceu que a vaga de calor que atualmente atinge a Europa é algo "que sabíamos que podia acontecer, mas não fomos suficientemente inteligentes para atacar as causas profundas".
"Continua a haver uma luta feroz contra os factos, a ciência, a preparação e o investimento (em energia limpa), por isso estamos a falhar às pessoas. Temos de rejeitar este tipo de disparates, assentes em mentiras e contra os interesses das pessoas", disse Ribera ao jornal The Guardian.
De Paris a Amesterdão, de Madrid a Munique, os verões escaldantes estão a tornar-se mais longos e intensos. O continente que passou décadas a isolar casas contra o frio está a descobrir que muitos desses mesmos edifícios se transformaram em armadilhas de calor em julho.
França, Alemanha, Polónia e Reino Unido registaram em junho o dia mais quente de sempre.
"Não podemos simplesmente confinar as pessoas, sobretudo as mais vulneráveis, durante os verões extremos que aí vêm. É preciso adaptar o espaço público. Precisamos de mais zonas verdes, que fazem uma enorme diferença na temperatura ambiente, incluindo nos edifícios próximos", disse à Euronews o eurodeputado Martin Hojsík (República Checa/Renew Europe).
Ar-condicionado entra na política europeia
Poucos contestam que a Europa precisa de mais arrefecimento. O desafio é que a forma mais rápida de refrescar milhões de casas passa por instalar milhões de aparelhos de ar condicionado.
Uma decisão dessas seria uma afronta à transição climática da UE e um paradoxo político para a Comissão Europeia, que recentemente negou ter uma posição a favor ou contra o ar condicionado, antes da estratégia de adaptação climática prevista para o quarto trimestre do ano.
Perante temperaturas impossíveis de suportar, o eurodeputado Roman Haiden (Áustria/Patriots for Europe) defendeu o uso do ar condicionado como uma "solução bastante óbvia".
"Ligue o ar condicionado se tem calor, ligue o aquecimento se tem frio", disse Haiden à Euronews.
Uma visão semelhante foi partilhada pelo eurodeputado Michal Kobosko (Polónia/Renew Europe), que afirmou que a Europa "vai definitivamente precisar" de aumentar, no futuro próximo, o número e a capacidade dos sistemas de ar condicionado, "tanto nas nossas fábricas como nas nossas casas na Europa".
"Não é uma opção, é uma necessidade. Há aqui duas questões: esta tendência deve impulsionar a procura por sistemas de ar condicionado projetados e produzidos na Europa, não apenas pelos chineses. Em segundo lugar, o ar condicionado consome muita energia. A situação varia entre os Estados-membros, mas, em termos gerais, vamos precisar de muitas fontes adicionais de energia limpa e acessível", disse Kobosko à Euronews.
Também vinda das fileiras liberais, a eurodeputada Ana Vasconcelos (Portugal/Renew Europe) apoia o ar condicionado como parte da resposta ao calor extremo.
"Quanto a um plano de expansão: a resposta é sim, se esse plano significar deixar o mercado funcionar, reduzindo os encargos fiscais e regulatórios que travam a lei da oferta e da procura, que faz baixar os preços para que as pessoas possam pagar o que precisam", disse Vasconcelos à Euronews.
O Green Deal incentiva a eletrificação porque a eletricidade pode ser produzida cada vez mais a partir de fontes renováveis. Porém, não são apenas os GEE ligados ao uso do ar-condicionado que preocupam, mas também a pressão que estes aparelhos exercem sobre a rede elétrica obsoleta do bloco, o que levanta dúvidas quanto ao uso do ar-condicionado.
Os críticos do ar-condicionado defendem que, se cada agregado familiar responder ao calor extremo instalando aparelhos convencionais, a procura de eletricidade poderá disparar nas tardes mais quentes, obrigando a investimentos caros na rede e em capacidade de produção de reserva.
Mas os seus defensores argumentam que o pacote das redes da UE, uma legislação concebida para reformar a rede elétrica e acelerar a entrada de energia limpa, deve responder às necessidades atuais das pessoas comuns, bem como às que decorrem da manutenção de centros de dados controversos.
Este cenário está a obrigar a repensar de forma mais ampla o que deve ser a política climática, com um apoio crescente à ideia de que o arrefecimento já não pode ser tratado como uma escolha de consumo, mas sim como infraestrutura crítica.
Green Deal enfrenta teste de verão
Durante anos, o ar condicionado esteve associado a centros comerciais no sul de Espanha, hotéis na Grécia ou torres de escritórios em Itália. No norte da Europa, continuou a ser exceção e não regra, e os edifícios eram concebidos para reter o calor.
As políticas públicas concentraram-se no isolamento, em caldeiras eficientes e na substituição do gás fóssil por bombas de calor — medidas que exigiram investimentos significativos por parte dos cidadãos, muitas vezes acompanhados de pesada burocracia.
A procura de arrefecimento está a aumentar rapidamente em países como França, Alemanha, Bélgica e Países Baixos, onde os agregados familiares veem cada vez mais o ar condicionado não como um luxo, mas como proteção contra temperaturas perigosas.
No Reino Unido, na semana passada, registaram-se longas filas para comprar unidades de ar condicionado num supermercado em Hampshire, com pessoas a correr para garantir soluções rápidas e acessíveis para enfrentar a vaga de calor.
Por toda a Europa, escolas, hospitais e lares de idosos confrontam-se com níveis de calor para os quais nunca foram concebidos. Os empregadores repensam a segurança no trabalho e as cidades abrem centros de arrefecimento ao lado dos tradicionais abrigos de inverno.
«É claro que temos de reduzir as emissões de CO2, mas temos de nos adaptar às alterações climáticas, porque a inação tem consequências na saúde, na economia, na vida quotidiana, no bem-estar e na biodiversidade. E temos de o fazer em conjunto, à escala europeia», afirmou recentemente aos jornalistas o ministro belga do Clima, Jean-Luc Crucke.
Conciliar adaptação e descarbonização torna-se desafio
O problema para os eurodeputados é que a adaptação e a descarbonização já não se articulam tão facilmente como antes. Além disso, nos últimos meses, partes da UE reduziram ou adiaram elementos do Green Deal sob pressão de agricultores, da indústria e de grupos políticos conservadores, alegando falta de competitividade.
Em resposta ao sentimento de urgência, o Partido Verde Europeu apelou recentemente a uma reunião de emergência dos chefes de governo da UE, argumentando que o calor extremo se tornou uma crise de segurança, de saúde e económica à escala continental, e não um fenómeno meteorológico sazonal.
«A Europa enfrenta uma escolha clara: enfraquecer ou reforçar as proteções do Green Deal que mantêm as pessoas em segurança. A ciência é clara. Todas as pessoas que vivem na Europa já sofrem as consequências», declarou o eurodeputado Ciaran Cuffe (Irlanda), copresidente do Partido Verde Europeu, citando os números mortais sobre ondas de calor da Organização Mundial de Saúde na região.
Ao ligar diretamente o aumento das temperaturas a essas reversões de política, os Verdes tentam deslocar a narrativa política dos custos da ação climática para os custos da inação climática.
A Organização Europeia de Consumidores (BEUC), com sede em Bruxelas, sustenta que «o ar condicionado vem somar-se a soluções mais passivas» que também são necessárias: melhor desenho urbano que integre árvores, pintar casas com cores refletoras ou instalar portadas e sombreamento.
«As pessoas em muitas partes da Europa também precisam de aquecer as casas no inverno, por isso há um argumento legítimo sobre o arrefecimento no verão», afirmou Frederico Oliveira da Silva, responsável pela área da energia na BEUC.
No entanto, a organização de consumidores sublinhou o valor das bombas de calor para proporcionarem simultaneamente arrefecimento e aquecimento, mas reconheceu que o custo inicial continua a ser um problema e instou os governos «a apoiar quem precisa»
O eurodeputado Hojsík afirmou que a tecnologia das bombas de calor "não deve ser descartada", defendendo tratar-se de um investimento "que pode ser facilmente apoiado com fundos públicos provenientes das receitas do mercado de carbono do bloco, o Sistema de Comércio de Emissões (ETS)".
"Este investimento é benéfico em muitos planos e é claramente elegível para apoio público proveniente das receitas do ETS, o que anularia o impacto do ETS2 no aquecimento das habitações", disse Hojsík.
«Também não devemos esquecer a necessidade de renovação do parque habitacional, que pode ser igualmente apoiada com receitas do ETS».
Calor extremo expõe desigualdades sociais
A política também se torna mais complexa à medida que o calor revela desigualdades com a mesma nitidez com que o frio as revelava antes. Os agregados com mais recursos podem instalar sistemas de arrefecimento, enquanto as famílias mais pobres frequentemente suportam temperaturas interiores perigosas.
As cidades com mais parques e árvores permanecem mais frescas do que os bairros dominados pelo betão, sublinhando o acesso ao arrefecimento como um problema social crescente numa Europa em aquecimento.
Isto não significa que o Green Deal tenha falhado, mas sim que o seu centro de gravidade está a mudar.
As vagas de calor que varrem o continente sugerem que outra tarefa se torna igualmente urgente: ajudar os europeus a viver com um clima que já mudou.
O Green Deal foi concebido para reduzir as emissões de carbono. Tem agora de provar que também pode ajudar a Europa a lidar com o aumento do calor.