«Para continuarmos transatlânticos, temos de nos tornar mais europeus», afirmou Mark Rutte antes da cimeira da NATO em Ancara, onde se espera que os aliados europeus apresentem planos reforçados de despesa em defesa.
A NATO tem de se tornar mais europeia para reduzir a dependência histórica do guarda-chuva de segurança dos Estados Unidos, defenderam Ursula von der Leyen e Mark Rutte esta terça-feira, numa altura em que os líderes da aliança, com 77 anos de existência, se reúnem em Ancara, na Turquia, para a cimeira anual.
"Ambos sabemos como é importante uma cooperação estreita entre a União Europeia e a NATO", afirmou a presidente da Comissão Europeia, ao lado do secretário-geral da NATO, num fórum industrial que antecede a cimeira.
"Mas para que isso seja possível, precisamos de interoperabilidade."
Rutte alinhou-se às palavras de von der Leyen, sublinhando a "clara divisão de tarefas" entre as duas organizações: a NATO assume a estrutura de comando, as capacidades e as normas, enquanto a UE é responsável pela indústria, pelo investimento e pela regulação.
Vinte e três dos 27 Estados-membros da UE também pertencem à NATO.
"Não podemos continuar, como até aqui, excessivamente dependentes dos Estados Unidos. Precisamos de uma Europa muito mais forte dentro de uma NATO mais forte", afirmou Rutte, saudando uma transformação "sem paralelo" impulsionada pela maior cooperação entre a UE e a NATO.
"Para continuarmos transatlânticos, temos de nos tornar mais europeus."
A cimeira de Ancara realiza-se após meses de crescentes tensões transatlânticas, alimentadas pela decisão unilateral da Casa Branca de lançar um ataque contra o Irão e pela redução gradual dos meios militares estacionados na Europa.
Alarmados com o agravamento das fraturas, os europeus estão determinados a mostrar ao Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que estão a assumir responsabilidades e a reforçar o investimento em defesa a um ritmo acelerado, tendência muitas vezes descrita como "europeização da NATO".
Mas enquanto alguns países, como a Polónia, os países bálticos e os nórdicos, aumentaram de forma drástica a despesa militar em direção à nova meta de 5% do PIB, outros, como a Espanha, a Bélgica, Luxemburgo e a República Checa, continuam muito atrás.
Na terça-feira, von der Leyen destacou os planos financeiros que a Comissão apresentou para reforçar as capacidades de defesa europeias: 150 mil milhões de euros ao abrigo do programa de empréstimos SAFE e 135 mil milhões de euros provisoriamente reservados no próximo orçamento da UE.
"Neste contexto geoestratégico e geopolítico, precisamos de um aumento massivo do investimento em defesa", disse.
"Com este dinheiro dos contribuintes, queremos, naturalmente, um retorno do investimento. E queremos bons empregos na Europa. Queremos investigação e desenvolvimento na Europa. É algo importante para nós", acrescentou.
Rutte afirmou que a NATO precisa de um "enorme aumento" em toda a sua base industrial de defesa, de ambos os lados do Atlântico, para acompanhar a máquina de guerra total da Rússia.
"A Rússia tem hoje toda a economia em modo de guerra. A indústria automóvel russa está a produzir para o esforço de guerra, e isso significa que temos de fazer o mesmo na Europa, no Canadá e nos Estados Unidos", disse Rutte.
"Temos de nos defender. É a primeira tarefa de qualquer governo. E a ameaça existe. A Rússia trabalha com a Coreia do Norte, o Irão e a China. Não sejamos ingénuos."